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Literatura

Bola pro Alto: “E se...” é o novo texto de Marcelo Cavalcante

Por: SIDNEY NICÉAS
O Futebol não vive somente do hoje. Passado, presente e futuro se misturam no novo conto de Marcelo Cavalcante

Foto: Arte/Tesão Literário

10/10/2020
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*por Marcelo Cavalcante

Meio-dia. Sol a pino. Poderia ter chegado mais cedo para não ter que ficar exposto a uma temperatura tão alta. Mas perdeu a hora. Durante a madrugada, levou seu filho à emergência de um hospital próximo da sua casa. Estava com crise de asma. E em período de Covid, ficou tenso. A lista para atendimento estava longa. Passou um bom tempo na espera, até ouvir do médico que nada tinha a ver com Novo coronavírus. "Mas é preciso se medicar e tomar muito cuidado", disse o doutor. Voltou para casa quase com o sol raiando. Não comeu e decidiu apenas tirar um cochilo. Acordou com a tosse do filho. Olhou para o relógio já era 11h. Ligou para o chefe, pediu desculpas. E garantiu que antes do final da tarde terminaria todo o serviço. Medicou José, esperou ele dormir novamente, beijou a esposa e saiu em disparada para o ponto de ônibus. Por sorte, chegou na hora exata em que o busão chegou na parada. Vinte e dois minutos depois estava na porta dos Aflitos. "Ufa, deu tudo certo... apesar dos pesares.

Luiz enxugou o suor da testa com o boné vermelho que usava. Olhou para o céu. Homem de fé, pediu forças a Deus para cumprir sua missão. Ligou o cortador de grama e, da lateral do gramado, próximo à arquibancada central, seguiu vagarosamente para o lado das sociais, fazendo uma raspagem paralela à linha do meio de campo. A máquina fazia um barulho ensurdecedor, mas não o incomodava, já que o seu fone de ouvido emitia os clássicos de Jorge Ben. Os passos lentos deixavam vivas na sua mente as imagens do drible que deu no seu marcador, num duelo decisivo contra o Sport. Valia o turno do Pernambucano de 1978. Numa reposição do goleiro, foi em direção à bola. Como se tivesse olhos na nuca, percebeu que o seu marcador estava o seguindo. Mas deixou a bola passar e, num giro de corpo, o marcador ficou atônito. Pegou a pelota na frente. Avançou rápido, invadiu a área e bateu rasante, forte, cruzado. Golaço.

Abriu um sorriso. Já havia dado três voltas para lá e para cá com o cortador de grama. Havia muito por fazer. E relembrar. Mas o futebol também tinha os seus momentos difíceis. Tempos que o mostrava ter força interior que não conhecia. Certa vez, após driblar toda defesa adversária e ficar de cara para gol, viu o goleiro sair. Puxou para direita, mas seu pé ficou preso na grama. O camisa 1, na ânsia de fazer a defesa, acertou seu tornozelo. Ouviu o estalo. Soltou o grito. Bateu o desespero ao ver, ainda caído no chão, que seu pé estava tão redondo quanto à pelota. Foram mais de seis meses no departamento médico. Achava que não voltaria mais a jogar. Nessas horas, o medo cega. E futuro vira utopia.

O cortador de grama desligou estranhamente. Antes de conferir o que aconteceu, enxugou novamente o suor do rosto com o boné. Tomou o gole da água. Olhou para o gramado e viu que já havia feito mais da metade do seu trabalho. Estava quase tudo pronto. Acionou a máquina, que voltou a funcionar automaticamente. Não quis saber o que de fato aconteceu. Perda de tempo. Seguir em frente assim como fazia com as bolas nos pés. Gostava de ouvir seu nome ecoar nas arquibancadas. "Luuuuis Caaaarlooooss". Quando fazia gols em clássicos, viva em êxtase o mês inteiro. Era parado na rua para distribuir autógrafos, posar para fotos... Em eventos da cidade, era convidado como grande atração. Na rua da sua casa, era atração para criançada. As mulheres suspiravam fundo ao vê-lo passar. Poderia namorar quem quisesse.

Enfim, Luiz chegou ao final do trabalho. Já eram mais de três da tarde. Estacionou o cortador embaixo da trave. Olhou com carinho e uma pontinha de orgulho o trabalho que acabara de fazer. O gramado ficou em perfeita condições para o jogo de logo mais. Um verdadeiro tapete, ou melhor, uma mesa de bilhar. Abriu um novo sorriso. Ainda mais intenso. Olhou para a trave. Naquela mesma trave que estufou as redes, numa cobrança de pênalti, no último minuto da partida. Que valeu o título Brasileiro. Deu um soco no ar. Como se estivesse acabado de fazer o gol. Tirou o boné. Pendurou no gancho do travessão onde se entrelaça as redes. Caminhou lentamente para o portão de saída. O sorriso havia desaparecido. Tudo poderia ter sido bem diferente. Se fosse mais persistente...

E não tivesse desistido de tudo quando, ainda adolescente, foi reprovado do primeiro peneirão no Náutico.

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Marcelo Cavalcante é escritor, jornalista e cronista esportivo. Apaixonado por futebol e por literatura, lançou cinco livros sobre o esporte, incluindo as biografias de Givanildo Oliveira e de Kuki. Na Literatura Infantil, publicou Pedrinho e a chuteira da sorte e Marina e o passarinho perdido, escrito em homenagem à sua filha.

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