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Opinião

Conexão SP: Bem-vindo a Islamabade

Por: SIDNEY NICÉAS
Retornando com as segundas de Vianices, Mário Viana compartilha um texto ácido e provocativo, sobre viagens e sobre a cidade de Islamabade, no Paquistão.

Foto: Qasim Nagori/Unsplash

16/10/2023
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Nunca estive no Paquistão. Pelo andar da carruagem, são mínimas minhas chances de caminhar pelas ruas caóticas de Islamabade, a capital. Quer dizer, acho que são caóticas. Mas quando a palavra aparece no mapa de bordo de um avião que sobrevoa aquele pedaço do planeta algo mágico acontece. 

Me apaixonei por aquelas cinco sílabas sonoras, abertas, claras. A cidade que o nome anuncia vive um eterno sol. Não anoitece em Islamabade. Nem chove. No máximo, um orvalho noturno para limpar o ar. Instrumentos de sopro e tambores soam o tempo inteiro, enquanto cantos religiosos convocam para as orações nas mesquitas e jovens galantes sobrevoam as praças em coloridos tapetes mágicos.

Os becos de Islamabade, da minha Islamabade,  cheiram a especiarias – outra palavra linda que herdamos das caravelas. Poderia ser apenas tempero, mas tempero batiza coisa útil. Especiaria é outro papo. Desperta sentidos, recupera memórias, atiça prazeres. Pode-se viver sem especiarias, mas deve ser muito chato. Tanto é que os navegadores lusitanos usaram as especiarias como desculpa para se jogar nos sete mil mares. Ninguém arriscaria o pescoço por uma pitada de pimenta-do-reino – mas faria loucuras por uma noz-moscada tirada do pé.

Depois de me encantar pelo nome da cidade, agi como um conquistador teimoso e dei uma busca nas informações sobre Islamabade, o objeto dos meus desejos – a gente pensa muita besteira em voos longos e o trecho São Paulo-Doha dura 15 horas. A certa altura, ou você se apaixona pelo nome de uma cidade ou começa a maratonar filmes de Bangladesh sem legenda.

Graças ao Google, descobri que Islamabade e eu somos quase contemporâneos. Oficialmente, ela existe desde 1963, tendo sido planejada para ser a capital do Paquistão, substituindo Karachi. É a Brasília do Punjab, com prédios bastante espalhados entre parques e mesquitas. Tudo – os parques e as mesquitas – foi construído pelo homem. Os verões são bem quentes e os invernos, frios – ou eram, até a última mudança climática. O esporte popular na capital do Paquistão é o críquete, herdado dos colonizadores ingleses.

Aos poucos, o avião avança na direção de Doha, deixando o Paquistão e seus mistérios para trás. Vão aparecer outras palavras bastante saborosas – Damasco, Beirute, Jerusalém… É tão triste constatar que as guerras espatifaram nossos devaneios.

As Sherazades e os Simbads de hoje correm assustados, à procura de um buraco onde se proteger dos bombardeios. O gênio dos três desejos colocou a lâmpada no Airbnb e agora trabalha em mercados de artesanato típico vendendo muambas made in China. As mil-e-uma noites trocaram as brumas do mistério por lâmpadas dicróicas.

Mesmo assim, viajar continua sendo um dos maiores prazeres que podemos nos oferecer. O que importa, no fim das contas, é sair da rotina, concretizar alguns sonhos e dar início a outros. O pé na realidade não basta.

 

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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