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Literatura

A NÉVOA [É] LÁ FORA - "DIMINUIR AS URGÊNCIAS"

Por: SIDNEY NICÉAS
André Resende traz um texto sensível, uma reflexão profunda sobre a passagem do tempo.

Foto: Arte/Guilherme Echeverria

26/01/2024
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*por André Resende

[...não sorriam os olhos, as estrelas não se luziam...]                                                    

ATÉ PARECIA HAVER UMA URGÊNCIA de encontrar parceira para a vida. Não havia mais, desde antes da pandemia da Covid-19. Otelo, coisas que me digo, vamos, meu bem, amanse, enfim, deixe a juventude para quando foi, deixe os cabelos e barba embranquecerem, em seu tempo, quando chegar o tempo - e ele chegou. Você nunca teve a idade que tinha, nunca teve a idade que queria ter, isso desde cedo. Sempre parecia mais, fosse por um aspecto ou por outro. Em cada momento da vida parecera ter mais anos e isso nunca foi incômodo: mais parecia oportunidade. Por que seria agora ou mais adiante? Se fechar os olhos, ainda consegue ver aquele garoto debaixo da mesa, construindo uma casa com peças do dominó. Casa que nunca construiu de verdade, na vida real. Se olha para trás, viveu quarenta mil anos, por aí. Em cada peça que escreve, tem vontade de dizer: tenho quarenta mil anos. Essa ideia de circular pelo mundo, de um certo lugar da Europa, ainda parece, e com certeza faz sentido, lembrança dos seriados "Kung Fu" e "O Incrível Hulk", à tarde, na televisão. Aquilo sim era estranho como "plano de vida": saía para a escola com a sensação de melancolia que impregnava as personagens, homens pacatos e simples, mas, pressionados, explodiam e reagiam com violência, se inflamavam, em silêncio. Você andava até o ônibus como se flutuasse, caminhava com leveza, silencioso, pacífico e afável, sem que ninguém soubesse haver, por dentro, um homem ferido e pronto para reagir a adversidades, violência com violência, embora víssemos que se tratavam de homens com elevada virtude, dentro de uma vida desprovida de bens materiais, peregrinos, sujeitos a trabalhos simplórios e de baixa remuneração, porque temporários, trabalho para quem estivesse de passagem, forasteiros, homens de fora, sem história, desistorizados. O homem em silêncio parece desistorizado. Otelo, como ainda é, você era um estrangeiro. Como homem desistorizado e andante pelo mundo, interrompia uma sugestão de que seriam necessárias alguns ideais de grandeza, de reconhecimento e de aceitação pessoal para que pudesse ter um sentimento de evolução como pessoa, em sociedade. Teria de sentir e se sentir em uma dupla chama, coerência amorosa e erótica, de plano de vida: uma evolução pessoal que não dependeria do ambiente onde se fermentasse como ser social e uma evolução social que desse aceitação e reconhecimento à evolução pessoal. Não me lembrava mais por que a personagem de Kung Fu, nem me lembrava o nome dele, caminhava pelo mundo, distante de onde viera. De Hulk vinha lembrança, com lapsos e equívocos, de que perdeu a mulher e se contaminara com uma radiação que o tornava verde, gigante, forte e raivoso, um experimento que tinha a ver com a falta de forças para salvar a mulher em um acidente. Os ambientes sociais estavam caóticos e feridos, sem o Estado alcançar e cumprir as expectativas que se esperam do Estado, grupos se formavam e se ampliavam para intimidar e ameaçar as pessoas servis e submissas, comuns e "maiorias silenciosas ", entregues à falta de posição e de opinião como formas de evitar confrontos, gente a quem os dirigentes políticos recorrem para agir à sombra, saqueando e exaurindo os recursos públicos, em benefício próprio. Embora admire Brecht e Beckett, Otelo, você não tem vontade de fazer teatro como um e como outro. Sempre se lembra que Brecht não era de Berlim e Beckett não era de Paris. Eram estrangeiros, não admirados, nem enturmados, mas isso não os intimidaria, nem os pilharia, suspensos e parados, à espera de um consentimento alheio que, talvez, não fizesse ideia de que eles faziam, na verdade. Mas chegaram cedo, não tinham a sensação incômoda de terem chegado tarde. De que seu desejo de fazer teatro, onde foram fazer, estivesse fora do tempo certo. Não poderiam esperar por reconhecimento. Nem por bênçãos locais. Acordavam e trabalhavam até tarde. Tiveram de inventar tudo: os textos, o lugar onde aconteceriam as peças. Em Paris, você costuma parar diante do local onde as peças de Beckett eram ensaiadas e apresentadas. Não se demora muito. Não é questão de se demorar. Passa por lá para entender que não pode esperar que venha um dinheiro do céu, um milagre qualquer para levantar as peças. Tinham de escrever as peças e, em seguida, levantar onde fosse possível. Não sei escrever como Brecht e como Beckett, tampouco quero escrever como eles. Quero que estejam por perto, como artistas, como realizadores. Como inspiradores. Peter Brook tinha seu teatro, próximo a Paris. Jovens, em Barcelona, e em outros lugares do mundo, levantam peças em lugares onde possa haver gente passando por perto, se inspiram em Brecht e Beckett. Em São Paulo, você costuma alegremente assistir ao ator e realizador Celso Frateschi e ao dramaturgo e ator Mário Bortolotto, cada um de seu jeito, em seu teatro. No Rio de Janeiro, costuma ir ver as atrizes Marieta Severo e Andrea Beltrão, que construíram um teatro para acolher as peças que levantam. Dentro do conjunto de peças curtas, você achou por bem incluir um encontro em uma calçada de uma via pública. Um banco de praça, de costa para a rua, de frente para o passeio, onde uma mulher espera o marido voltar de Recife para Barcelona, embora tenha recebido a notícia de que ele sumiu, afogado, no mar. Não é uma peça sobre a espera, simplesmente, Otelo: é sobre a rotina e sobre esquecer que temos um tempo de vida e de passagem. Se há bandeiras de ordem em suas peças, são de micropolíticas cotidianas. Ainda pensou mais uma, ampliando o projeto: um casal que sai de casa cedo, se encontra no final do dia, conversa sobre contas a pagar, bebe cerveja, arruma a casa, fala sobre os filhos, onde almoçar no fim de semana e parece viver uma vida modorrenta, até que descobre que um e outro, no curso dos dias, entre a manhã e o fim da tarde, ele e ela costumam ter casos extraconjugais. Mas aí pensei: onde está a micropolítica cotidiana que os levaria criar uma "coerência amoroso", se fosse possível entre eles, nem sempre possível entre pares? Deixei essa peça de lado, ainda que a considere importante. Era Roma, para onde quis voltar, que incomoda: a crescente intolerância e indiferença, fora todo o ruído da cidade, ainda que haja saídas e refúgios próximos. Que fazer lá se você não cabe mais em suas esperanças? Mesmo em São Paulo, você pratica a ideia de viver em vilarejo. Não quer mais uma vida de urgências inflamadas que afetem a existência de uma maneira desastrosa. As urgências estão ficando fora dos propósitos da vida. Nenhuma cidade mora mais em você. A dona que olhava a lua e as estrelas nunca precisou ser perfeita, tampouco você, Otelo, impreciso confesso, queria perfeição. Gostava do campo eletromagnético do coração dela tocando ondas amorosas e companheiras de seu coração. Gostava quando ela falava do céu e das estrelas lá fora, em cima de vocês. Que você quis, Otelo, sempre foi, não mais que isso, uma brecha para sorrir, vendo a lua e as estrelas.                              

 [Para ... ]

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André Resende é escritor e psicanalista. Nasceu no Recife e mora em São Paulo. Como escritor tem onze livros publicados. Como psicanalista, faz atendimento e supervisão individuais e Coordena grupos de diálogo em torno de Micropolíticas Cotidianas e Dos Masculinos há quase uma década.

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