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Literatura

Centelha

Por: SIDNEY NICÉAS
 Georgia Alves traz ao Tesão um texto sobre o a vida de Ítalo Calvino, célebre escritor italiano, no ano de seu centenário.

Foto: Reprodução/ shifter.pt

30/08/2023
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*por Geórgia Alves

Ítalo Calvino nasceu de um casamento que só de olhar inspira a acreditar que o amor, como insistiu Ovídio (43 a.C. a 17 d. C.), antes e depois de Cristo, é mesmo investido de poderes extraordinários. De uma maneira, ou de outra, será sempre uma invocação de talentos, habilidades, sensibilidades, delicadezas extremas e raras. Muito raras mesmo no mundo de hoje, tão povoado e regido por algoritmos múltiplos. A expressão “guta cavat lapidem” (a gota acaba por furar a pedra) foi legada de uma Roma ainda no ano oito, onde Públio Ovído Nasão foi exilado, mas traduz e se encaixa como uma luva na obra deste descendente de italianos que foram morar em Cuba, onde os filhos nasceram, posso afirmar que esta é geografia de nascença do escritor, e por pouco tempo cresceram, logo depois Mário Calvino, botânico e agrônomo laureado em Ciências Agrárias pela Universidade de Pisa, e nascido em San Remo, e Eva Mameli, professora universitária, também formada em Botânica, voltariam com a prole para a Itália. Calvino que já nasceu em tempos de ditadura, só poderia retornar ao “radicamento provincial”, após o fim da guerra, passando período em Milão e Turim. Dado à habilidade de escrever “como quem cavalga”, (“raconto como mezzo di transporto), definia o conto como um meio de transporte, neste caso, um cavalo. Escrever, dizia em suas propostas para o novo milêncio, é contar com a maior precisão possível o aspecto sensível das coisas (“render conto com la maggior precisione possiblile dell’aspetto sensibile ele cose”). Estabelecido como o escritor mais sensível, que nos legou a escrita mais robusta das mais frágeis estruturas literárias situadas entre o fantástico e o maravilhosos, entregues enquanto narrativas permeadas pela natureza imanente da palavra às coisas da vida, termina por exilar-se em Paris, casado, entre o amor de uma mulher de descendência nascida em Buenos Ayres, a extraordinária Chichita Calvino, tradutora de origem argentina, que trabalhou para organismos internacionais, conheceu Calvino em 1962 e que infelizmente faleceu em junho de 2018. Ester Judith Singer. Da paixão narrada como arrebatodora, pelo próprio Calvino, em memória, se transformaria na convivência que duraria até seu último dia, em 19 de setembro de 1985, data que jamais esqueço porque acabava de concluir meu ciclo de adolescência e fatídica condição de debutante. Já havia lido “O visconde cortado ao meio” e sido pega por sua escrita. Para conhecer, logo ao cruzar a linha da maior idade, “O barão nas árvores”. Tiveram uma filha, Giovanna, e a convivência ainda legou o enteado do primeiro casamento de Ester. Depois de abraçar a Literatura como ofício, escreveu “A trilha dos Ninhos de Aranha”, em 1947. Levo Calvino em meus ossos. Estarei diante de tudo que aprendi com sua literatura, em minha sepultura. Nada mais justo. Quando nasci, experimentava sopros de outro mundo. Mundo modificado por sua Literatura e já traduzido no Brasil, lugar gerado por ele, com o espraiamento de “As cidades invisíveis” (1972). 

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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