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Opinião

A forma é eterna

Por: SIDNEY NICÉAS
 A escritora Geórgia Alves traz ao Tesão uma crítica preciosa sobre o livro “Um Deus que não passeia sobre as águas”, de Israel Pinheiro.

Foto: Reprodução/amazon.com.br

23/01/2024
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*por Geórgia Alves

Só a forma é eterna. Um autor, ou autora, não dura muito. É sua maneira de escrever. Seu “como” que fará dele primeiro um escritor, ou escritora, depois,  quem sabe, ter a chance de permanecer por algum tempo no panteão de nomes gastos e outros nem tanto da Literatura de uma língua. Por que Dostoievski dura, então? Se dizem, malfadadas línguas, que o escritor de Crime é Castigo não escrevia bem. Ou escrevia sempre às pressas de colocar o pão no prato à espera e vazio sobre à mesa da janta? 

William Shakespeare escreveu reescrevendo clássicos.  Assumidamente histórias que se conhecia e que o bardo não inventou, de todo, suas tramas. Deu a elas vida e entusiasmo. Um sopro de vivacidade graças à sua forma de construir os diálogos.  Graças às palavras tão bem pinçadas. Tão bem escolhidas.

Um Deus que não passeia sobre as águas,  de Israel Pinheiro, nascido no Rio de Janeiro,  mas naturalizado Pernambucano, hoje morando entre Candeias e Vitória de Santo Antão tenho marcador generoso para medir a duração de sua obra. Aqui para nós, ouvi dizerem que o grande monstro da Literatura Brasileira, sempre atribuída à uma origem Russa, teria pedido a certo autor que lhe servisse de inspiração para que a Literatura Contemporânea dela avançasse por mais dez anos. 

Em suas novelas metrificadas, onde um metrônomo da mais rígida tensão, Israel Pinheiro afunda o caráter dos personagens e expõe suas humanidades sem dó nem piedade. No entanto, faz isso com uma mestria de quem está habituado à íngreme e oscilante jornada das emoções percebidas com nervos de aço.  Com uma faca só lâmina nas mãos. Quase um homem-bomba. Um coração só músculos,  sem uma gota de sangue ou saliva escorrendo pelo canto da boca. Não há uma só das novelas que não decline de raio-x meticuloso e bem orquestrado às mais humanas nuances das ações a que submete suas personagens. 

Há muito mais para se dizer e discutir sobre o livro. O prefácio magistral de Anco Márcio Vieira Tenório lá está para comprovar que alguém andou fazendo o dever de casa entre um aplicativo e outro, uma chamada e outra, um atendimento e outro da vida prática. 

E para fazer como os mais experientes, comece pela primeira (Dia de exame) e a última (Um Natal em Jaboatão). Depois de se angustiar, ter o coração suspenso, como uma corda de um violino, solto a dar risadas ruidosas com a família que conhece a namorada do filho Samuel durante o Natal. Leia a penúltima (Excomungado) e antepenúltima (Antes que o Recife vire mar). Onde o narrador avisa: “Tive vontade de rir alto quando ele perguntou se eu não considerava a minha ideia cínica demais”. 

Suba e desça escadas e elevadores com as personagens vividas à sua frente. Melhores que muitas tramas da Netflix e que se não colocam no bolso, emparelhamento agora na minha memória com aquelas de filmes onde o roteirista prende a mesma faca entre os dentes. Não.  Não irei ferir o código mais precioso construído com esforço superior e preciosismo da forma - ou seja, sem a chateação do didatismo- de Israel Pinheiro.  Vão lá correndo comprar o livro, levá-lo para casa e ler e reler. Porque é preciso mais que treino para chegar a Um Deus que não passeia sobre as águas. E daqui a uns dez anos falaremos mais sobre ele.

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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