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Opinião

A Insustentável Leveza do Ser: A Bola da Vez é o Torcedor Impaciente e Irracional

Por: SIDNEY NICÉAS
Alfredo Bertini traz ao Tesão um texto com reflexões sobre a paixão, o equilíbrio e a tênue linha entre o amor e o ódio no mundo do esporte.

Foto: Alexandre Brondino/Unsplash

06/09/2023
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*por Alfredo Bertini

A morte recente de Milan Kundera, reacendeu-me na mente um ponto essencial da sua obra prima: A Insustentável Leveza do Ser. O extrato dessa prosa poética do referido autor, trata dos marcantes relacionamentos humanos, algo que expressa para mim uma sentença provocativa, na qual cada cabeça parece ser mesmo um mundo. Surpreendentes ou não, as reações humanas fazem muito a diferença. E como.

Diante dessa referência exemplar, deve-se reconhecer que o comportamento emocional dos torcedores está também impregnado em cada um deles. Por isso mesmo, a gente sabe que o conjunto da obra de uma torcida beira ou atravessa o campo irracional, na maioria das vezes.

Apesar disso, há situações em que, passada alguma adversidade que impulsione uma reação reflexa contaminada pela emoção, é preciso controlar os instintos mais selvagens e beligerantes. Mesmo que nesse ambiente, parece-me importante buscar algum breve lampejo de racionalidade, onde se permita mirar na direção do óbvio. Afinal, quando se ultrapassa a linha que sinaliza para o fanatismo exacerbado, não raro de acontecer com qualquer torcida, é justo no pico da emoção que se enxerga o quanto é tênue a  separação entre a lucidez  e a estupidez.

Digo tudo isso para tentar compreender as reações de certos torcedores do Sport Club do Recife. Claro que todos sabemos do tamanho da paixão e do valor que se devota às cores rubro-negras da Ilha do Retiro. Também é um dado que o movimento pendular que se nota entre o amor e a raiva costuma ditar o ritmo da emoção. Nesse contexto, o segredo está em não se abraçar com os extremos, para que no equilíbrio e, por extensão, na racionalidade, seja possível comemorar quando se ganha e compreender quando se perde.

Esse pico emocional de chegar ao extremo, mesmo que poucos minutos depois se possa até recuar, tem sido algo notório para mim, constatado em todas ocasiões dos jogos que vivenciei na temporada. Se, no primeiro terço da etapa inicial do jogo, a equipe ou alguma peça isolada, não proporcionar satisfação para dados torcedores, os apupos passam a ser notados com frequência. Os erros são inadmissíveis e não cabem explicações. Nem para considerar que quaisquer que sejam os desempenhos destacados, todos são bem monitorados, indiferente do critério adotado.

O Sport alcançou, no primeiro semestre deste ano, indicadores de desempenho só comparáveis aos conquistados há duas ou mais décadas atrás. Tornou-se até difícil encontrar algum referencial que esteja num padrão questionável. Assim, enquanto as estatísticas revelam uma avaliação acima da média de muitos clubes, alguns torcedores se perdem numa crítica momentânea, pilhada por um estresse extemporâneo e sem o menor sentido.

A exacerbação reativa de alguns torcedores do Sport, que bem dimensiona sua capacidade de se equilibrar entre o amor e ódio em fração de segundos, tem outra motivação, no caso bem mais acolhida pelos dramas atuais de relacionamentos. Refiro-me aos estresses que advêm de um mundo mais intolerante, capaz de soluções agressivas, que usam a violência física e emocional como instrumentos de ação. Também fica no limbo, se a agressão representa um ato presencial, ou mesmo, pelas palavras e narrativas que hoje nutrem os crimes abusivos que dão robustez às redes sociais. 

Quero crer que esses ensaios, dignos de extrapolarem os limites da irracionalidade, não sigam como um novo marco do Sport.  Não apenas pelos bons números alcançados até aqui. Mas, pela necessidade de se viver num ambiente onde o sustentável é saber agir com inteligência criteriosa, na intenção da sociabilidade.

Por fim, o leitor assíduo da coluna poderia me arguir hoje sobre a ausência dos sempre instigantes Arquibaldo e Telegildo. Acontece que esse tipo de tema, não condizente com a virtude maior do torcedor - que é, simplesmente, torcer com sabedoria cidadã - não agrada a ambos. O silêncio deles é a minha melhor fiança, enquanto mero escriba.

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Alfredo Bertini é Economista e desportista.

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