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Cultura

Cepe Editora lança a tetralogia poética de Marcus Accioly

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor e jornalista Ney Anderson, do Angústia Criadora, retorna ao Tesão com um texto e entrevista a respeito da reedição de quatro dos livros do pernambucano Marcus Accioly, pela Cepe Editora.

Foto: Reprodução/Angustiacriadora.com

14/07/2023
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*Por Ney Anderson

Um dos principais nomes da poesia contemporânea, com obra traduzida para o espanhol, francês e alemão, admirado por nomes como João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Antônio Houaiss e Jorge Amado, o pernambucano Marcus Accioly (1943-2017) terá quatro de seus livros seminais – Sísifo, Íxion, Narciso e Érato – reeditados pela Cepe. As segundas edições chegam décadas depois de publicados e esgotados, marcando os 80 anos de nascimento do escritor. O lançamento acontece no dia 25 de maio, a partir das 19h, no Museu do Estado de Pernambuco (Mepe). O evento também abrirá espaço para um bate-papo sobre o legado do escritor, voz potente da Geração 65, reunindo a viúva do poeta, a arquiteta Glória Dalla Nora; o jornalista e presidente do Conselho Editorial da Cepe, Fábio Lucas e o doutor em Literatura e Cultura, professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Robson Teles.

Apesar de publicados em momentos distintos, Sísifo (1976), Íxion (1978), Narciso (1984) e Érato (1990) são considerados uma tetralogia. “O próprio Marcus já considerava em vida esses quatros livros como parte de um projeto maior, tendo como eixo o diálogo com a poesia clássica. São formalmente livros diferentes, mas que têm em comum esse fio condutor dentro de uma perspectiva de revisitação do mundo grego; sem saudosismos, mas sim uma atualização desse discurso. Uma reconfiguração daquela poesia clássica utilizando elementos pós-modernos tão presentes na poética de Marcus Accioly”, destaca o editor associado Wellington de Melo.

O projeto editorial da tetralogia, que contou com recursos do Funcultura e foi abraçado pela Cepe, partiu da iniciativa de Glória Dalla Nora. Guardiã da obra literária deixada pelo companheiro, ela tem concentrado esforços para reeditar títulos e publicar inéditos deixados pelo poeta. Wellington de Melo, então editor da Cepe, coordenou as edições, convidando o artista visual e ilustrador pernambucano Raoni Assis para assinar as capas.

Contemporaneidade – Na tetralogia, o poeta revisita os mitos tendo como horizonte o homem contemporâneo. Lançado há 47 anos, Sísifo (430 páginas) é um longo poema épico em dez cantos e quase 12 mil versos. É considerado um dos mais experimentais de Marcus Accioly. Situa a tragédia daquele que foi considerado o mais inteligente dos mortais que, por enganar e desafiar os deuses, foi condenado a rolar uma pedra montanha acima num eterno e improdutivo esforço. Simboliza a condição humana em suas tentativas de superação: presos a uma vida sem sentido, ainda assim tendo a liberdade de buscar um propósito em meio ao absurdo. Ao ler os originais, Carlos Drummond de Andrade assegurou ser a obra uma “fonte inesgotável de leitura, surpresa e admiração”.

Considerada pelo autor como “Mais que um poema dramático e menos que uma tragédia grega, (…) uma tragédia à grega”, Íxion (135 páginas) sintetiza a dualidade entre o bem e o mal na infindável batalha interna que marca a existência. Reelabora a lenda do rei dos Lápitas, um dos maiores vilões da mitologia grega que, apaixonado pela filha do rei Dioneu (Dina), mente e mata para atingir seus propósitos. Invadido pelo remorso, é acolhido pelos deuses, mas volta à condição abjeta ao tentar seduzir Hera, a mulher de Zeus , sendo condenado a girar eternamente no inferno, atado a uma roda de fogo. A obra de Accioly relata os sofrimentos de Íxion em momento posterior à sua morte e prisão. “É possível imaginar, para o avanço ou recuo dos anos, a vida anterior de Íxion porque já o vimos entre os mortais e entre os deuses. Agora (o que se torna mais fantástico e mais real) é imaginá-lo entre os demônios”, destaca o poeta em texto que integra o título.

“Dos três personagens – malditos e mitológicos sobre os quais escrevi -, este é o mais marginal”, disse certa vez o poeta sobre Narciso (304 páginas). É marginal porque convive com uma absoluta solidão, falando apenas consigo próprio. Vencedor do Prêmio de Poesia concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Artes, e do Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, Narciso se destaca como um “estranho realismo-lírico”. “Narciso é um ser completo, que se autodeseja e que se basta, logo, está longe de buscar um-outro: ele-procura-ele e se satisfaz”, escreve o poeta.

Na obra dedicada à musa Érato (128 páginas), a quem os gregos viam a fonte de inspiração da poesia lírica ou erótica, o poeta pernambucano traz “69 poemas eróticos e uma ode ao vinho”. Em uma das estrofes do poema 66, ele fala da tetralogia e define bem o que são a essência dos poemas de Érato: “Primeiro Sísifo / segundo Íxion / depois Narciso / e agora Érato / (ó musa) o abismo / é um sexo aberto”. Ao prefaciar a publicação, o professor, diplomata, filólogo, ensaísta e crítico literário Antônio Houaiss (1915-1999) lembra que Érato é a única obra da tetralogia baseada em um personagem feminino. “A beleza deste livro é que, sem façanhices nem arreganhos agressivos e pedantes, Marcus Accioly nos oferece o amor erótico na plenitude – sem medos e sem ofensas, como se eternamente jamais se tivesse revestido de falsos pudores ou de ostensivos rancores”, afirmou.

 

Entrevista

Glória Dalla Nora, viúva de Marcus Accioly, concedeu uma entrevista sobre a publicação da tetralogia e o legado do poeta.

 

Glória, para você o que representa a reedição dessas quatros obras de Marcus Accioly?

 

Eu entendo como o resgate de títulos de grande importância, livros premiados, que darão a oportunidade aos leitores que não tiveram acesso a eles, agora, de conhecerem a poesia de Marcus Accioly, possibilitando que se forme uma nova geração de, com certeza, novos admiradores do poeta. Acrescento a possibilidade de cumprir a missão de companheira do poeta Marcus Accioly, que assisti, acompanhei e sei do significado da literatura na vida dele, como confessou na entrevista-memória para o livro Perfis Acadêmicos da Academia Pernambucana de Letras, organizado pela então presidente escritora Fátima Quintas: “A literatura tem o valor da própria vida: tem coisa que nos escolhe na vida. É o que dizem dos cães: nós não os escolhemos. Eles nos escolhem. Mas poesia não é escolha, é destino”.

 

Marcus Accioly deixou uma vasta obra ainda inédita. Lançá-la à luz do conhecimento público é uma missão?

 

Sim, mais que uma missão, sinto que tenho a “obrigação”, porque sei o valor que tem a obra de Marcus Accioly. Como escreveu o poeta Carlos Nejar, em um artigo: “Seus livros, com alta invenção na épica contemporânea, o que foi dado a raros poetas na língua e literatura, como se criasse círculo de água na consciência geral, com imagens ricas e visceral musicalidade. Sobre ele, já escrevi na minha ‘História da Literatura Brasileira’ que Marcus Accioly revitalizou os mitos, reinventando-os numa imaginação portentosa. E não lhe faltava fôlego, fogo e cintilância. Mencionei e repito que sua morte foi ‘a queima de uma floresta’.”

Em seu depoimento para a entrevista-memória da APL, Marcus diz: “Talvez, por saber que Deus pode ser visto através de suas obras, é que o poeta – em uma imitação grosseira e arbitrária – também deseja ser visto através de sua obra”. E ainda nas palavras de Marcus: “Às vezes (diante de tantos livros publicados, esgotados e inéditos) sinto-me um poeta póstumo, pois cuidei muito mais de escrever do que de publicar. Mas reconheço que não fiz errado, pois escrevendo eu vivo: nasço e renasço das cinzas – como a Fênix – ou do fogo – feito a Salamandra. Virgílio dizia: “Semear é para os netos”. Posso parodiá-lo: “Publicar é para os netos”. Daí a minha responsabilidade, acompanhei nos últimos quinze anos da vida de Marcus a dedicação, o tempo/espaço da literatura que marcou a sua existência.

 

Você acredita que Marcus Accioly teve o reconhecimento merecido do público leitor e da crítica especializada?

 

Estou ciente da dificuldade que poetas e escritores enfrentam para publicar seus livros, mas tenho a convicção de que a obra de Marcus, em pouco tempo, será reconhecida no seu valor indiscutível. O poeta Carlos Nejar diz, de Marcus Accioly, no prefácio do Don Juan – Don Giovanni: “Por sinal, paira um gigantismo na poesia de Accioly, a força de reconhecer-se Terra, de ser um ‘Nordestinado’. Difícil é valorizar a genialidade de um contemporâneo, difícil é a constatação de uma grandeza que foge das regras do ‘saber fazer’. Marcus Accioly levantou voos certeiros, quando ainda entre nós. Se a inveja e certo despeito da mediocridade o cercaram, ou a volúpia da simplicidade do ser generoso e forte o encobriram, agora maior glória lhe preparam”. Que assim seja!

 

Sobre o autor:

Marcus Moraes Accioly nasceu em Aliança, município da Zona da Mata Norte pernambucana, em 21 de janeiro de 1943. Formado em Direito e pós-graduado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi vice-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) e professor de Teoria Literária e Literatura Brasileira na UFPE. Ocupou a cadeira de nº 19 da Academia Pernambucana de Letras, recebendo ao longo da carreira 12 prêmios literários, entre eles o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. Publicou 14 livros e cerca de 30 inéditos. Além da trilogia, a Cepe Editora tem em seu catálogo a obra Don Juan-Don Giovanni: Peça em dez jornadas (2018); Marcus Accioly foi ainda presidente do Conselho Estadual de Cultura e secretário-executivo do Ministério da Cultura (Governo Itamar Franco), na gestão de Antônio Houaiss. Faleceu em 21 de outubro de 2017, aos 74 anos, vítima de um infarto fulminante.

*Matéria publicada com informações da editora.

 

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Ney Anderson (Recife, 1984) é jornalista e escritor, editor do site Angústia Criadora. Autor do livro “O Espetáculo da Ausência”, publicado pela Editora Patuá.

www.angustiacriadora.com 

Twitter: @ney_anderson

www.facebook.com/neyandersoncavalcante 

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