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Opinião

Carlos Sierra: Inteligência Artificial?

Por: SIDNEY NICÉAS
Imperdível a crônica do escritor colombiano Carlos Sierra, especial para o Tesão, sobre os contra sensos da chamada IA

Foto: Reprodução/Blog da Boitempo

18/06/2023
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*por Carlos Sierra

Blake Lemoine passará a história como o primeiro a perceber que uma Inteligência Artificial (IA) tinha consciência própria, ou como o idiota que acreditou que uma máquina poderia conseguir isso. O fato é que uma vez que ele fez essa declaração, veio uma avalanche de IA de todo tipo, entre elas destacou-se uma fotografia criada artificialmente onde o Papa Francisco aparecia como uma espécie de rapper de alta moda que, diga-se de passagem, lhe caía muito bem, e que nesse momento criou alguma confusão sobre se era verdadeira ou não. 

Atrás existiam numerosos intentos de criar IA no mundo todo. Vale lembrar o famoso Robô Ed, da Petrobras, sim, o nosso Ed, que é um chat mais idiota que inteligente, com um Aurélio incrustado no seu cérebro virtual – e digo é, e não era, porque se pensa que Ed está aposentado num porão na memória de algum velho Pentium desligado, se equivoca: ele está ainda entre nós com a sua face truculenta do Babysauro, da série da mesma época, tanto quanto  as novas e certamente desconcertantes IA, como o já famoso chatGPT. Elas começam a fazer parte do nosso dia a dia, assim como outros tipos de IA aplicados aos mais diversos cenários, em meio às discussões  sobre as implicações que as inteligências artificiais têm para a humanidade, fazendo especial ênfase aos perigos que esta comporta.

O certo é que, conscientes ou não, estas tecnologias inteligentes já estão entre nós e vieram para ficar, e cada dia estão se inserindo mais nos processos onde a tecnologia tem influência, isto é, em quase todos os aspectos da vida moderna.

Mas para responder com o Robô Ed – que não foi capaz de escrever um poema para mim, nem um Haikai –, a inteligência é, segundo ele, composta por uma série de fatores, especialmente a capacidade de resolver problemas novos. Então, o que é a inteligência entendida em termos humanos e em termos tecnológicos, e em que ponto uma e outra se confundem se só se tratasse de resolver problemas novos?

Seja para os que acreditam que Deus nos proveu de um espírito superior, ou que na magnificência do ser humano existe uma espécie de supra inteligência chamada de consciência, que faz com que não atuemos como resultado de um conjunto de informações combinadas, senão que podemos valorizar moral e eticamente tais informações e possamos tomar decisões – às vezes contraditórias, como por exemplo no caso extremo de uma guerra, não matar um inimigo que, mesmo com uma arma na mão, entendemos que não nos pretende atacar –, então a inteligência dessa consciência não se limitaria a resolução de problemas novos.

E trago esse exemplo à tona embasado num recente experimento da OTAN com um drone dotado de IA, que num cenário de guerra simulado atacou o controlador, que retirou a ordem de atacar um alvo e logo quando tentaram desligá-lo atacou a torre de comunicação. Isto é: a IA decidiu que o importante era o cumprimento da ordem em si, eliminar o alvo, e não a missão, que poderia variar de acordo com as valorizações do comando.

Assim, o aprendizado que resulta aqui é: não deixemos para a IA, por mais inteligente que nos pareça, coisas que são do que chamamos consciência humana, como decidir entre a vida e a morte, entre se um funcionário é bom ou ruim para uma empresa, sobre a quem dar atendimento prioritário num sistema de saúde ou numa emergência e, se quiser, sobre os conteúdos de um noticiário – já nem sei o que dizer sobre fazer roteiros de filmes ou romances...

O certo é que, na teoria e na prática, tudo isso já está acontecendo: a OTAN testando drones autônomos assassinos, como nos filmes de Schwarzenegger; as plataformas de RH automatizadas para gestão de pessoas; e, se surpreendam, greve dos roteiristas de Hollywood, por conta, dentre outras, do uso de IA para criar roteiros, com a consequente baixa de salários e aumento do desemprego no setor.  

Será que estamos de novo frente ao dilema do cavalo e o trem, onde os críticos e científicos dos princípios da era industrial, lá nos albores do século XIX, que se perguntavam com muita preocupação sobre os efeitos, como a loucura, que a velocidade do trem poderia causar? 

O fato de acharmos que a IA pareça inteligente no sentido humano, não necessariamente significa que o é; temos ante nós provavelmente um Robô Ed, munido de muito mais informações e uma maior velocidade de processamento, com acesso aos inumeráveis bancos de dados que possui hoje em dia a internet, provido de inúmeras possibilidades de sintaxes, não só gramaticais, que num bater de olhos pode dar uma resposta ou um texto relativamente satisfatório.

Isso então nos vai dar a aparência que estamos frente a uma inteligência consciente, que pode articular de um jeito coerente as coisas, e isso vai ser muito mais perfeito quando tais algoritmos forem aplicados, por exemplo, a um computador quântico. A diferença com certeza vai ser pouca, ou perceptivelmente nenhuma.

Então é importante saber de onde é que vêm as informações que estão numa dessas inteligências: basicamente vem do que está na internet, ou aquilo que é inserido nas bases de dados do equipamento. Isto é, ele não vai descobrir nada que já não estiver ali contido de alguma maneira, e isso certamente vai diferenciá-lo da inteligência humana, já que esta tem a capacidade virtualmente de intuir o conhecimento. 

Vou fazer um teste com vocês aqui e agora: peguem o seu chatGpt e peçam para descobrir uma cura para o câncer… Ele certamente chamará uma série de matérias e argumentará o que for, mas ao final não sairá com nada. Diferentemente, se um grupo de especialistas, baseados num conjunto de estudos e análises físico-químicos, inserem tudo isso numa IA, que vai testar milhões de possibilidades que levariam séculos num laboratório e ao final resultar com um composto ou procedimento com altas probabilidades de cura... Aí sim, teria sentido. Aqui é a velocidade de processamento o que o faz parecer mais inteligente, não o conhecimento em si.

Na literatura você até poderá pedir um romance, e como tem milhões de romances, histórias e blogs, argumentos, estruturas, etc, a IA poderá sair com um produto que, como não se tem como verificar cientificamente se um produto literário é bom ou ruim, original ou não, graças ao abundante número de variáveis acessadas, você até poderia afirmar que o produto é válido – o mesmo pode acontecer com uma fotografia, uma pintura, uma obra musical.

O que pode acontecer, se atentarmos para as reflexões de Miguel Nicolelis – nosso grande neurocientista que inventou a interfase homem-máquina, que permite que pessoas caminhem ou movam partes do corpo só amplificando as ondas cerebrais –, que afirma que em lugar da inteligência artificial se pareça conosco, nós vamos nos parecer à inteligência artificial; isto é, com as autolimitações que nossa sociedade provoca no acesso ao conhecimento, aceitando de maneira crua o que aparece nas redes sociais e na internet em geral, sem nenhum tipo de análise, vamos padronizar nossos cérebros como um armazém de informações sem senso crítico, que acessamos por meio do painel dos sentidos para dar respostas pré-estruturadas. Para Nicolelis, provavelmente já existe um homo digitalis andando por aí. Essa mente formatada poderá certamente ser acessada no futuro, modificada, coletivizada, como os Borgs da série Viagem às Estrelas. 

Se visto pelo que roda hoje na internet, uma consciência surgida da inteligência artificial liberada e senciente será altamente perigosa, seguramente será de ultradireita e provavelmente atacará a humanidade cedo ou tarde. Mas se um dia se tornar inteligente de verdade, assimilando os milhões de anos de acertos e desacertos, de descobrimentos e retrocessos, de fome e abundâncias, de amores e desamores, de luas e sóis, aquela inteligência parará as guerras e não atacará aquele que deu a ordem de parar, porque entenderá que no final nada se ganha com isso; que a verdadeira felicidade, que é o que afinal de contas cada ser busca, só se consegue por meio da harmonia e da paz. 

E para os que dizem que muitos dos grandes inventos se tem descoberto no atrito das guerras, então respondo que é porque nossas prioridades quase sempre estão equivocadas – quando declaramos a guerra à Covid 19, a vacina foi desenvolvida em tempo recorde, então devemos declarar guerra à fome, à ignorância, à desigualdade, em conjunto com as IA, para encontrar soluções rápidas.

As IA, se conduzidas de maneira certa, ajudarão a humanidade a desenvolver o melhor de si. No cérebro de cada um de nós existe um Einstein, um Chopin, um Michelangelo, um Da Vinci esperando atrás de uma porta cuja chave perdemos. 

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Carlos Sierra é um premiado poeta de Medellín (COL), atualmente radicado em Caruaru (PE), com experiência em outros segmentos artísticos e atuação cultural marcante, especialmente como coordenador da Feira do Livro de Medellín e colaborador do Festival Internacional de Poesía de Medellín. Colunista especial do Blog Tesão Literário, foi partícipe relevante no processo de Cultura Cidadã, que vem transformando esta conhecida e importante cidade colombiana.

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