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Opinião

A Perna Nihilista Cabeluda

Por: SIDNEY NICÉAS
Iaranda Barbosa traz mais um texto ao Tesão Literário, agora com um “personagem” conhecido pelos pernambucanos: “A Perna cabeluda”.

Foto: Reprodução/aventurasnahistoria.uol.com.br

24/11/2023
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*Por Iaranda Barbosa

O mar se dobra e desdobra em ondas à espera do rio, caminhante seguro de si. As águas sabem para onde retornar. Os pensamentos brincam entre os pelos da Perna Cabeluda enquanto ela, tal qual Narciso, admira o próprio reflexo no Capibaribe. As lâmpadas amarelas nos postes iluminam a cidade maurícia, emulação frustrada da Cidade Luz. 

Serena e em silêncio, atravessa a Mauriciópolis sem incomodar o sono dos que ainda cultivam ilusões pseudoprotegidas por marquises deterioradas. Escafandristas, fetos abortados, baronesas, móveis, dejetos. Tudo navega sob as pontes. Capoeiristas, batuqueiros, camelôs, imigrantes forçados, dependentes químicos, favelados. Mesmo após tantas higienizações sociais, pernas solitárias vagam na escuridão da capital que fede a abandono. 

As garras da Besta-Fera raspam o asfalto. As lágrimas se recolhem ao sentirem o vento do antigo porto. A assombração desfila ao longo da avenida construída sob ruínas de igrejas. Prédios se erguem enquanto morros desabam. Questionamentos a inquietam, pululam cada articulação. Será, Cícero Dias, que o mundo começa aqui? Em meio a armazéns e antigas zonas onde mulheres fisgavam marinheiros para sobreviver? Onde homens de bem e representantes de Deus açoitavam corpos marginalizados na picota? Numa terra na qual vidas se esvaem nos edifícios de luxo?

O joelho peludo se dobra sobre a frieza do metal da placa redonda no Marco Zero. Latitude, longitude e altitude. Quantas distâncias percorrer nessas terras de Capitanias Hereditárias para que a insurreição realmente aconteça? Para onde iria se caísse no sumidouro dessas águas turvas? Poderia flutuar à deriva após o dique... O balé de luzes coloridas de uma viatura silenciosa interrompe o solilóquio.

A Perna reconhece a jovem que quatro policiais arrancam da calçada e tentam colocar dentro do camburão. Conversou com ela algumas vezes quando perambulava pelos arredores do Chupa-Chupa, reduto de cadáveres reanimados através de pedras, pós e ervas. Catatônica, Alice se debatia durante a viagem ao país de maravilhas criadas por cristais aquecidos em cachimbos quando a coxa grossa e peluda correu para ajudá-la. Serviu-lhe de travesseiro até o retorno da curta jornada da heroína. Conversaram sobre a morte e a difícil tarefa de encontrá-la, sobre as moedas recebidas após abocanhadas tetânicas em maridos exemplares e esposas decentes, sobre o trânsito da humanidade entre loucura e doença. Compartilharam experiências que só as criaturas noturnas vivenciam, pois o dia lhes é proibido. Ela dormiu abraçada, pela primeira vez, a um bicho de pelúcia.

Pele e sangue decoram as unhas de Alice. Em silêncio e de olhos secos, ela se defende com armas naturais, recrutadas pelo instinto, por resquícios de dignidade e pela vontade de não morrer por aquelas mãos. Sob a proteção das fardas, os homens descarregam a frustração de serem rejeitados por uma mulher e, mesmo no auge da ignorância, por saberem que ela é, antes de tudo e mais que eles, forte. Cacetetes e sprays de pimenta se revezavam no espetáculo da covardia.

A maresia range na cabeça do fêmur e todos se voltam para o cais. O dispersar das nuvens revelam a Lua Cheia, por trás da Torre de Cristal, lançando holofotes sobre a Perna, que se levanta. O sangue se agita no segundo coração, que bombeia ódio para todos os poros. As falanges, uma a uma, estalam na iminência do golpe. Eriçada, a criatura desembesta em direção aos fora da lei. Rasteiras, chutes, cambalhotas, joelhadas, gingados, voadoras, rodopios, pisões. Saltos no capô do carro, golpes nos retrovisores, pneus furados, vidros estilhaçados.

Finda a dança, uns recolhem dentes, outros queimam a cara no cano de escape, procurando se esconder de mais uma pancada fortuita. Todos pensam em como explicar o episódio no batalhão, em casa, nos meios de comunicação, nas redes sociais. Quanto tempo teriam para alinhar as versões? Qual seria a mais convincente para a masculinidade sair intacta, imaculada? Usar as imagens das câmeras de segurança para provar o que aconteceu e gerar provas sobre si mesmos violentando uma usuária? O labirinto se complicava.

A cortina de nuvens recolhe a iluminação lunar, convocando o breu recifense. Rasga-mortalhas piam sobre os cemitérios, vira-latas uivam nas encruzilhadas e gabirus guincham nas bocas de lobo. O farfalhar dos morcegos transmitem o recado. Nenhuma janela se atreve a se abrir nem lâmpadas ousam se acender. No panteão pernambucano, as legiões rurais e urbanas de encantados e lendas aplaudem a performance no mundo dos viventes.

O malassombro, imponente, orgulha-se do feito e caminha até Alice. As carícias no corpo raquítico amenizam as dores morais. Os lábios rachados libertam um sussurro audível apenas para a Perna Cabeluda. Abraçadas, elas caminham rumo ao quartinho alugado próximo à Cruz do Patrão, pois, mesmo diante do abismo, as águas sabem para onde retornar.

 

Iaranda Barbosa é professora, escritora e crítica literária. Doutora em teoria da Literatura pela UFPE, é autora da novela histórica Salomé (Mirada, 2020), obra finalista do Prêmio Literário Maria Firmina (2021). Também foi curadora e uma das autoras da Antologia das Mulheres Pretas (Mirada, 2021) e de Artemísias: vozes de libertação (Mirada, 2021). Possui tanto textos críticos quanto literários publicados em coletâneas e colabora com o Blog Tesão Literário, de Sidney Nicéas. No perfil pessoal do Instagram, quinzenalmente, realiza o Resenharia. destinado à análise de obras de mulheres vivas. 

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