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Opinião

Conexão SP: Ignore o passarinho

Por: SIDNEY NICÉAS
O Dramaturgo Mário Viana traz mais uma de suas “Vianices” no Tesão.

Foto: Jacob Morch/Unsplash

15/01/2024
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*Por Mário Viana

Festa boa não deixa ressaca. Você acorda meio zonzo, ok, mas está em sua cama, as roupas estão onde deveriam estar e não há dor em nenhuma parte do corpo, mesmo as teoricamente indevassáveis. E olha que a turma bebeu, hein? Com certeza, algum alambique escapou da falência esta noite. Mas aí você escuta o plim do whatsapp. Danou-se. Enviaram uma foto do evento. Fim das ilusões.

A foto não tem nada de mais. Nada! Pode ser mostrada pra sua avó velhinha. Mas você, somente você, sabe o que a imagem representa. Na foto, sua figura conversa animada com uma pessoa por quem, digamos de maneira respeitosa, seus hormônios curtidos no álcool alimentam certo interesse de cunho sexual. Quando a tal pessoa chegou, aliás, você já tinha bebido o suficiente para abrir os braços e saudá-la com entusiasmo dois graus além.

Foi correspondido, é bom que se diga. A pessoa sentou-se perto, conversa vai, conversa bem, ficaram só na conversa – mas naquele astral mútuo de “na próxima você não escapa”. O diabo foi que alguém fotografou – e mandou a foto! Isso deveria ser proibido por lei. Porque tem coisa que a foto não captura.

Lentes fotográficas não olham a pessoa desejada com a mesma malícia que um olhar míope. Aliás, a máquina não passa pano nem pra você mesmo. E dá-lhe o susto com as três papadas e a barriga do tio Serapião no lugar do seu corpo. Mas o foco agora é a outra figura – que, por sinal, deve ter recebido a mesma foto e tirado suas conclusões.

É incrível que você tenha passado mais de metade da festa dando trela praquele… aquela… Melhor ficarmos nas reticências. Qualquer adjetivo que vem à cabeça é passível de cancelamento. Resumindo: por melhor que seja a bebida, ela pode causar sérias ilusões de ótica em você e na outra pessoa. É o inverso das fábulas: você beija o príncipe (ou a princesa) e acorda com o sapo. E de ressaca.

A culpa não é só do álcool. A parceria céu-sol-mar também é perigosíssima ao criar miragens estéticas. Lembro de uma vez em que estava em Salvador com minha amiga Moema Kuyumjian e passou por nós uma baiana linda, contida num biquíni quase inexistente, espirrando água do mar por todos os lados. Ninguém reclamou, a beleza tem seus privilégios. Ao que Moema filosofou: “Essa belezura toda não passa pra lente. O dendê não vai junto com a foto”.

Claro que a conversa não foi exatamente assim, mas o sentido era esse. Tinha muitos detalhes que não vêm ao caso – falávamos de rolos de filme, pra vocês terem uma ideia da antiguidade da cena. A história apenas comprova minha tese: se estiver de olho em alguém, não fotografe. Retenha na memória o perfume, o som da risada, o discreto toque das mãos, o olhar oblíquo. Nada disso é fisgado pelas lentes. Faça um bem pra sua ilusão. De notícia ruim, basta o Jornal Nacional.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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