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Literatura

Café com o podólatra

Por: SIDNEY NICÉAS
O barbeiro-poeta Zé Amorim retorna ao Tesão com uma crônica sobre o escritor Glauco Mattoso, o poeta pornosiano, e seu encontro com ele.

Foto: Reprodução/oficinapalimpsestus.com.br

11/08/2023
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*Por Zé Amorim

Quando a seleta de poemas do Movimento Pornaso ficou pronta, nem eu nem o Diego Moreira, que é o outro autor, conseguimos um prefaciador. No geral era isso: fosse colega ou professor, sempre rasgava elogios acrescidos de apoio moral, mas na hora de assinar um prefácio para um livro de poesia pornográfica, corria. Aliás, teve um que aceitou, levou na barriga e nunca o fez. Escritor estreante tem credibilidade baixa, já arranca na lista do SPC: Só Poeta Comum.

Virei um colecionador de nãos! Até que um dia entrei em contato com Glauco Mattoso e ele me informou que não costumava fazer prefácios. De todo modo, disse que eu lhe enviasse alguns poemas. Após lê-los, gostou e me comunicou que o escreveria. Para nós, foi uma verdadeira honra não só pelo texto ter sido assinado por ele, mas pelo fato de que ficou um primor: abalizado, fluido, bem-humorado e, é claro, escrito com filologia clássica, isto é, um passeio histórico pela ortografia da língua portuguesa antes do primeiro acordo.

Recebemos um presentaço: um prefácio escrito por um exímio ensaísta, por um recordista mundial em quantidade de sonetos, por um arauto da poesia pornográfica brasileira: por Glauco Mattoso, nome citado por Caetano Veloso na canção Língua. E o mais importante: por um bardo que fez poemas que queríamos ter escrito. 

Em março deste ano, fui a São Paulo e tive a oportunidade de visitar nosso sonetômano. Quando toquei a campainha, Akira, seu companheiro há 22 anos, me recebeu. À direita havia uma coleção de bengalas e, na sala da frente, ao fundo, estava sentado o Glauco Mattoso. Parecia uma estátua, estava em pleno silêncio, de pernas cruzadas, com uma das mãos apoiada no joelho e a outra no queixo, além dos seus inseparáveis óculos escuros. A sala mantinha uma decoração singularíssima, dedicada à podolatria. Lá havia quadros com o pôster do Filme para poeta cego, película em que é o personagem; um pôster do Perepepé, picolé de pé da Gelato; um autorretrato abraçando um tênis; um quadro do papa fazendo lava-pés; um coturno e uma escultura de pés de ex-voto. Um painel digno de quem é autoridade no assunto.

Ah! Se você, que agora lê esta crônica, é daqueles que ficam com o pé atrás com as palavras pediatra e ortopedista, saiba que o radical ped presente nas duas é diferente, por isso a confusão. O ped em pediatra vem do grego paidós, que significa criança, e é o mesmo que encontramos em apedeuta, pedagogo e pedófilo; já o ped em ortopedista vem do latim pědis, que significa pé, e é o mesmo que encontramos em alípede (que tem asas nos pés), pedal e pedicure. Pé em grego vem do radical podós, que encontramos também em Édipo, podologia e podolatria. Viu só? Com um passo de cada vez, se chega lá.

Após um café, seguido de uma boníssima conversa, tiramos uma foto.  Glauco me presenteou com seu mais recente livro: PIFFIA PIVIA, publicado pela Lambrequim, e se despediu, verbalizando seu jargão tradicional: “Abraço tornozelar!”

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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