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Opinião

Canção, letra e música

Por: SIDNEY NICÉAS
 Zé Amorim, o barbeiro-poeta, retorna em 2024 ao Tesão explorando seus pensamentos músicais em mais uma de suas crônicas bem humoradas.

Foto: Jefferson Santos/Unsplash

11/01/2024
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*Por Zé Amorim

A relação entre poema e letra de canção sempre chamou a minha atenção, ainda que hoje eu veja dois gêneros diferentes que, por terem quase que as mesmas tipologias textuais, a maioria das pessoas tende a chamar de poesia uma canção bem escrita. Fora isso, atuo nas duas áreas, sou poeta e letrista. Embora ritmo e rima tenham a mesma raiz, e o poema e a letra comportem os dois, na canção não basta baterem a mesma quantidade de sílabas, é necessário que elas encostem na melodia. Por isso, nem todo poema de redondilha maior encaixará na melodia de Paratodos (Chico Buarque) ou Menino da porteira (Teddy Vieira e Luís Raimundo). Do mesmo modo, nem todo poema em redondilha menor, ainda que caiba perfeitamente num andamento de guarânia, encaixará na melodia de Saudade da Minha Terra (Goiá e Belmonte). 

Esses dias, escutei uma entrevista do violonista Guinga dizendo que se inspirava muito em Tom Jobim. Segundo ele, as músicas jobinianas se sustentam por si só, isto é, independem das letras. Gostei desse conceito e resolvi invertê-lo para mim, pois, de agora em diante, sempre que escrever uma letra, quero que tenha vida própria para além da música. Mas será que na prática isso se realiza?

Fiz dois testes diferentes, ambos baseados apenas na minha empiria: uma música letrada e um poema musicado. Primeiro, me recordei de um clássico da música clássica: Jesus, alegria dos homens, de J. S. Bach. Recentemente, descobri que foi letrada por Vinicius de Moraes com o título de Rancho das Flores. De lá para cá, toda vez que ouço uma orquestra apresentando a música, me vem sempre à cabeça a letra: “Entre as prendas com que a natureza/ Alegrou este mundo onde há tanta tristeza...” 

No segundo teste, fiz um esquema inverso, ou seja, me lembrei de Fanatismo, um soneto de Florbela Espanca, que, só mais tarde, descobri que foi musicado por Fagner. Resultado: nunca mais o declamei num sarau, pois toda vez que tento me vem à melodia e me atrapalho. Então, para não virar um poema-canto-à-capela, cortei-o da minha lista recitatória. 

Recentemente, Guinga veio fazer um show em Floripa e tive a oportunidade de perguntar ao próprio sobre o problema. A questão, para ele, não é se a música faz lembrar a letra ou esta àquela, e como exemplo ele cantarolou a melodia da canção O bêbado e o equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc), que, apesar de ser bonitinha, a letra lhe faz uma falta danada. O artista ainda ressaltou que a letra não precisa ser independente da música, pelo contrário, precisa ser a legenda dela, pois, na sua visão, há muitas músicas com letras que não são suas legendas, ou seja, apenas preenchem os espaços mas não exprimem o que a melodia enseja. 

Em verdade, a canção não foi feita para ser executada separadamente, música de letra. Para brincar com o título de uma canção do Djavan, fica Faltando um pedaço. Concordo com Guinga quanto à letra-legenda, mas convenhamos que fazer uma música que sobreviva sem letra e uma letra que sobreviva sem música é enriquecedor para a canção, uma vez que mais com mais dá mais. Acredito que problema mesmo é quando as duas, letra e música, juntas não se sustentam, aí menos com menos dá bem menos e canções viram cansões! 

 

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

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