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Literatura

As Raízes do Negacionismo e da Alienação no Brasil

Por: SIDNEY NICÉAS
Livro amparado em vasta pesquisa explica o porquê da ascensão do nazifascismo no Brasil

Foto: Divulgação/Arte Tesão Literário

23/10/2022
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*por Sidney Nicéas

Não basta criticar, é preciso tentar entender. Refutar qualquer teoria ou informação requer conhecê-la, estudá-la adequadamente, por fontes confiáveis, para só então ter base para discuti-la. Isso é tudo o que não está sendo feito no Brasil de hoje por boa parte da população, que mergulha cada vez mais num abismo de desinformação, negacionismo e outros males alienantes, num fenômeno perigoso que bebe totalmente nas táticas nazifascistas aplicadas ao longo da história. Pode parecer exagero, mas não é. O recém-lançado livro Complexo de Cassandra: O adoecimento do saber diante de uma sociedade alienada e negacionista (Editora Sagarana), escrito pelas pesquisadoras Liliane Abreu e Natalia Sayuri, ratifica essa constatação ao analisar com minudência o negacionismo e a alienação no Brasil de hoje, amparado por uma ampla pesquisa.

O título da obra, aliás, é um feito e por si só já traz uma espécie de breve resumo do trabalho ao trazer o mito de Cassandra de Troia, na Grécia Antiga, como espelho para o que acontece hoje. Cassandra previu toda a condução e desfecho que mataria seus pais, irmãos, população e destruiria toda a cidade de Troia, mas ninguém lhe deu ouvidos. Ela implorou, repetiu incansavelmente e, desacreditada, foi isolada como louca numa torre pelo seu próprio pai, Príamo, rei de Troia. Esse mito foi transportado à psicologia para definir o chamado Complexo de Cassandra que, por sua vez, ilustra o Brasil de hoje, em que profissionais de diversas áreas alertam a população por todos os meios possíveis e são desacreditados, assistindo a toda uma destruição que poderia ser evitada. “Explicar superficialmente o que muitos já sabem ou percebem não adiantaria. Precisáva­mos saber qual era o tamanho do estrago e de onde ele vinha, fazer uma ressonância para entender essa ‘doença’ social em sua profundidade”, relembra Liliane Abreu, sobre o momento em que elas se uniram para tentar descobrir os motivos que levam parte importante da população a acreditar e a reproduzir fake news, ignorando a ciência e profissionais idôneos de diversas áreas.

Mais do que teorias, o livro é amparado por um amplo levantamento de dados. O aprofundamento demandou um trabalho de fôlego que resultou em 548 páginas, uma obra apoiada em três grandes suportes: a psicologia (histeria, perversidade, psicoses, ansiedade, medo, burnout, Síndrome do Impostor); o conteúdo de entrevistas (inclusive com negacionistas não bolsonaristas, ex-bolsonaristas, antivacinas, terraplanistas); e o embasamento teórico sobre a construção do patriarcado, a Inquisição e o nazismo, três formulações históricas que precisavam de uma pequena revisão. “Do contrário, não seria possível entender como elas se entremeiam e influenciam diretamente o que vivenciamos hoje”, afirma Natalia Sayuri. 

Lilian complementa, explicando como tudo teve início para elas. “A pesquisa começou a ser feita justamente por conta das nossas próprias angústias como mulheres, profissionais e cidadãs. Nós nos identificamos como também sendo ‘Cassandras’ e estávamos sofrendo com tudo o que estávamos presenciando. Perdemos pessoas muito próximas e queridas na pandemia; víamos vizinhos na frente das portas e janelas de nossas residências rindo e debochando da covid e gritando “ele está certo!” (falando de Bolsonaro); assistíamos as risadas e deboches do próprio presidente imitando as pessoas sufocando em morte. Nós precisávamos entender de onde e o que era tudo isso, e nada mais justo do que compartilhar com o restante das pessoas para que elas possam compreender (como nós entendemos) como tudo começa; quem são as pessoas chave nessa condução de manipulação social; como isso é feito; quem podem ser os doentes; quem podem ser e até onde vão aqueles apenas alienados; e onde estão os perversos que agem de forma muito consciente de seus atos”, explica Liliane.

Todo esse trabalho, resultante no livro lançado mês passado aqui no Brasil e em Portugal, tem largo respaldo nas duas pesquisadoras. Liliane Abreu é bacharelanda em Psicologia pela Universidade Paulista (UNIP-SP), com formação final em dezembro de 2022. É arte terapeuta (AATESP), professora especialista em Neurociência Pedagógica (AVM/UCAM), pesquisadora especialista em comportamento e consumo, ativista em Direitos Humanos; já Natalia Sayuri também é bacharelanda em Psicologia pela UNIP-SP, com formação final em dezembro de 2022, graduada em Comunicação Social pela Faculdade Cásper Líbero/SP e também atua como analista de treinamento e desenvolvimento corporativos. 

“Nós gostaríamos muito que esse livro tivesse um efeito de nível ‘rastilho de pólvora’, chegando efetivamente em muitas pessoas. Indicado, propagado, entendido e servindo de base de contextualização até para as pessoas entenderem ao outro e a si mesmas diante de tudo o que vivemos. Foram nossas angústias que nos impulsionaram nessa pesquisa, e se conseguíssemos entender, acreditávamos que ajudaria outras muitas pessoas. É assim que a gente cresce, amadurece, reflete, pensa no que é possível fazer para melhor até no microcosmos ao nosso redor e ajudar o alienado e/ou negacionista que possa estar ao nosso lado. É tudo muito difícil, e o que está acontecendo traz muita desesperança, até porque, é muita gente apoiando a barbárie. É essa pequena, mas tão poderosa coisa, a esperança, que ainda está mantendo pesquisadoras como nós, e outros tantos profissionais de diversas áreas, e até pessoas humildes e em profissões mais comuns, a todos continuarem seguindo em frente e lutando”, conclui Liliane.

A gente bateu um papo pra lá de relevante com Liliane Abreu, que aprofundou as questões da obra Complexo de Cassandra de maneira transparente, didática e sem rodeios. Uma entrevista obrigatória para quem quer entender melhor o que está em curso no país e, mais ainda, lutar por um Brasil diferente do que vem se tornando. Ao final, saiba mais detalhes da obra e como adquiri-la.

 

TESÃO LITERÁRIO- Como definir o negacionismo em pleno século XXI? Historicamente falando, é possível afirmar que esse é um mal cíclico?

LILIANE ABREU- Sim; é dolorosamente cíclico, mas que igualmente vai se aperfeiçoando em suas conduções. Quando nós começamos a fazer as pesquisas e os levantamentos teóricos de estudo, nosso pressuposto é que tudo estaria potencialmente no período do nazismo na Segunda Guerra Mundial – e efetivamente estaria –, mas fomos compreendendo que era muito anterior, começando concretamente com potencial social na construção do patriarcado há mais de 3 mil anos, e simbolizado no próprio mito de Cassandra durante a Guerra de Troia. São construções de alienação social precipitadas por indivíduos em posições de alto poder e que são absorvidas por indivíduos em esferas mais abaixo (em níveis diferenciados), e que são levados propositalmente ao entendimento de uma ou mais supostas “verdades” paralelas, e não aquela que está ali se apresentando em sua frente. E o pior nisso, é que muitas dessas pessoas que se negam a real verdade e fortalecem distorções, não são necessariamente desprovidas de estudo e diplomações. Muitas vão ascendo e tirando proveito de seus títulos para manipular o restante da população e gerando o caos social que pôde ser visto durante a pandemia, como profissionais da medicina e enfermagem orientando a população a não se vacinar e entupindo-se de remédio para matar chato e lombriga. No século XXI, a mentira ganhou muita velocidade por causa da internet – que a priori deveria ser uma incrível ferramenta de conhecimento e diversão –, mas é utilizada como instrumento de manipulação deturpada de massa e que é muito difícil de conseguir se estancar as barbaridades que surgem ali devido à imensa irradiação por pessoas que acham que possuem, mas de fato são desprovidas de análise crítica e permanecem fechadas dentro de bolhas alienadas.

TL- No Brasil, muito se aponta para o bolsonarismo quando se fala em negacionismo, mas há outros segmentos impregnados com essa maneira retrógrada de (re)ver a evolução. O que pesa mais nisso? A alienação, a desinformação ou o radicalismo político? (ou tudo junto ou há outras vertentes que também possam ajudar a explicar?)

LA- O negacionismo é um fator que atinge não apenas a dita direita, mas igualmente indivíduos da esquerda. É um fenômeno humano, e muito ligado aos processos de alienação educacional sociofamiliar e/ou cultural, mas atrelado diretamente aos níveis de preconceitos e discriminações que uma pessoa possa carregar consigo e até não conseguir ascender à um amadurecimento psíquico de auto repreensão de crenças e pressupostos pessoais. Isso aponta diretamente para os radicalismos de cada indivíduo, seja ele político ou apolítico. A negação de uma temática comprovada é algo que pode ocorrer e sempre ocorreu na humanidade, podendo ser evocado por medo, por extrema ignorância sobre um assunto, educação familiar/social, adoecimentos mentais variados e em diferenciados graus, ou até condução de caso muito bem pensado para os outros absorverem isso, e, portanto, é tudo multifatorial e vai depender de cada sujeito. Mas, no século XXI, ganhou upgrade com a ascensão mundial do nazifascismo que vem se desdobrando em outras caras, se camuflando para angariar adeptos e se infiltrando socialmente de uma forma descarada. Entenda que efetivamente no bolsonarismo, o negacionismo é fortemente potencializado e tudo vira um pacote fechado em encadeamento, em uma espécie de ‘caixa de Pandora’. E aí quando falamos de Brasil, o que se tem é uma equação cruel de um país que já possui um histórico colonialista, escravagista e racista, mas com entendimento proposital velado como “não”, através de muitas conduções como piadas, discursos distorcidos e a própria miscigenação. Tem-se também um período como a militarização na Ditadura e que tinha como ‘cereja do bolo’ os estupros em massa permeados pelo silenciamento generalizado pelo medo (por prisões, torturas e assassinatos) e a altíssima corrupção. Tudo isso ainda recebendo o acréscimo de um fundamentalismo religioso pautado na alta punição do outro, e que vai contra os ensinamentos básicos de sua figura maior de apoio, que no caso dos cristãos, é Jesus. Então, quando voltamos em todos os apontamentos antropológicos, históricos e até de estudos psicopatológicos e comportamentais da psicologia acerca de grandes períodos como o da Inquisição e do nazifascismo na Segunda Guerra, o que se tem são todos esses elementos unificados e que agora se estruturam na fórmula que estamos vendo e rotulada no Brasil como ‘bolsonarismo’. Até porque, apologia ao nazismo é crime em território nacional; então, encontraram uma maneira de validar isso de outra forma e como quimera com outros movimentos de ódio à etnias diferenciadas, mulheres, pobres e pessoas LGBTQIA+: o próprio bolsonarismo é uma tentativa de disfarce do óbvio.  

TL- O Complexo de Cassandra acabou sendo perfeito para o título da obra. Conseguiremos evitar que os ‘Simão Bacamarte à Machado de Assis’, espalhados pelo Brasil, nos aprisionem e nos chamem de loucos? Ou a crise de sanidade do personagem machadiano pode nos salvar ao final? Que saídas temos?

LA- Estamos vivendo um momento muito complicado. Vamos, como sociedade, levar muitos anos para reestabelecer o que já foi destruído em nível material, e o imaterial, mais ainda. Como descrevemos antes, há de fato um demarcador de adoecimento psíquico muito acentuado, inclusive fizemos questão de abrir uma seção no livro para explicar da forma mais simplificada possível questões da psicologia sobre adoecimentos mais pontuais. Dom Quixote, por exemplo, foi trazido para explicar o indivíduo que vai lutar com exércitos de gigantes e demônios pelo bem de sua localidade, mas na verdade ele só estava criando uma grande confusão e dano, pois tudo fazia parte de sua imaginação e mente adoecida em esquizofrenia (no caso, o “louco”). Ele não era alguém que no senso comum era “mau”, mas, sim, causava danos a si e a outros. E se houvesse milhares, milhões deles que estivessem sendo conduzidos por pessoas muito sãs, e essas efetivamente perigosas? Há também aqueles com o adoecimento de neurose grave e fazem tudo o que alguém que ele eleja como ícone ordene, e validando ações e oralidades desse mandatário, por mais absurdas que sejam. E mesmo que esse ícone diga que “pintou um clima” com meninas de 14 anos, essas pessoas vão justificar até com frases como “quem nunca?” ou “não foi isso que ele quis dizer”. O Complexo de Cassandra vem se desenvolver justamente nas pessoas que estão no oposto desses espectros de comportamento. São os cientistas, ativistas, jornalistas, professores, profissionais da saúde e outros, que alertam desesperadamente a população sobre os danos pontuais e/ou generalizados que tais indivíduos em associação (adoecidos, alienados e outros muito sãos) vão propagar danosamente à sociedade e ainda desqualificando esses especialistas. É por isso que toda a sociedade adoece de forma ambivalente, pois aqueles que provocam a coisa toda do dano tentam destruir justamente quem tenta salvaguardá-los. Então, precisa-se de um enorme esforço coletivo de toda a população para focar em educação com ensino de pautas humanistas, empatia, pensamento crítico, e desde os primeiros ciclos escolares (e sim, isso é possível e já é feito na Finlândia). As políticas públicas de ampliação de suporte comunitário em psicologia, assistência social e educação para adultos também precisam ser efetivadas em potencialidade, pois surgiu em nossas entrevistas que os bolsonaristas estão fazendo uma escola paralela pela internet, aprendendo com supostos ‘professores’ contextos históricos, dentre outros, completamente distorcidos, o que é muito perigoso. Estamos vivendo atualmente um cabo de guerra, e que não vai ser fácil, nada fácil de arrumar, pois depois de tudo que foi visto, sentido e presenciado nos últimos 4 anos, metade da população do país ainda apoia as conduções nazifascistas disfarçadas com o nome de ‘bolsonarismo’. Estamos em estado crítico, e a única coisa que dá para efetivamente se prever é o que vai ocorrer se isso tudo não for interrompido imediatamente. E o que seria isso? Pense que o sonho de Hitler era ter o nazismo nas três Américas (Sul, Central e Norte), e o ponto base como ‘menina dos olhos’ era o Brasil. E dessa vez o alvo principal não são os judeus, mas negros, indígenas e todos os mestiços... O restante é apenas ‘ajuste’. Convencer pessoas de que nada disso está ocorrendo e fortalecer o negacionismo é peça-chave.

TL- Impossível não trazer a pesquisa (e o livro) para este momento político, quando o próprio presidente da República, novamente candidato, negou até onde pôde a eficácia da vacina contra Covid-19, que acabou se mostrando vital para o fim da pandemia. Como explicar que milhões de pessoas apoiem absurdos como esse? Como a pesquisa ajuda a entender isso?

LA- A pesquisa começou a ser feita justamente por conta das nossas próprias angústias como mulheres, profissionais e cidadãs. Nós nos identificamos como também sendo ‘Cassandras’ e estávamos sofrendo com tudo o que estávamos presenciando. Perdemos pessoas muito próximas e queridas na pandemia; víamos vizinhos na frente das portas e janelas de nossas residências rindo e debochando da covid e gritando “ele está certo!” (falando de Bolsonaro); assistíamos as risadas e deboches do próprio presidente imitando as pessoas sufocando em morte. Nós precisávamos entender de onde e o que era tudo isso, e nada mais justo do que compartilhar com o restante das pessoas para que elas possam compreender (como nós entendemos) como tudo começa; quem são as pessoas chave nessa condução de manipulação social; como isso é feito; quem podem ser os doentes; quem podem ser e até onde vão aqueles apenas alienados; e onde estão os perversos que agem de forma muito consciente de seus atos. É por isso que o leitor vai encontrar vários pequenos livros dentro desse livro, pois não adiantava explicarmos resumidamente em poucos parágrafos cada contexto. Precisávamos explicar capítulo a capítulo, cada um dos percursos para que quem ler, efetivamente una as peças do quebra-cabeças e possa ir elaborando o próprio pensamento crítico, e até aprender, se o caso, a não cair nas artimanhas dos contextos negacionistas.  

TL- Ainda no campo da política, o enfraquecimento das universidades públicas, promovido pelo atual governo, pode implicar em danos maiores nesse processo de imbecilização social? Afinal, sem pesquisa científica e boa convivência acadêmica (e com a inevitável elitização da formação acadêmica), como podemos encarar o futuro?

LA- Vamos responder com um contundente ‘sim’. Observe uma coisa: a estratégia primária de regimes totalitários (e aqui é independentemente da vertente, mas potentemente no nazismo), é retirar as formas da população mais pobre ter acesso à educação (e de qualidade) e que evoque pensamento crítico. Na Inquisição queimavam ou ameaçavam de queimar os estudiosos e pensadores. No nazismo de Hitler (não por acaso inspirado na Inquisição), literalmente queimaram os livros, mataram e/ou perseguiram para matar todos os grandes cientistas, professores e estudiosos da época, e em paralelo, as escolas foram militarizadas (exatamente como Bolsonaro quer fazer no Brasil), recontando uma nova história mentirosa e distorcida. As crianças foram, por exemplo, incentivadas ao altíssimo aprendizado de matemática, e que se pode pensar “ah, incrível isso”, mas era para se calcular o prejuízo que doentes, pessoas com problemas físicos e mentais, e idosos davam ao Reich (o que justificava “uma morte misericordiosa”), ou ainda, para se contabilizar como diminuir os gastos com projéteis de armas na execução de judeus. Não é consciência o que veio ocorrendo no Brasil, com incentivo ao armamentismo da população para criar uma milícia civil paralela. Demonização de professores do primário à universidade. Criação de inimigos imaginários “comunistas”. Tentativa de homeschooling (o que abre portas para crianças violadas em casa ficarem prisioneiras de seus algozes, e ainda afastar em exclusão crianças com Síndrome de Down ou problemas de mobilidade, e que foi falado em cadeia nacional pelo ex-ministro da educação do governo Bolsonaro). Sucateamento de universidades e cancelamento de verbas para a educação. Tudo tem propósito. Tudo tem objetivo. Tudo tem um MODELO. Até porque, observe que todas as pessoas colocadas em pastas e postos-chave nesse governo não são qualificadas para tal, e se por acaso possuem alguma credencial em proximidade, participam de caso pensado do desmonte. Os profissionais efetivamente qualificados são afastados dos cargos de ensino e/ou outros suportes à sociedade. Alunos ficarão anos sem a possibilidade de concluir (e sem a ajuda de professores que lhes dão subsídio de pensamento crítico) o fechamento de profissões que atendam sociedade e indivíduos, gerando uma massa que vai ficar dependendo de subempregos e salários ridículos. E assim, pode-se contar com ‘a(o) tia(o) do WhatsApp’ e os tais divulgadores de aprendizado nos canais de teoria da conspiração alucinantes nessa ‘nova escola’ que os bolsonaristas estão falando tanto que andam ‘aprendendo’. E de novo, quem vai conseguir ascender às universidades, e muito pior do que era antigamente, será só quem tiver alto capital para bancar isso, porque nem mesmo quem ‘se lasca’ trabalhando de dia para fazer uma faculdade à noite, não terá condições para isso. É elitismo escancarado. É isso que já começou a ser implementado e se a sociedade e políticos sérios não conseguirem mudar, teremos um quadro calamitoso nos próximos 5 anos (ou menos), mas armado pelo governo Bolsonaro e seus associados.

TL- Ampliando um pouco o escopo, como um país com amplos tentáculos de corrupção, que tocam praticamente todos os segmentos da sociedade, pode evoluir enquanto nação? Essa alienação que se espalha feito praga não ajuda a manter o foco em outros temas, enquanto ‘a porteira fica aberta e a boiada passa’? Esse é o caminho mais eficiente para ‘desformar’ cidadãos?

LA- Uma das nossas entrevistadas é professora e política. Em um dos trechos de nossa conversa ela narrou que sempre leu muito e produzia artigos científicos e livros, dentre outros materiais de amplo espectro. Ela nos disse que desde o final de 2018 não conseguia fazer mais nada disso, pois não conseguia parar de se defender contra os ataques especificamente dos bolsonaristas. Isso foi capturado em outros indivíduos que analisamos. Por outro lado, os bolsonaristas estavam produzindo lives, livros e outros materiais com negacionismo e manipulações com distorções que arrancavam metaforicamente o cérebro do crânio de qualquer indivíduo minimamente sensato. Desinformar é um projeto para eles, da mesma forma que criar o ambiente favorável para isso ocorrer, e aí sim, a corrupção e as outras coisas associadas a isso correrem soltas sem ninguém se opor, ou ainda em situação pior, se associar para ganhar algum poder. E veja que maquiavélico: eu já apontei que a pauta base na Alemanha nazista de Hitler era a educação, mas também era a mulher. A figura feminina é usada como ferramenta na educação e ações coercivas nas sociedades desde a formação do patriarcado. Ela é modelo do que pode ocorrer com os outros sujeitos e grupos se eles não obedecerem. No nazismo, Hitler entendeu que se as mulheres se entendessem como figuras para a elevação “da moral e bons costumes” da nação, seria mais eficaz do que as matar, até porque, ele precisava de seus úteros para gerar mais pessoas que seguissem seus preceitos. Quando transportamos para o Brasil negacionista do bolsonarismo, o que se encontra é a mesmíssima equação, sendo que duas figuras femininas (mais potencialmente) foram usadas como essa máxima supostamente ilibada e cristã: Damares e Michele B. E aí, é como se todos eles chacoalhassem uma das mãos chamando atenção para suas verborragias de falsos moralismo, para com a outra mão estarem encobrindo aquilo que não verbalizam. Freud dizia que quando alguém anuncia uma descabida moralidade, é para ocultar proposital e proporcionalmente uma gigantesca imoralidade. 

TL- O livro foi lançado no Brasil e em Portugal, ocupando prateleiras em outros países europeus. Alienação e negacionismo não são exclusividades nossas, pelo contrário. Que paralelos vocês conseguem fazer nessas questões entre o Brasil e o mundo?

LA- Sim, o livro já está disponível no Brasil e na Europa. Com relação ao negacionismo, nós conseguimos entrevistar um cientista na Alemanha que participou das pesquisas e produção de uma das vacinas contra a covid-19. Também fizemos as análises sobre esse e outros contextos (como ligados à ascensão do nazismo) também em nível mundial e como isso poderia se emparelhar com o negacionismo e processos de alienação. Enfim, quando conversamos com esse cientista específico, e até puxando a questão da quantidade de indivíduos com alta escolaridade, até doutorados, indo às ruas por toda a Europa para protestar contra a vacinação ou uso de máscaras, ele trouxe que os estudiosos por lá nessa temática não chamam essas pessoas de negacionistas, mas de ‘céticos’, pois dizem acreditar na ciência, mas não na doença ou na vacina, o que é uma contradição. Seja como for, isso é um fenômeno mundial, e como descrevemos antes, não está ligado diretamente à alguém auto reconhecido ou proclamado como sendo da direita. Acessamos muitas pessoas identificadas como de esquerda, ou apolíticas, com esse mesmo comportamento. Contudo, aqueles entendidos como de direita e que abraçam todos os discursos da extrema ou supra-direita se superam. É mundial, sendo que até muitos discursos são paralelos, e nós no Brasil, com a síndrome de vira-lata até de presidente da República que estava repetindo tudo o que o Trump fazia e falava nos EUA, estava sendo copiado por seus apoiadores. Tudo isso é fortalecido pelas transmissões simultâneas e cruzadas por todo o planeta com a internet, sejam coisas positivas ou negativas, mas essas últimas são reproduzidas como rolo compressor diante de pessoas sem filtro de pensamento.   

TL- Há realmente um adoecimento do saber, isso é inegável. É possível você aprofundar mais sobre essa orquestração macro para ampliar o domínio sobre as pessoas, e também sobre o modo de vida atual que facilita essa alienação, mesmo com tanta informação disponível?

LA- Como foi explicado anteriormente, o adoecimento desse saber não está apenas nas bases dos negacionistas em potencial. O saber oriundo de profissionais que geram o crescimento e cuidados das sociedades fica tremendamente abalado com o movimento de desqualificação criado por esses negacionistas. Mas não apenas os profissionais qualificados e com consciência social, as pessoas comuns com seus saberes significativos também são afetadas. Veja os indígenas sendo trucidados em condução de extermínio. Essa população possui um saber único e milenar, que cientistas do mundo inteiro vão até eles para entender como lidam com a flora e a fauna ao seu redor em níveis de saúde, para transformar isso volumetricamente para curar doenças diversas em grandes cidades. O saber ancestral de espiritualidade e cultural das matrizes africanas é outro exemplo, e que vem sendo mais demonizado, alavancando até mesmo os contextos escravagistas de determinados indivíduos que não estão nem mais com medo de se apresentarem como racistas, já que vergonha nunca existiu mesmo. Veja que são apenas dois exemplos, mas que falam desses saberes que não são edificados em grandes centros acadêmicos, mas que juntos com este, estão sendo propositalmente perseguidos. É por isso que o trabalho terá de ser coletivo e contínuo, pois como visto no primeiro turno das eleições, metade da população encheu o senado e outros cargos de estados justamente com pessoas que prezam pela manutenção das mentiras, das Fakes News, do genocídio, da pedofilia escancarada (mas disfarçada), do desmatamento, do envenenamento por agrotóxicos e muito mais. Vai ser muito cansativa a continuidade de luta pela humanidade e de desalienação no Brasil, mesmo se Bolsonaro não prosseguir em seu cargo em 2023. Como dissemos no livro, o bolsonarismo é uma ideia que se firmou e é um disfarce do nazifascismo, e, por isso, não precisa necessariamente de Bolsonaro daqui para frente. Diante disso, mostra o tanto que a população que apoia isso está adoecida ou, mesmo de sã consciência, está ganhando algo (que só cada um sabe o quê), mas que adoecem todo o restante das pessoas que estão contra tudo isso.   

TL- Aliás, por que com tanto acesso ao conhecimento nos permitimos essa idiotização?

LA- Isso é muito antigo. Adorno já falava bastante sobre isso nos anos de 1940, e trazemos essa temática no livro com ele, mas igualmente em outros trechos com outros teóricos e observações que coletamos. O conhecimento nos centros escolares (de vários níveis) está sendo efetivamente retirado ou dado muito superficialmente. Lembre-se que professores vinham sendo descredibilizados com a famigerada mamadeira peniana desde 2014, 2015, ou mesmo matérias que geram o pensar no ensino médio foram retiradas dos currículos escolares por Bolsonaro. Por outro lado, muitas crianças e adolescentes vinham sendo instruídos pelos pais a não darem ouvidos aos professores, sobretudo os de História, Sociologia, Filosofia, Física e outros, ao ponto de depois de 2019 estarem dando com dedo em riste na cara de seus professores dizendo que “a Terra é plana mesmo; Galileu estava errado, e essa era sua opinião e pronto”. Há um outro fator: com o advento da internet, as pessoas passaram a ter efetivamente acesso a muita informação – o que seria fantástico se soubessem como realmente fazer isso –, só que elas NÃO LEEM nada! Veja só: em reportagens simples com um conteúdo às vezes de 3 ou 4 parágrafos, muitas pessoas não se dão nem ao trabalho de abrir a postagem para ler, e se o fazem, leem superficialmente, ou ainda não entendem. Na grande maioria (e isso é generalizado, esquerda, direita, político, apolítico) as pessoas querem estar inseridas nos grupos e conversas, mas com a quantidade enorme de conteúdos, elas leem apenas os títulos das reportagens e saem querendo ‘dar a opinião’ daquilo que não leram ou não entenderam. E aí pode-se averiguar postagens às vezes com 3 mil comentários (ou mais) com um bando de gente regurgitando todo tipo de besteira assim. Vira um efeito manada de gente sem efetiva propriedade, mas opinando sobre tudo, e o idiotizado surge potencialmente ali. Contudo, como tem milhares de sujeitos (em grandes grupos e postagens) ou uma meia dúzia deles (em seus perfis pessoais) para corroborar essas suas ‘opiniões’, faz-se o exército de medíocres sem conteúdo a bradar sobre o que não entende.  Se vão efetivamente para um livro, vão ler conteúdos de autores negacionistas e que descaradamente distorcem autores fidedignos. As pessoas não lerão os autores originais, e assim, esses negacionistas vão se validando em corrente e vendendo 100, 200, 300 mil exemplares de conteúdos mentirosos. Aí leem livros de 300 páginas do Olavo de Carvalho, que manda colocar uma régua no horizonte para ‘provar’ que a Terra é plana, e esse leitor acredita que é um verdadeiro estudioso por ler essas 300 páginas de conteúdo esquizofrênico, ou meticulosamente maquiavélico. É por isso tudo que a educação vai ter que ser prioridade e deveriam pensar seriamente no ensino do pensamento crítico como matéria em todos os níveis de escolaridade, pois sim, é muito cabível e possível. 

TL- Lançar O Complexo de Cassandra em tempos como estes acaba ganhando uma relevância enorme. Será que dá para prever possíveis impactos da pesquisa na sociedade brasileira?

LA- Nós gostaríamos muito que esse livro tivesse um efeito de nível ‘rastilho de pólvora’, chegando efetivamente em muitas pessoas. Indicado, propagado, entendido e servindo de base de contextualização até para as pessoas entenderem ao outro e a si mesmas diante de tudo o que vivemos. Como explicamos logo no início, foram nossas angústias que nos impulsionaram nessa pesquisa, e se conseguíssemos entender, acreditávamos que ajudaria outras muitas pessoas. É assim que a gente cresce, amadurece, reflete, pensa no que é possível fazer para melhor até no microcosmos ao nosso redor e ajudar o alienado e/ou negacionista que possa estar ao nosso lado. É tudo muito difícil, e o que está acontecendo traz muita desesperança, até porque, é muita gente apoiando a barbárie. É essa pequena, mas tão poderosa coisa, a esperança, que ainda está mantendo pesquisadoras como nós, e outros tantos profissionais de diversas áreas, e até pessoas humildes e em profissões mais comuns, a todos continuarem seguindo em frente e lutando, mas é muito cansativo. Mas, sabe o que é bonito no ser humano? Uma coisa chamada resiliência. É a capacidade que nosso cérebro possui de evoluir diante de coisas muito traumáticas que aconteceram, e dali sua mente desdobra-se em força e estratégias para vislumbrar como contornar e resolver novas adversidades e lidar melhor e de formas mais criativas com um grande mau que ela perceba não apenas para si, mas para outros. É por isso que tantos se levantaram contra a barbárie, e mesmo já estando esgotados e até com muita raiva de ver tanta perversidade, ainda assim, encontram a sororidade para ajudar o outro. O dia que todos os indivíduos e sociedades entenderem o real significado disso, tudo mudará para um mundo muito mais evoluído.

TL- Não é à toa que, conforme você já citou, esse movimento negacionista no Brasil acontece junto com outros males, como o armamento da população em detrimento de políticas culturais, a demonização da arte, o extremismo religioso, o citado enfraquecimento das universidades públicas, o aumento de discursos de ódio… Há alguma vacina para o que estamos nos tornando?

LA- É mais ou menos o que já citamos mesmo. Investimento na educação, na saúde física e mental das pessoas, e o entendimento dos processos de empatia que levam um indivíduo a efetivamente entender e não ignorar a dor do outro. O nazifascismo tem como praxe ignorar o outro e suas dores, criando artifícios de achatamento moral e ético da sociedade, mas falando sobre uma falsa cristandade ou zelo pela família. É tudo uma máscara mentirosa para destruir tudo ao redor, como gafanhotos e sem nenhum escrúpulo. E quando vemos ataques às pessoas que tentam dar acolhimento em carinho, alimentos ou agasalhos, mas de outro lado, surgem em massa sujeitos fazendo dedo de arminha dentro de casa, na igreja e nas escolas, é porque algo na humanidade deu muito errado mesmo. Nesse caso, ficar calado ou não fazer nada, não é uma opção. Vamos ter que trabalhar muito para fazer retroceder isso. 

 

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SERVIÇO

Complexo de Cassandra: O adoecimento do saber diante de uma sociedade alienada e negacionista

Autoras:Liliane Alcântara de Abreu e Natalia Sayuri Melo

Editora: Sagarana

Páginas: 548

Formato: 16cm x 23cm

Livro impresso: R$ 75,00

e-Book: R$ 39,90

Disponível pelo site da editora: https://sagaranaeditora.com/ 

Também na Amazon Brasil, Americanas, Submarino, Magalu e Shoptime.

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