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Conexão SP: Devendo estrelas

Por: SIDNEY NICÉAS
Mais uma segunda de “Vianices”, e o dramaturgo e escritor Mário Viana compartilha uma crônica que fala sobre seus cuidados com a saúde.

Foto: Noah/Unsplash

27/11/2023
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*Por Mário Viana

Agora é assim: qualquer tossezinha, uma leve dor de cabeça – e pronto! A gente já lembra dos amigos e conhecidos que pegaram Covid recentemente e se sente com passagem comprada pro mesmo bonde. Não, colegas. Vários casos da doença foram registrados, é verdade, mas tosse e dor no corpo podem ser sintomas daquilo que vovó chamava de friagem.

Numa cidade onde a temperatura sobe ou desce 12 graus em questão de minutos, haja saúde pra manter o corpo funcionando sem ratear o motor. O coitado do organismo não entende: como é que é agora parou de suar? A criatura estava dormindo pelada e acordou querendo cachecol de lã tricotado pela tia? Por via das dúvidas, um teste de farmácia elimina a dúvida – se der negativo, claro.

Verdade seja dita, após saber de casos envolvendo pessoas próximas, reativei meus cuidados. Resgatei a caixa de máscaras do fundo da gaveta e resolvi só andar de transporte público devidamente protegido. O que é uma simples máscara para quem passou o ano de 2020 dando banho em lata de ervilha, não é mesmo?

Sou gato escaldado em questões covídicas. Mais escaldado que gato, esclarece a auto-crítica. Depois de contar sete mortos na família e ser, eu mesmo, convidado a fazer o oitavo passageiro nesta nave macabra – como podem notar, recusei -, me dou ao direito de não querer chegar nem perto do coronavírus.

Por isso, entrei em casa bastante alterado na noite de sexta-feira. Tinha ido ao teatro, proseado com um amigo e voltado pra casa de Uber. Tudo começou neste Uber. Até então, a peça chatinha e a cerveja pouca não alteraram meu humor. Mas ser conduzido por um motorista negacionista pela noite fria de São Paulo foi assustador. Era como se eu tivesse embarcado na carruagem da indesejada das gentes.

Num trajeto de 13 longos minutos, o sujeito falou de seu apreço pelas putas, com quem mantivera contatos permanentes mesmo no auge da pandemia. “Não conheço nenhuma puta que morreu de Covid”, disse ele quase batendo no peito. E mais: ele conhecia muitos médicos (“gente séria, de idade”) que juravam de pés juntos que a Covid era mentira, que o pessoal dos hospitais era obrigado a tascar covid no atestado de óbito, etc etc.

Eram argumentos que já deviam ter sido soterrados pela avalanche da realidade. Resolvi que não podia ouvir aquilo sem dizer nada e já expus minha minibio pro cara. Reconheço que ele diminuiu o tom de pregação bolsonarista – mas ainda apelou pra cloroquina e pra ivermectina! Juro! Vacina, ele tomou porque a Uber obrigou. Por sorte, nessa altura eu estava quase na porta do prédio. Saí sem dizer nada. Se dissesse, ia dar problema, eu me conheço.

Apesar de ser tarde, quase uma da manhã, fiquei sentado na sala, olhando o silêncio. As mãos tremiam quando eu mandava um post avisando ao meu amigo que já estava em casa, são e salvo. Era mentira, eu estava assustado. Essa parte dramática eu não disse, mas senti. Demorei pra pegar no sono, mas pelo menos não tive pesadelos.

Vou ter de me acostumar com estes sustos. Os malucos antivax não viraram fumaça quando o candidato deles perdeu as eleições (alguns até foram botar pra quebrar em Brasília). Mas ver de perto, no mesmo carro… Pensei em denunciar o motorista – sob qual argumento? Negacionista? Ele mal olhou pra minha cara, não tossiu, nada. Só emitiu sua opinião. Mas  guardei o nome: Leo, num carro da categoria Confort. Confort! Só pode ser uma péssima piada.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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