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Opinião

Conexão RJ: Vibração Magnética

Por: SIDNEY NICÉAS
 O escritor e professor Renato Sousa retorna ao Tesão, dedicando seu novo texto às pessoas que ama
01/11/2023
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*por Renato Sousa

Minha vida sempre foi recheada de coisas estranhas. Minha tia dizia que era tudo coisa da minha cabeça, mas sinceramente, não sei não. Tinha eu uns 10 anos quando ouvia vozes na hora de dormir – meu irmão que dormia na parte de baixo do beliche – nada ouvia. Eu achava que era ele - ele jurava que nada falara. Depois de muito tempo girando na cama, para lá e para cá, duas ou três horas da manhã, conseguia adormecer, bastando para isso ouvir a santa voz da minha mãe: vai dormir, meu filho!  Dormia e sonhava muito! E eram sonhos tão reais, mas tão reais, que pareciam filmes de Hollywood. Sabe o que era mais estranho? No dia seguinte os sonhos continuavam do ponto em que pararam, como se fossem novelas da Globo. Essa coisa doida acontece comigo até hoje, só que atualmente, nem ligo mais. Rezo o pai nosso e no final quando digo – livrai-me de todo mal, incluí a frase - e me faça continuar o sonho de ontem! Assim poupo o trabalho do meu anjo da guarda que deve achar, nesta altura do campeonato, que devo estar fugindo desta realidade. Na verdade, não. Já me acostumei!

17 anos ou 18 anos, não me lembro bem, vinha uma vibe de adivinhar os pensamentos das pessoas. Era algo mais ou menos assim – eu olhava para a cara do sujeito ou da sujeita e o pensamento emanado por eles vinha à minha cabeça. Eu desviava o olhar na tentativa de não ficar adivinhando, mas aquilo era algo maior que eu. Eu ouvia nitidamente sentindo a energia do pensamento a mim remetido. Se fosse algo ruim, percebia logo, aquela sensação pesada, péssima; se fosse algo bom, sentia uma leveza, uma brisa fresca como os ventos que vêm do mar. Sem muita comprovação científica notava minha capacidade de captar o magnetismo das pessoas mesclando com as coisas da natureza. Tudo com muita naturalidade. Ficava um pouco embaralhado, sim, mas medo, confesso, nunca senti. Sempre tive uma fé maior que todas aquelas loucuras. Minha mãe havia me ensinado a ter plena confiança em mim.

A roda girou, fui técnico de indústria têxtil, diretor de futebol, promotor de eventos, funcionário de banco público e acabei professor. Sempre gostei de ensinar – desde muito moço. Lembro que no segundo ano primário juntava meus coleguinhas e explicava matemática para eles. No ensino médio dei aulas de Química e Biologia e no vestibular quase montei um cursinho- os alunos sempre me procuravam para tirar dúvidas. Dar aulas é bom, é divertido e fácil, mas outra coisa estranha começou a me acontecer neste período. Certas pessoas – não posso descrever previamente como são e por que são – eram capazes de gerar uma vibração magnética, tal como ímã, algo tão forte, que arrastava meu pensamento como elos de uma grande corrente de aço imaginária. E não pense vocês que é coisa banal- atração, sexo, namoro- nada disso. É algo muito maior, não sei nem como descrevê-la com precisão. É como, ler um livro de Clarice Lispector, imaginando que a causa de tudo pouco importa ou é apenas um passado de portas fechadas para o futuro. Algo mais ou menos assim traduzindo o que senti na lente da nossa eterna escritora, autora de Água Viva. 

Não tenho como comprovar, apenas usando palavras, mas esta vibração é tão forte que às vezes ouço pessoas no meu ouvido, conversando naturalmente como se fosse a coisa mais normal do mundo. São raras, são poucas, mas essas pessoas penetram no meu interior, circulam nas minhas veias latinas e abertas - banham meu coração. Num piscar de olhos esta química me paralisa - até consigo prender a respiração - mas não há o que fazer. Aquela vibração magnética invade minha alma como uma enorme enchente inesperada de um rio adormecido. Fico preso na teia - se debater, será pior. As pessoas conversam comigo sem proferirem uma só palavra. Os olhos telepaticamente perguntam, respondo sem necessidade da fala. Vejo mãos molhadas de praia se encaixando perfeitamente nos jogos de lego que eu costumava comprar para meus filhos quando eles eram crianças. Perco a noção do espaço tempo presente/passado/futuro. Volto ao meu beliche de infância envolvido num imenso lençol de casal totalmente branco carinhosamente arrumado pela minha mãe. As imagens não são nítidas, pelo contrário, são embaçadas - meus olhos não veem direito, mas aos poucos me restabeleço. No entanto, tenho certeza de que em alguns momentos do meu dia (não é proposital) essa forte vibração, qual zumbi, retornará! Sentirei se as pessoas estão bem ou se não estão – tudo muito rápido! Talvez alguém que esteja lendo esta crônica possa já ter passado por isto – se passou e souber o nome científico – avise-me! Não creio que seja intuição tanto que as vezes sou obrigado a fechar meus olhos para não ver cenas cotidianas banais do dia a dia daquelas pessoas - neste grande mosaico imaterial do pensamento. Se quisesse e me esforçasse veria tudo. Tudinho mesmo.   Que estranho poder isso pode representar? Não sei, sei lá! Só sei que nada sei - como diria o filósofo Sócrates. Se você souber, me conta....

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Prof. Renato Ferreira de Sousa é administrador, gestor de carreiras, mentor de talentos e universitário. 

https://www.instagram.com/profrenato.sousa/ 

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