Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Opinião

A cidade não mora mais em mim

Por: SIDNEY NICÉAS

Foto: Arte/Ana Calzavara

23/09/2023
    Compartilhe:

*por André Resende    

O LIVRO QUE MAIS GOSTO DE SUSAN SONTAG é "Sob O Signo de Saturno". São poucos ensaios, mas o conjunto é admirável. Mais admirável é a beleza de cada um deles. Já nem sei dizer se todos foram escritos em seu tempo de exílio sentimental, em Paris. Benjamin ficou mais bonito com ela. E mais triste. Foi por onde comecei Elias Canetti. Deixei Canetti para lá no dia que ele destratou Iris Murdoch, em um texto curto e grosseiro, que não nos deu nada.    

   Creio que ainda hoje seja importante um tempo de exílio sentimental em Paris. Ainda penso nesse exílio sentimental europeu, mas Paris parece tão militarizada e empilhada de funcionários do sistema financeiro - até 2040 serão milhões e milhões deles espalhados pelo mundo, em um mundo cada vez mais dominado pelo sistema financeiro. Ou, em minha maneira mais aprazível de ver, em Roma. Acordar para ler e escrever, talvez, antes tomar café na rua, andar um pouco, entrar em um mundinho particular que Proust, em uma de suas cartas, disse girar em torno de sua mesa de trabalho. Susan Sontag é uma das fundações de quem sou como escritor. Ensaios mais sistemáticos e menos circunstanciais. E de quem sou como admirador do trabalho de outras pessoas. Ela preferia escrever e ler à noite, entrando pela madrugada, mas morava em Nova Iorque e só conseguia encontrar silêncio depois de uma certa hora do dia vencido. Passei vinte anos de minha vida pegando uma fatia doce da vida para morar em hotéis de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Um equívoco que não se desfaz. Enquanto outros "consultores" saíam para a vida noturna, eu ficava lendo e, de manhã cedo, escrevia, não relatórios, nem sugestões para perpetuar a servidão e o mundo enquadrado: escrevia ficção, ensaios, peças, artigos. Li muitos livros de ensaios na travessia da vida - aviões, hotéis, salas de espera -, mas "Sob O Signo de Saturno" me inspirava, até bem mais que meus ensaístas prediletos, Hannah Arendt e Walter Benjamin, fundações que nos levam a muitos caminhos, em torno deles mesmos, como nos grupos de estudos de psicanálise encalacrados nos umbigos evangelizadores que transformam em dogmas um conhecimento que, por ser organizado, precisa de evolução.                            

   Não gostava de Recife para viver o sonho de escritor. Vi que era possível em Trastevere, em Roma, e na Republique, em Paris, ou em Pinheiros e Higienópolis, São Paulo – lugares-metáfora. Fui tragado, mastigado, desconjuntado e cuspido pelo tempo da pandemia, de uma maneira que nem sei se a cidade de São Paulo mora mais em mim, se não é hora de chamar Manuelzão e Miguilim e irmos embora, José, para onde?, porque os anos dobraram e as pessoas ficaram iguais em todo lugar. Como disse Henri Lefevre - do início ao fim de sua obra A Vida Cotidiana -, vamos com nosso cotidiano a qualquer lugar. Ou Freud poderia ter dito que carregamos nossos fantasmas conosco, quase sem saber nada deles, até que nos debelamos e falamos. Dá uma certa sensação de angústia ver que meus interesses literários e ensaísticos conflitam com os mais recorrentes assuntos da micropolítica cotidiana da cidade, mas não é certo de que eu ficaria mais à vontade em Paris, na Republique, ou em Roma, em Trastevere ou San Lorenzo - os guetos de consciência e os núcleos de sustentação psíquica e ideológica fazem parte de um tempo que não vivi. Ao me aproximar adulto destes bairros, somente encontrei gente servil, contando os anos para a aposentadoria, caminhando para uma rotina de intolerâncias políticas e sociais, crentes de que o sentido da vida é o consumo ilimitado de diversão e de entretenimento dado pela cultura de massa, trocando a religião por argumentos "científicos" falsos. O mais perto disso foi Olinda, mas não vale uma linha de comentário.                                                           

   Jorge Amado acordava cedo e trabalhava na mesa da sala de sua casa, em Salvador. Eu trabalho toda manhã na mesa da sala de minha casa - não gosto mais de escritório -, em Pinheiros, ou leio, sentado no sofá. Desde dezembro de 2022, suspendi a leitura diária dos jornais: o presente apressado do país não mora mais em mim. Eram três jornais, pelo menos. Isso me deixou muito angustiado nos últimos anos. Pensei que não viveria sem a droga da informação: jornais, revistas de divulgação científica, especializadas em psicanálise, psiquiatria, neurociência, biologia, literatura, ciências sociais. Sim, tudo isso. No começo, quando pensei viver como escutador (psicanalista), leitor e escritor, sonhava de manhã cedo levar meus filhos à escola, depois ler e escrever, cozinhar, somente interferir na realidade, se isso é de algum jeito possível, como pensador e escritor, pois a gestão dos acontecimentos é para quem não gosta tanto de ler, de não ir um pouco mais fundo nos pensamentos e não escreve com regularidade e com frequência. Pensadores e escritores só aceitam cargos de gestão por equívoco irreparável na percepção de seu destino psíquico. O mundo, disse Proust, digo agora, mais uma vez, gira em torno de minha mesa de trabalho. Acordo de manhã, faço umas atividades variadas, desde meditação a alongamento, faço meu café, leio e escrevo. Não começo procurando saber que informações vão reger o dia do país e do mundo. Seria contrassenso, uma vez que, seguindo a proposta de que vivemos uma existência sitiada, o mundo da mídia e das redes sociais enquadram, controlam, ordenam e nos convertem em servos de um imaginário padronizado que quer nos doutrinar a viver, agir, pensar e julgar dentro de uma ordem sistêmica que somente permite nos aceitar como parte de um mundo para ser aceito, não para ser mudado, ou melhorado. Tem de ser resignadamente aceito tal como é dado para viver.                                                                          

   Os ensaios curtos de Susan em " Sob O Signo..." não são resignados. Ela nos propõe pegar a vida dada e viver, nunca para somente interpretar, nem aceitar, tampouco crer que seja tarefa fácil transformar a história e impor ao tempo histórico uma ordem ideológica que será aceita e marco de transformação das mentalidades.                                                         

   Não sei mais distinguir se o prazer e a alegria de reler este livro vêm do conjunto de ensaios curtos, fortes e revigorantes - como um elixir para tornar o dia bom e contente - ou se é porque sei que Susan os escreveu em Paris, vivendo, como se deve viver, em um quarto simples, com uma vista agradável da cidade.                                 

   O bairro de Pinheiros, onde ainda moro, está indo ao chão e se levantam prédios de vidro, não apenas feios, para meu gosto. Aonde há cafés e lanches metidos, uma conversa estranha se assoma sobre negócios, uma permanente alusão a uma vida servil de gente de existência sitiada. A cidade não mora mais em mim, nem seu estranho modelo cosmopolita municipalista. Eu tinha uma alegoria de ser estrangeiro que vivia em Recife e agora a vejo mais forte, em São Paulo, a cidade que me anima e me faz cantar de entusiasmo e esperança, ao mesmo tempo... Ô, Manuelzão, ô, Miguilim, vamos embora.

--

André Resende é escritor e psicanalista. Nasceu no Recife e mora em São Paulo. Como escritor tem onze livros publicados. Como psicanalista, faz atendimento e supervisão individuais e Coordena grupos de diálogo em torno de Micropolíticas Cotidianas e Dos Masculinos há quase uma década.

 

https://www.facebook.com/andre.resende.14289 

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook