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Opinião

Conexão SP: Férias na moita

Por: SIDNEY NICÉAS
De volta ao Tesão, o dramaturgo Mário Viana compartilha mais uma de suas crônicas, dessa vez falando um pouco de suas férias.

Foto: Jeremy Bishop/Unsplash

02/10/2023
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*Por Mário Viana

Eu poderia dizer que planejei tudo meticulosamente, com requintes de tarado, mas seria mentira. Em setembro, tirei duas semanas de férias – 17 dias, pra ser mais preciso – e decidi que chegara a hora de realizar um sonho antigo: conhecer as pirâmides do Egito e as espantosas fachadas de Petra, na Jordânia. Realizei o sonho praticamente sem dar um pio.

Na metade da viagem, saracoteando pra lá e pra cá, me dei conta: não postei uma linha ou foto sequer em nenhuma rede social. Foi uma peregrinação no mais puro estilo do tempo das diligências. O “mundo” não acompanhou nada. Dos tantos passeios e descobertas, com direito a fotos e curiosidades, só os mais próximos e queridos é que sabiam. Pra que mais?

Sem programar, quebrei a rotina do exibicionismo a que somos arrastados pelos Faces, Instas, Xs e o que mais houver. A regra atual é contar tudo para todos. Não há limites nem para o que se conta nem para quem se conta. Detalhes constrangedores da própria intimidade são expostos para um número infinito de pessoas. Quanto mais seguidores, melhor. O bocudo fecha contratos, arruma empregos e se torna influencer, graças à língua solta.

Não sei se acontece com vocês, mas comigo é batata: tem uma hora que tanta saliência cansa. Já que você abriu a porteira, todo mundo se acha no direito de dar pitaco na sua vida – e logo aparece um que discorda, o segundo retruca, o primeiro se ofende e um terceiro ainda diz que a culpa é de quem expôs a intimidade para, quem sabe, provocar invejinha na ralé-que-matou-Cristo.

 

Inveja, aliás, deveria ser um bom motivo pra evitar tanto holofote. Minha querida amiga Renata Correa até aconselhou (“Tapa o umbigo!”), mas eu não fazia ideia de como comprar esparadrapo no Cairo. Mais fácil ficar na moita e não atrair olho gordo. Pausa para reflexão politicamente correta: evitar olho gordo pode ser considerado gordofobia? Volto ao tema do dia.

Explanar suas férias pra geral pode causar dores fundas nos cotovelos alheios (o que é divertido), mas não evita que você precise contar a viagem toda em detalhes várias vezes. “Aquele lugar era daquele jeito mesmo que você mostrou na foto?” é uma pergunta comum. As pessoas acham que você levou uma maleta de efeitos especiais na bagagem e transformou qualquer montinho de areia nas dunas do Saara.

Perdida a discrição, você ainda se arrisca a colecionar pedidos inusitados de compras. Já que você está lá fora… Já que você vai passar no free-shop… e lá vem pedido. Pedinte profissional nunca se acanha em aumentar sua lista de compras: uísque, queijo, chocolate, temperos exóticos, perfumes – cabe a você dizer não, não vai dar, sinto muito, etc.

Pode não ser simpático, mas é melhor que manter a promessa no ar. Trazer o que pediram não sacia a fome do pedinte – pelo contrário, as listas só aumentam em quantidade e complexidade. Já soube de gente que aterrissou em Paris sem falar francês, mas com a missão de encontrar um tipo específico de anzol. Eu mesmo ouvi de uma amiga o pedido para trazer um DIU de Miami. Como eu falo DIU em inglês? Ela também não sabia. E antes que ela tivesse a ideia, já me antecipei: “Nem adianta, eu não vou fazer mímica!”

 

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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