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Opinião

Conexão SP: Minha vida no crime

Por: SIDNEY NICÉAS
Mário Viana confessa, em sua mais nova crônica, sobre seus tempos de Portugal, e seus atos ilegais.

Foto: Basil James/Unsplash

29/01/2024
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*Por Mário Viana

Crianças, acreditem. O pterodáctilo que lhes fala agora, com ar convencional de escrivão de cartório, já chafurdou no pântano das ilegalidades. Esqueçam o jeitão de sábio da montanha: o autor dessas linhas foi o terror das velas das igrejas de Lisboa! Foi também o Monstro do Papel Higiênico do Bairro Alto e do Chiado, rincões tradicionais da capital portuguesa. A polícia nunca soube, as vítimas talvez nem tenham se dado conta do desfalque. Mas que houve um passado criminoso, isso houve.

Foram meus únicos delitos, até onde me refresca a memória. A carreira de gatuno, punguista ou ratoneiro (chame como quiser) exigia mais habilidade manual e sangue frio do que eu tinha pra mostrar. Minha cara de “sim, estou roubando”, quando tentava afanar alguma coisa que não me pertencesse, era um letreiro de néon para qualquer segurança de meia tigela.

Numa ocasião, tentei sair da Livraria Saraiva que havia na Rua São Bento carregando um livro surrupiado. Fui parado na porta por um guardinha, que me deu um sermão vexatório e me botou pra correr. A rede de lojas faliu (não por minha culpa, é bom que se diga), a São Bento virou uma rua muito esquisita, mas até hoje, nas raras vezes em que passo por lá, sinto um calor me avermelhando a cara.

Os furtos em Portugal foram obra da necessidade. Mochileiros sem lastro familiar que nos bancasse, Wanderley e eu desembarcamos em Lisboa dispostos a custear a estadia com nosso trabalho. Foi um dos raríssimos momentos da minha vida em que me antecipei à história. No final de 1981, Portugal estava numa pindaíba de dar pena e até pra concorrer a uma vaga de lavador de pratos num restaurante (sim, eu tentei), as pessoas colocavam paletó e gravata. E levavam currículo.

O dinheiro que tínhamos levado – e que já não era aquela exuberância – começou a minguar. Deixamos a casa em que morávamos no Campo d’Ourique e nos mudamos para o Camping do Monsanto, nos arredores da cidade. Era tipo um Horto Florestal, muito bem equipado. A barraca (ou tenda, como se dizia) fora emprestada por um casal de angolanos, Paula e Tadeu, que conhecemos no restaurante universitário. Pra vocês verem como as pessoas eram malucas naqueles anos 1980, a barraca veio antes da amizade. Eu me apaixonei por aquele casal, de quem os anos me afastaram.

Voltando à barraca emprestada: ninguém que mora em camping está investindo na Bolsa. Tínhamos que economizar sempre. Para iluminar a tenda à noite , era preciso comprar velas. Para a limpeza íntima, era preciso comprar papel higiênico. Comprar era o verbo que nos causava calafrios. O caso do papel higiênico se resolvia com qualquer visita ao banheiro de um café lisboeta – na época, usava-se bolsas de couro que facilitavam o cambalacho.

Quanto às velas, a coisa exigiu desapego à religião. Numa visita à belíssima Basílica da Estrela – citada anos depois num romance de José Saramago – reparamos a imensa quantidade de velas acesas em honra de almas e promessas. Miramos umas duas mais taludinhas, acesas há pouco tempo e cuja fumaça ainda não chegara às divinais narinas – e nunca mais compramos uma vela. Só lembro de pensar, por ocasião do primeiro furto: “O santo há de entender minha necessidade, ó pá”.

Ficou por aí minha sanha criminosa. Gerado, criado e educado por gente honesta, rapidamente percebi que não iria muito longe como fora-da-lei. Aos 21 anos, isso dava um pouquinho de vergonha, mas após tantas décadas vividas, assumi que a honestidade é minha sina. Já fui flagrado até devolvendo uma conta ao garçom: “Esqueceram de cobrar o cafezinho”. Caso grave, como podem ver.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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