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Opinião

Conexão SP: Ano seminovo, único dono

Por: SIDNEY NICÉAS
O dramaturgo e roteirista Mário Viana compartilha no Tesão seu primeiro texto de 2024 .

Foto: Kelly Sikkema/Unsplash

08/01/2024
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*Por Mário Viana

Todo mundo já viveu esta cena. As pessoas se dão as mãos ou erguem os copos de cerveja e cantam o mais alto que podem: “Adeus, ano velho, feliz ano novo, / que tudo se realize no ano que vai nascer. / Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. A canção Fim de Ano, de David Nasser e Francisco Alves, de 1951, tem mais uma estrofe, mas quem é que lembra na hora do brinde?

Pois recentemente, nos últimos dias de 2023, enrolando pra sair da cama, me peguei sentindo falta de alguma coisa nessa letra. Dinheiro no bolso, ok. Saúde pra dar e vender soa como prenúncio dos planos de saúde, mas ok. E o resto? Cadê o amor, seu David Nasser? A harmonia entre os homens? A paz universal?

O Google me ajudou a encontrar a estrofe final. “Para os solteiros, sorte no amor, nenhuma esperança perdida/ Para os casados, nenhuma briga, paz e sossego na vida”. Aqui entravam o amor e a paz, feito Pilatos no Credo, ou seja, só pra dar algum ritmo e fazer volume. São tão de segunda categoria que quase ninguém lembra. Se lembrar e puxar o canto, vai acabar sozinho no karaokê.

Reflitamos: é como se, depois de pedir dinheiro e saúde, o compositor jogasse a toalha e entregasse a rapadura. “Nenhuma esperança perdida”, para os solteiros, significa que a alma desgarrada vai desencalhar. E os casados, que se deem por satisfeitos se não houver nenhuma briga no caminho. O amor, oras, é coisa de solteiros. A paz é para os conformados.

 

Tudo bem, a primeira parte continua valendo, dinheiro e saúde combinam com tudo, ninguém é doido de recusar. Mas fazer do casamento a última esperança de um ser vivente… E essa coisa de paz e sossego na vida dos casados, realmente, envelheceu. Atualmente, ama-se, casa-se e separa-se na mesma velocidade do Tik Tok. Mal dá tempo de ensaiar a dancinha. E sem maiores dramas.

No máximo, a pessoa torce pra ser, pelo menos, corneada em público porque aí ganha a chance de ir na Ana Maria Braga, fazer um chororô sertanejo e viralizar. Fim de romance só vale a pena se monetizar legal. “Monetizar” é o que vovó chamava de “passar nos cobres”, render um faz-me rir no fim do mês.

Compositor de sucessos, Nasser (1917-1980) emendou uma carreira de jornalista prestigiado na revista O Cruzeiro, a mais famosa publicação brasileira na primeira metade do século 20. Entre 1943 e 1951, Nasser formou uma parceria com o fotógrafo francês Jean Manzon e perpetrou verdadeiras louvações ufanistas ao Brasil. Terminou seus dias em 1980 como porta-voz da Scuderie Le Coq, nome de fachada do Esquadrão da Morte.

A carreira de compositor também foi permeada de versos ufanistas, como Canta Brasil, que João Gilberto e Gal Costa salvaram do esquecimento com ótimas versões. Fim de Ano entrou para a lista das músicas que todo mundo conhece, não importa a idade. Mas Nega do Cabelo Duro, lançada em 1942 e depois gravada com muito dengo por Elis Regina nos anos 1960, tornou-se uma versão cantada do racismo estrutural e dançou no cancelamento.

Pessoalmente, acho que o letrista David Nasser marcou um ponto forte em 1952, com a marchinha Confete, uma das últimas gravações de Francisco Alves, então um ídolo dos tempos do rádio. “Confete, pedacinho colorido de saudade” é um verso muito bonito. E a estrofe termina com “Confete, confesso que chorei”. A sonoridade desse verso é genial.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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