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Opinião

Conexão RJ: País dos Esquecidos

Por: SIDNEY NICÉAS
Renato Sousa em flagrantes de um povo sem memória. Somos mesmo o país dos esquecidos?

Foto: Volodymyr Hryshchenko/Unsplash

03/05/2022
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*por Renato Sousa

O Brasil realmente é um país sem memória. Aqui todo mundo esquece de tudo, é inacreditável. Basta um dia e tudo cai no esquecimento e ai de você se lembrar de algo que todos não lembram, será tachado de chato, saudosista ou até comunista – dependendo de quem forem seus críticos. Eu, que tenho boa memória, sofro com este tipo de bullying. Às vezes prefiro ficar calado a lembrar de certas coisas que acabam surpreendendo as pessoas. 

Mesmo assim...

Numa conversa informal semana passada lembrei do João Saldanha, grande jornalista que também foi técnico de futebol e montou nossa seleção de 70, uma das maiores seleções do mundo do futebol. João, em certa ocasião, declarou: O presidente escala seu ministério e eu escalo meu time. Ele se referia ao Presidente da República, que dera um pitaco sobre a convocação da seleção brasileira naquele ano. Ninguém lembrava. Fiquei com cara de tacho! Esqueceram João Saldanha?

O papo fluía ainda sobre política na época dos militares quando alguém afirmou não lembrar de mais nada daqueles generais – eu me lembro! Um deles afirmou que preferia o cheiro do cavalo ao cheiro do povo. É verdade, eu juro! Ninguém da roda da conversa acreditou; disseram que eu estava fantasiando. Um outro general, quando ia ao maracanã, se achando o tal, acenava para a torcida e ganhava uma vaia estrondosa. Eu estava lá! Vi e ouvi com meus próprios olhos e ouvidos! Foi verdade! O povo vaiava alto. Só um completo imbecil tem saudade daqueles generais. Esqueceram disso também?

Outra vez eu estava no meu carro, ouvindo rádio, e havia um engarrafamento no Aterro do Flamengo, tudo parado. De repente a rádio deu um plantão de notícias sobre o trânsito no Rio de Janeiro e a repórter informou: “Há um engarrafamento em frente ao Monumento dos Pracinhas, no aterro do Flamengo, com cerca de 3 km de retenção. Tudo por conta de uma movimentação de soldados na frente do monumento em evento comemorativo à data de hoje (11 de junho). Eu não faço a menor ideia do que se comemora hoje, mas segue o alerta! Cuidado motoristas, evitem o aterro“. Ela esqueceu que em 11 de junho se comemora a vitória das forças brasileiras na batalha do Riachuelo, ocorrida em 1865, na fatídica Guerra do Paraguai. Seria apenas um caso isolado de uma jornalista que esqueceu um fato histórico? Ou uma característica de um povo que esquece a História do seu próprio País? 

Idiota fui eu quando lembrei que dona Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, morrera no terremoto que sacudiu o Haiti em 2010. Ela participava de uma missão humanitária que debatia a desnutrição em crianças. Ilustre médica, pediatra, dedicou sua vida à assistência aos mais carentes. Cuidava das famílias e suas necessidades. Provia o pão e o amor para todos. Uma mulher extraordinária que deveria ser estudada em todas as escolas do país! Quis o destino que ela morresse de forma tão trágica, mas nós não devemos tirá-la da memória. As pessoas me olharam surpresas, não lembravam da dona Zilda, nem do terremoto, nem onde fica o Haiti!  

Apelei imediatamente à memória da santa Irmã Dulce, outra magnífica mulher brasileira, baiana, professora, freira, que também dedicou toda sua existência aos pobres e necessitados. Irmã Dulce seria capaz sozinha de amparar todos os desabrigados dessas recentes tragédias ocorridas em solo nacional, por conta das chuvas. Ela era determinada! Lutava, resolvia. Valia mais que mil governos! Anos atrás ela enfrentou políticos e poderosos na Bahia para abrir seu próprio hospital. E conseguiu. Hoje, existe toda uma estrutura humanitária – Santuário Santa Dulce dos Pobres, localizada na capital baiana para atender aos mais necessitados. Ninguém lembrava da Irmã Dulce também. E teve gente que ainda me perguntou: Ela não era francesa? Santa Ignorância!!

Somos um país dos esquecidos! Que Deus nunca esqueça de nós!

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Prof. Renato Ferreira de Sousa é administrador, professor da Universidade Federal Fluminense, gestor de carreiras e mentor de talentos. 

https://www.instagram.com/profrenato.sousa/ 

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