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Literatura

Alexandre Santos: “A arte é revolucionária”

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor Alexandre Santos lançou “O sonho de Clara”, uma ficção com forte pegada política

Foto: Divulgação

20/03/2022
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*por Sidney Nicéas

Lançar um livro nestes tempos de intolerância e movimentos anti cultura é uma ação mais do que necessária. Ainda mais quando a obra utiliza a ficção para espelhar um lugar possível de se chegar. Mais ainda nesse Brasil quase distópico, que anda cobrando de nós sonhos utópicos e agires muito bem pensados. Esta é a pegada de “O Sonho de Clara” (Edições Moinho, 2021), mais nova obra do escritor Alexandre Santos, lançada em e-book e que desenha um Brasil fictício (e porque não também utópico), onde se é possível ao menos vislumbrar um mundo ‘ideal’, desejado pelos que não desistem de sonhar.

“O Sonho de Clara” se passa em um Brasil fictício no século 21 e narra os acontecimentos no país durante a reestruturação social, após a queda de um regime estabelecido por golpe político, com todos os sonhos e esperanças dos personagens para o novo momento. “É uma obra totalmente inserida no campo da ficção, uma ficção desejável, porém (infelizmente) uma ficção. A 'realidade' mostrada no romance não cabe na cabeça dos atuais dirigentes políticos”, sentencia Alexandre.

Daqueles que não desistem de sonhar, apesar de todos os pesares, Alexandre reconhece que o caminho para a mudança está na atitude de não apenas resistir, mas de agir e jamais desistir. “Pertenço a uma geração derrotada, uma geração que não conseguiu parar a guerra, acabar com a fome, eliminar a miséria, enfim, fazer o amor prevalecer sobre as coisas. Nada disso, no entanto, arrefeceu minha confiança na Humanidade. De alguma forma, a esperança e o sonho trazem o germe da ação. Os sonhos inspiram comportamentos e novos sonhos que, juntos, constroem novas realidades”, afirma.

O autor não poupa críticas ao atual Governo Bolsonaro, que tem se debruçado numa cultura anti cultura. “No Brasil de hoje, o espírito revolucionário da juventude esbarra em dificuldades adicionais, pois, além do ranço conservador natural das elites e churebas, enfrenta uma onda reacionária, ao mesmo tempo, responsável e impulsionada pelo governo Bolsonaro. E como são naturalmente revolucionárias, a arte, a ciência e a cultura impõem muito medo nos truculentos, conservadores e reacionários. Mas o obscurantismo, por mais denso que seja, não consegue barrar a luz indefinidamente”.

Alexandre Santos, logo no início da obra, diz que “a ficção serve para tudo, inclusive para descrever sonhos e esperança”. Para ele, é exatamente isso que a obra promove: esperança. Em meio a tempos difíceis no mundo todo, e em um ano de eleição, “O sonho de Clara” vem como um espaço para os leitores mais engajados encontrarem personagens idealistas e sonhadores. “O Sonho de Clara é o meu sonho. Que todos possam desfrutar a alegria e a felicidade permitidas por um mundo de fartura”, sonha bem acordado.

Diante de tanto esforço para um otimismo que todos, todos nós, andamos precisando, vale conferir abaixo a entrevista completa que o Tesão Literário fez com Alexandre Santos, falando sobre a obra, a política, estes tempos de guerras… E você pode saber mais sobre a obra, e comprá-la no site da Amazon: https://www.amazon.com.br/sonho-Clara-Alexandre-Santos-ebook/dp/B08YWL992Q 


TESÃO LITERÁRIO- O Sonho de Clara não esconde sua faca afiada para a política. Qual o limiar entre a realidade e a ficção nesta obra?

ALEXANDRE SANTOS- 'O sonho de Clara' é uma obra totalmente inserida no campo da ficção, uma ficção desejável, porém (infelizmente) uma ficção. A 'realidade' mostrada no romance não cabe na cabeça dos atuais dirigentes políticos. De alguma forma, representa um caminho para, do ponto material, a instalação do paraíso na Terra. Um sonho maravilhoso, mas um sonho.

TL- Então é possível afirmar que há muito de utopia neste O Sonho de Clara, já que a narrativa trata da retomada da normalidade política e crescimento econômico em um Brasil fictício?

AS- Mais do que a retomada da normalidade política e crescimento econômico do País, 'O sonho de Clara' trata da instalação de um regime pleno de justiça social, baseado na superação dos problemas materiais das pessoas. O sonho de Clara é utópico, mas o que seria do mundo e da vida se não fossem as utopias?

TL- Complementando a pergunta anterior, o que a esperança e o sonho podem ter de ação, especialmente num Brasil tão complexo como o de hoje?

AS- De alguma forma, a esperança e o sonho trazem o germe da ação, pois, como disse o Santo Dom Helder, "Sonho que se sonha só é só um sonho, mas o sonho que se sonha junto é realidade". Assim, talvez como as pequenas pedras, que juntas, formam uma Catedral, os sonhos inspiram comportamentos e novos sonhos que, juntos, constroem novas realidades.

TL- Analisando a política brasileira desde sempre, e somando-se o cenário atual, você acredita que esta geração poderá ver resolvidas pelo  menos algumas das maiores questões do Brasil - educação, saúde e cultura, por exemplo? Como?

AS- Pertenço a uma geração derrotada, uma geração que não conseguiu parar a guerra, acabar com a fome, eliminar a miséria, enfim, fazer o amor prevalecer sobre as coisas. Nada disso, no entanto, arrefeceu minha confiança na Humanidade. Acho que, desde que não sejam castradas em seus sonhos, as juventudes (cada qual na sua própria época) dão grande contribuição ao avanço e aperfeiçoamento da sociedade. Mas,  infelizmente, as mudanças são muito discretas e, nem sempre, ocorrem com a velocidade que desejamos. No caso do Brasil de hoje, o espírito revolucionário da juventude esbarra em dificuldades adicionais, pois, além do ranço conservador natural das elites e churebas, enfrenta uma onda reacionária que, ao mesmo tempo, responsável e impulsionada pelo governo Bolsonaro.

TL- Como produtor e agitador cultural, como você vê esse esforço absurdo contra a cultura que se estabeleceu no Brasil de hoje?

AS- Como são naturalmente revolucionárias, a arte, a ciência e a cultura impõem muito medo nos truculentos, conservadores e reacionários. Não é sem razão que o governo ignóbil e truculento do capetão Jair Bolsonaro colocou os artistas e os cientistas na sua alça de mira destrutiva. Mas o obscurantismo, por mais denso que seja, não consegue barrar a luz indefinidamente. Além de perder força a cada minuto, os ventos anti-cultura soprados pelo governo Bolsonaro não conseguem barrar o talento, a coragem e a obstinação dos artistas brasileiros.

TL- Não bastassem nossos problemas internos, agora eclode nova guerra. Somos sinônimos de barbárie? Até quando elegeremos a violência como arma?

AS- O egoísmo é a mãe de todas as guerras. O planeta é rico em todos os recursos necessários para manter a vida digna de todos, mas, infelizmente, alguns querem, não apenas porções maiores que os demais, querem tudo para si. E, na esteira do querer-mais e do querer-tudo, vêm a fome, a miséria, a violência, a guerra. É assim na Somália, no Iêmen, na Palestina, no Afeganistão, no Iraque e em todas as guerras em curso, inclusive na Ucrânia. No caso da guerra no leste europeu, está claro que interesses geopolíticos dos EUA estão levando a morte, o sofrimento e a destruição à Ucrânia, num processo insano que, se não for contido pelo bom senso dos europeus, pode arrastar o planeta para uma nova guerra mundial.

TL- Falando sobre escrita, como você analisa a atual produção literária pernambucana?

AS- Pernambuco sempre esteve na vanguarda dos grandes movimentos sociais, inclusive na arte, ambiência na qual pontilhou os modernismos de todas as épocas com destaques em todas as linguagens artísticas. Não é diferente com a literatura. Quando olhamos para trás e, lá no 'começo de tudo', vemos Bento Teixeira, temos um indício dos espaços sempre ocupados por pernambucanos. Não é diferente hoje. De fato, desdenhando as crises que abateram o setor nestes anos mais recentes - tanto o marasmo decorrente da pandemia de coronavírus como o obscurantismo cultural desejado pelo governo Bolsonaro -, a produção pernambucana está viva e, em meio às dificuldades, floresce e, apresentando uma cena repleta de novos nomes e textos revolucionários, produz os espasmos da nova literatura que vem por aí.

TL- Qual o sonho de Alexandre?

AS- O sonho de Alexandre é o sonho de Clara. Que todos possam desfrutar a alegria e a felicidade permitidas por um mundo de fartura.

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