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Literatura

A Biblioteca Popular do Coque e a tragédia brasileira

Por: SIDNEY NICÉAS
Completando 15 anos, a Biblioteca do Coque coleciona cases de sucesso pelo livro e muitas dificuldades

Foto: Sidney Nicéas

07/08/2022
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*por Sidney Nicéas

No Brasil, as coisas mais evidentes, sérias, costumam ser soterradas com narrativas distorcidas que apontam a contramão. Falar sobre o poder transformador do livro e, consequentemente, da leitura, é perceber isso - a falácia do desenvolvimento apoiado meramente no viés econômico, cheia de imediatismos e vazia de senso de equidade, vem soterrando as nossas reais necessidades. O povo precisa ler, pensar, agir mais - e o povo é todo mundo, de todas as classes sociais. Para resolver os nossos maiores problemas precisamos de políticas de longo prazo que cheguem às raízes: Educação e Cultura. É aí que a Biblioteca Popular do Coque, encravada no coração do Recife (PE), vira uma perfeita tradução da tragédia que é o Brasil, que continua pisoteando os caminhos que o levariam à evolução.

Antes de falar da biblioteca, é indispensável saber que a Comunidade do Coque é o apelido dado pela população recifense à Ilha de Joana Bezerra, seu nome “verdadeiro”, área que separa o resto do Recife ao bairro de Boa Viagem (leia mais sobre isso no final desta matéria). O local possui o pior IDH - Índice de Desenvolvimento Humano desta mesma cidade que costuma virar as costas para lá. Violência, tráfico de drogas, assaltos e outras mazelas sociais criaram uma espécie de tatuagem na comunidade. Mas isso é só um lado da história. É lá, no Coque, que também vivem pessoas honestas, trabalhadoras, cidadãs recifenses que contribuem com o desenvolvimento da capital pernambucana; é lá que a sua biblioteca popular atua para não deixar a maioria dos 40 mil moradores se esquecerem de que são… gente.

O projeto foi iniciado há 15 anos pela pedagoga Maria Betânia Andrade e seu filho Rafael Andrade, hoje graduado em Letras, moradores incomodados com toda a pecha (e a carência de iniciativas para o livro) que a localidade sofria. “No início era a biblioteca de Betânia, depois passou a se ter uma noção real de pertencimento; comecei a perceber o reconhecimento da comunidade, do espaço como espaço deles”, explica Betânia. “Uma vez um homem apareceu para falar comigo: “Vim trazer meu filho aqui pra ser gente. Sou traficante, mexo com um monte de coisa que não se deve e não quero isso pro meu filho”, ele me disse. Foi aí que vi que não era impossível e passei então a ver a relevância do espaço. E todos começaram a ver a biblioteca como um local renovador. É um respiro de leitura e cultura no Coque”.

É fundamental falar sobre o Coque sem o terrorismo atribuído, e sobre a Biblioteca do Coque sem um possível romantismo que muitas vezes se vende por aí. A violência é uma realidade no local e afeta mais ainda os que lá residem - mas a vontade de mudar as coisas também. “Percebo muitas pessoas na comunidade que têm medo da violência, que quase não saem de casa, mas que vêm aqui na biblioteca. Algumas nem sabem ler, mas gostam de pegar livros. Isso é interessante”, afirma Betânia, que atesta as dificuldades em manter um trabalho sério ali. “Às vezes a gente desanima, vê os problemas, inclusive estruturais, e sempre aparece alguém dizendo que a BPC é indispensável para sua vida etc. Isso renova a alma e o ânimo da gente”, Betânia fala apontando para as caixas repletas de livros, tiradas de uma sala da pequena casa por conta das infiltrações causadas pelas chuvas e, especialmente, do mofo, muito mofo. 

A BPC vive em campanha para receber doações financeiras que ajudem a custear o seu funcionamento. Os custos fixos mensais não são altos, giram em torno de mil reais, mas é sempre uma dificuldade para conseguir manter o espaço, ainda mais quando falamos de acervo, custos de manutenção da casa etc. E tudo começa com a ausência de políticas públicas para o setor. “Falta o reconhecimento do Poder Público. Precisamos ser reconhecidos como uma biblioteca pública, que é o que somos. A nossa, dentro de uma comunidade com 40 mil habitantes, com uma doação sobrehumana - deixamos de trabalhar profissionalmente para manter isso aqui ativo -, precisa muito desse reconhecimento. Isso facilitaria muito. Apoio privado de empresas também são escassas, poderiam nos ajudar muito. Em relação às pessoas, às vezes sentimos falta de um olhar mais humano, de compreender que o que fazemos tem relevância”, desabafa.

IMPACTOS

Betânia sabe o que diz. Ela vem conseguindo mapear os excelentes resultados da atuação da BPC nesses 15 anos de existência. E o maior trunfo está na transformação das pessoas, desde crianças que se desenvolvem plenamente, jovens que chegam à universidade e/ou focam numa profissão (muitas vezes artística), até àquelas que não sabem ler e buscam o letramento, idosos, donas de casa e até pessoas com transtornos psicológicos que se curam pela leitura. São muitos os relatos e histórias que Betânia e Rafael presenciam no dia-a-dia da biblioteca que atestam o quanto o livro e a leitura transformam. “A biblioteca é uma porta aberta para as pessoas, e até para resgatar leitores. Sempre que chegam livros a gente vê a empolgação dos frequentadores”.

Betânia atesta que a leitura é sim um grande atrativo para pessoas de todas as faixas etárias e a biblioteca tenta sempre manter o acervo renovado. Os quadrinhos, por exemplo, são a grande atração para as crianças. “Muitos devoraram todo o acervo e passei a buscar soluções. Eles pediam Terror e Suspense. A criança vai se desenvolvendo e se consolidando como leitor de verdade. Dos quadrinhos e da literatura de horror vão passando para outros autores. Muitos levam 05, 06 livros para casa. Devolvem às vezes em um mês. Lêem mesmo. Na Pandemia isso foi comum. Eles quando vêm contam como é cada livro, mostram que conhecem mesmo. Temos um frequentador, já adulto, que adora Cordel e acabamos focando mais nesse tipo de literatura. Isso traz um impacto tremendo. Também temos uma frequentadora de 14 anos que sofre de Depressão e melhorou muito, muito mesmo. Ela vem doando vários livros pra gente, que ganha de parentes. Tornou-se uma leitora voraz”, conta com brilho nos olhos.

Outro impacto relevante mensurado pelo trabalho via biblioteca é a entrada na universidade. “Essa falácia de que ninguém estuda no Coque nunca me entrou. Identifiquei em 2018 mais de 500 jovens e mulheres que procuraram as universidades, públicas e particulares, para graduação. Comecei a perguntar a eles e todos colocam a nossa biblioteca como fonte de referência para leitura ou que vinham estudar aqui. Esse é um impacto que não tem preço!”, revela, firme. E as histórias vão se multiplicando.

“Uma frequentadora sempre vinha, mostrava interesse, mas não entrava na biblioteca. Um dia a encontrei e a mulher se mostrou depressiva. “Você sabe ler?”, “Sei, já li tanto, mas nunca mais consegui”. “Vá lá no nosso espaço”. Ela foi no dia seguinte. Emprestei a ela um livro de Clarice Lispector. Ela leu em 15 dias, voltou e pediu outro de Clarice. “Betânia, tô com um problema: não tô nem lavando os pratos, só quero ler! Falei com o médico da comunidade e pedi pra diminuir os medicamentos pra conseguir ler mais, porque acabava dormindo”. Um dia o médico encontrou comigo e disse que essa mulher é um exemplo fantástico de redução de medicamentos através da leitura. Passei a fazer mais trabalhos no posto de saúde e muitos me relatam que têm melhorado muito, virando leitores, reduzindo os medicamentos. Nosso trabalho e mediação funciona porque percebemos o leitor escondido em cada um”, afirma.

E não faltam iniciativas que sempre culminam na transformação pelo livro, em qualquer idade. Um dos projetos desenvolvidos pela BPC é o Piquenique de Leitura. Betânia seleciona uma casa da comunidade, leva tapete, cesta com livros, gibis, revistas… “Sempre tem quem não sabe ler ou não tem o hábito e a revista serve como gatilho. Já tive relatos de pais que não sabiam ler mas que um dos filhos leu para a família, outros que “liam a imagem”. Isso funcionou muito. Inclusive, pais e mães passaram a se matricular no EJA (programa público de Educação para Jovens e Adultos) porque queriam aprender a ler. A última vez que fizemos o Piquenique de Leitura foi em 2019, por conta da Pandemia. Quero retomar logo esse projeto”, explica.

Outra ação, o Retrato da Palavra, também passou a ter impacto na relação da biblioteca com as escolas do Coque, que foi ganhando mais intensidade com o tempo - neste caso, tendo como alvo principal mulheres de mais idade. “No Retrato da Palavra eu dou um tecido com tinta e pincel e elas pintam suas histórias. Formamos um tapete, que é o Retrato da Palavra. Comecei inspirada por Dona Antônia, que veio ao nosso espaço e participou de uma roda de leitura com o livro “A História que Minha Avó Conta”. Ela pediu pra levar o livro para ler, eu dei e acabei esquecendo. O tempo passou. Um dia precisei da obra para uma atividade e fui lá na casa dela. Pedi que ela devolvesse e ela bateu o pé. “Não, o livro é meu. Já li, reli e não devolvo não. Eu amei esse livro”. Vi que a obra era um símbolo para ela. Dei de vez e preciso comprar outro. Mas é uma história que emociona. A neta de D. Antônia disse que após esse livro ela desenvolveu tanto a memória que passou a contar muitas histórias dela mesma. Não tem preço”, revela, emocionada.

REDE

Foi pensando em como ampliar ainda mais esse impacto no Coque que Betânia teve a iniciativa de envolver as bibliotecas das escolas públicas da comunidade numa rede, que envolveu até a Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Nasceu assim a Rede de Bibliotecas do Coque (RBC), inédita no Brasil, um coletivo composto por bibliotecas públicas escolares e comunitárias e membros do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL) da UFPE. A Rede vem desenvolvendo ações voltadas ao fortalecimento de espaços de leitura, à formação de mediadores de leitura e à promoção de eventos e encontros de leitura e de acesso ao livro. A RBC vem promovendo uma aproximação indispensável com as bibliotecas públicas escolares, com a mediação da equipe do CEEL–UFPE e, em 2019, passou a existir como uma articulação entre bibliotecas que visam contribuir na construção de uma sociedade leitora. 

A RBC já atuou na reestruturação da Mangueoteca da E.M. Novo Mangue e da implantação da Bebeteca no CMEI Mãezinha do Coque; na realização de um curso de formação docente aberto à adesão voluntária de equipes das escolas do bairro, que resultou na implantação de dois projetos didáticos: De carta em carta e Conte lá que eu conto cá; além da participação na organização da Feira Territórios Interculturais da Leitura, do Centro de Educação da UFPE, passando a compor também a comissão organizadora da Festa Literária do Coque (FELIC).

A atuação pela rede tem ajudado também na mensuração dos impactos gerados na comunidade. “Hoje temos uma relação intensa com 06 escolas públicas municipais e 01 estadual, todas na comunidade. O reconhecimento que temos dos professores não tem preço. Eles mensuram bem os impactos da leitura na vida dos alunos. Eles doam livros pra gente também e fazemos muitas atividades lá. Agora mesmo estamos com um projeto, Cartas Viajantes, projeto que comecei e que se ampliou. Os meninos e meninas escreviam cartas uns para os outros e a gente enviava pelos Correios e eles recebiam. Fizemos uma oficina para entenderem como funcionava esse processo todo. Daí conheci um pessoal da Colômbia e fizemos um intercâmbio para troca de cartas. Temas como culinária, danças etc. Foi uma troca intensa de cartas. Depois conheci um pessoal do México e fizemos um trabalho de correspondência entre mulheres grávidas ou com filhos - as mulheres de lá escreviam para as de cá e vice-versa. Os relatos foram maravilhosos - esse projeto parou por conta da Pandemia, mas vamos concluir. Foi quando veio a ideia de uma troca de cartas com alunos de Caruaru, escrevendo sobre o cotidiano deles. Acabou que conseguimos apoio da UFPE para que fôssemos para Caruaru e depois, com a ajuda da Prefeitura de lá, eles vieram. Um intercâmbio maravilhoso”. 

Dessas ações que Betânia e Rafael começaram na Biblioteca Popular do Coque, a coisa evoluiu. “Agora temos o projeto “Conta Lá que eu conto cá”, entre alunos das escolas do nosso bairro. Vimos que isso poderia ir mais longe. Uma professora que havia feito doutorado no Chile, Ana Cristina, fez uma ponte para que esse intercâmbio se ampliasse. Já são 07 universidades de lá participando, alunos das escolas do bairro e da BPC e tem sido maravilhoso. Já houve troca de cartões de Natal, agora estamos fazendo postais, com fotos e relatos sobre a vida de cada um. Esse projeto de cartas acabou mobilizando professores com comorbidades das escolas do bairro que, afastados da sala de aula e lotados nas bibliotecas das escolas, se reciclaram e fizeram das bibliotecas dessas escolas vivas, e esses professores revigorados enquanto profissionais”.

A atuação pela Rede de Bibliotecas do Coque também vai gerando efeitos na outra ponta. “Tudo vai se integrando e os resultados aparecendo. Cinco frequentadoras da BPC se matricularam na Escola José da Costa Porto para o EJA. Inclusive estou preparando um trabalho para fazer com essa turma do EJA, o Retrato da Palavra (citado mais acima), que trabalha a memória, a narrativa oral, utilizando o livro Guilherme Augusto Araújo Fernandes, que é a história de uma criança que vive brincando com as palavras com idosos de um asilo, vai puxando a memória deles e ajuda brincando a cada um dos idosos... Começo com o livro e eles vão buscando memórias pessoais, da comunidade. É um processo maravilhoso de resgate e transformação pelo livro”, finaliza. 

COMO AJUDAR?

Você pode contribuir com os trabalhos da Biblioteca Popular do Coque, seja atuando profissionalmente, seja dando valores para ajudar a manter o espaço e os projetos, seja divulgando para que outras pessoas ajudem. Betânia afirma que outras bibliotecas mantém a mesma luta e que é preciso o engajamento da sociedade. “As pessoas podem procurar espaços como o nosso para incentivar a continuidade desses trabalhos. As doações que recebemos são incentivo para continuidade. Se você é leitor e acredita no poder do livro, olhe com mais carinho esse tipo de trabalho e veja a transformação que esse trabalho promove na comunidade. Há outras bibliotecas fazendo isso também”, crava.

AJUDE DOANDO QUALQUER VALOR!

Chave Pix: 10.695.494/0001-20

Depósito/Transferência: Caixa Econômica Federal | Ag. 2193 | CP: 70-9 | Op: 013

CONTATO COM A BIBLIOTECA POPULAR DO COQUE

Telefone/Whatsapp: +55 81 99725-6703

https://www.instagram.com/bpcoque/ 

https://www.facebook.com/bibliotecapopulardocoque 

 

SOBRE A ILHA DE JOANA BEZERRA OU COMUNIDADE DO COQUE

Até o Século XIX o local era uma ilha fluvial no Rio Capibaribe, cuja área aumentava e diminuía ao sabor das marés. Era de propriedade do comerciante Belchior Bezerra e sua esposa Joana Bezerra. Durante a expansão populacional, seus proprietários doaram a ilha à prefeitura do Recife, que após algum tempo a transformou em bairro, com o nome de Ilha de Joana Bezerra, em homenagem à antiga proprietária. A Ilha Joana Bezerra, no entanto, tem um nome não oficial: Coque, por conta da antiga profissão da maioria dos moradores do local: extração de carvão mineral, também conhecido por coque. Para a população local, os dois nomes se confundem em um único bairro: um nome oficial e um nome oficioso. Apesar do nome, como outros bairros do Recife, Ilha Joana Bezerra já não se constitui individualmente como uma ilha. Juntamente com os bairros de Santo Antônio, São José e Cabanga, pertence à Ilha de Antônio Vaz. O Coque possui o pior IDH do Recife. (Wikipedia)

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