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Opinião

2024, Mamãe e os Retratos Fantasmas

Por: SIDNEY NICÉAS
Crônica de começo de ano tem fim, mudanças, recomeços - tem? Leia agora o primeiro texto de 2024 de Sidney Nicéas e do Blog Tesão Literário!

Foto: Sidney Nicéas/Click do filme Retratos Fantasmas na Nerflix

02/01/2024
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*por Sidney Nicéas

Enfim assisti ao excelente Retratos Fantasmas, de Kléber Mendonça Filho. Estava me devendo. Já sabia que mamãe aparece no filme, imaginava que o documentário iria me agradar, tinha certeza de que a temática da película atingiria em cheio minhas pesquisas e ideias que ando trabalhando para dois novos livros, um de contos e o outro um romance de ficção. Mas o que diabo tudo isso tem a ver com 2024?

Antes desse link com o ano que já chegou (se aninhando com um monte de esperanças inafiançáveis), o doc: Retratos Fantasmas joga na cara o autofagismo do Recife, o que na cultura é ainda maior - a metáfora da corda de caranguejo nunca foi tão evidente; toda vez que um caranguejo consegue subir, os demais acabam puxando pra baixo e ninguém vai. Cada parte do documentário ilustra uma faceta do citado autofagismo: os bairros descaracterizados; os charmosos cinemas de rua trocados pelos fast-foods dos shoppings, igrejas e grandes lojas de eletrodomésticos; a invisibilidade preenchendo tudo - e que massa a ficção viva no passeio por um Recife fantasma!

Na parte que trata dos cinemas, destaque inevitável para a minha mãe: filha do grande jornalista/radialista Amarílio Nicéas, foi ele, vovô, que conseguiu pra ela e minha tia, Marília (Lila), o trabalho na recepção das autoridades convidadas para a inauguração do Cine Veneza, um dos mais luxuosos da cidade. Mamãe, Wolda, aparece em close em alguns momentos (imagem que ilustra o post), ora com sua beleza e charme marcantes, ora ofertando rosas para os convidados, dentre eles o saudoso Ariano Suassuna, revelando o glamour da ocasião. E tudo resultou num belíssimo equipamento cultural hoje largado ao léu - isso pra ficar só no caso do Veneza, já que o filme esmiúça vários outros cinemas que viraram almas penadas num Recife assombrado.

Nenhum desenvolvimento justifica esse tipo de autofagia. Em poucos séculos a cidade se engoliu em várias frentes, da Cidade Maurícia aos cinemas de rua, tudo sendo autodeglutido em nome de uma modernização escrota - evolução sem raiz leva pra onde? O que será do Recife amanhã? O que será autodeglutido? Quantas farmácias e igrejas abarrotarão o resto da cidade - ou o que virá para substituí-los? O calor vencerá? Ou o aguardado tsunami que tanta gente sonha será enfim guarida?

Que bom que a arte está sempre nos desafiando a pensar - e agir. A Literatura, o Cinema, o Teatro etc estão aí para enfiar o dedo nas nossas feridas e sacudir tudo que se convenciona e nos é empurrado goela adentro. Cheguei naquele ponto em que a realidade não tem mais poder; a ficção (sempre) permeia tudo e impele a criar, e a provocar a mente alheia, e acaba impulsionando as atenções críticas àqueles que deveriam, através da política, agir.

É aqui que entra 2024. Esse ano (que ontem ia chegar e hoje já chegou) deverá trazer, além de uma obra infantil, o meu livro “Dum Recife Onde Ninguém Escapa”, contos curtos, resultados dos meus experimentos para encontrar a voz narrativa do romance de ficção em construção - este que sintoniza bem com os Retratos Fantasmas desta cidade ambígua. Mais ainda, é nova esperança de que coisas mudem na maneira como fazemos a(s) cidade(s) - e a nós mesmos, afinal, a(s) cidade(s) sou(somos) eu(nós)!

2024 já é minha mais nova utopia. Entrei nele com o desejo de que tudo seja melhor, sabendo que muitas mudanças se anunciam e que recomeçar, todo dia, é indispensável. Vou buscando uma força que nem sei se tenho. É o que desejo também, força e fé, pra você, que já deve estar de saco cheio ao me ler até aqui... 

Vamos juntos!

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Sidney Nicéas é escritor com seis obras publicadas e editor deste Blog. Colunista de Literatura das Rádios CBN e Transamérica, preside a Ideação, co-realizadora da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Prepara três novos livros para breve, um infantil, outro de contos e um romance de ficção. Também é Relações Públicas com MBA em Gestão de Pessoas, Pós-Graduado em Escrita Criativa e titular da própria assessoria de comunicação, a Sidney Nicéas Comunicação Integrada. Professor universitário, também ministra palestras, workshops e oficinas de escrita. Ainda integra os projetos sociais Sertânia Sem Fome e Mundo do Lua, além de promover diversas ações que visam a inclusão social pela Literatura.
 

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