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Opinião

Conexão SP: O fio de lã

Por: SIDNEY NICÉAS
Mário Viana retorna ao Tesão com uma crônica sobre certos talentos manuais

Foto: Unsplash

22/01/2024
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*Por Mário Viana

Era uma mulher que já vira muita coisa na vida, mas ainda parecia nova nas filas preferenciais. Enquanto as pessoas entravam no vagão do metrô comentando a chuva que ameaçava mais um fim de tarde paulistano, a mulher contava os pontos feitos com uma agulha de crochê . Não dava pra saber o que sairia daquela atividade, mas a dona estava empenhada em fazer dar certo. Enquanto minha estação não chegava, me permiti observá-la. Através dos pontos que ela contava, vieram lembranças de antigos novelos.

Aquele crochê foi a minha madeleine. Abro aqui um parêntesis: até pouco tempo atrás, as pessoas usavam cheiros, sons e cores como chaves para lembranças de todos os tipos, boas e más. Os mais letrados diziam que eram suas madeleines, numa referência a um romance do francês Marcel Proust, publicado em 1913. Ao comer um biscoitinho amanteigado chamado madeleine, Swann desandava a lembrar do passado – e isso permitiu que Proust escrevesse os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido. Fim do parêntesis.

Os tempos são bem outros. Em vez de biscoitos amanteigados, as pessoas agora têm gatilhos. A palavra me incomoda por lembrar armas, tiros, violência. É tão mais doce cutucar lembranças com uma madeleine e provocar uma onda de nostalgia, muitas vezes de um passado que nem se viveu direito. Foi o meu caso com o crochê da mulher no metrô. O fio de lã que ela manuseava desenrolou minhas memórias.

Exceto minha mãe, que preferia bordar, as mulheres da família eram dadas às artes de entrelaçar fios. Tricô e crochê foram o jeito que minha tia Mira e sua filha, Cleonice, encontraram de engrossar o orçamento apertado. Era um tal de fazer enxoval de bebês, suéteres, cachecóis, que a gente sufocava. Quando eu tinha uns 12 anos, ganhei de minha tia um colete tricotado e cheio de detalhes. Odiei em silêncio. Nunca tive coragem de dizer isso pra coitada, mas também nunca usei o tal colete. Ela também fez pra mim uma touca de lã, que ficava entre uma coisa medieval e aquilo que hoje chamamos de ninja. A lã pinicava desesperadamente.

Tia Mira também pegava encomendas de tapetes arraiolo. Em algumas tardes de sábado, ela juntava a família (resumida ao marido e à filha), atravessava a cidade de ônibus e se instalava em nossa casa. Na bagagem, uma tela pesadíssima que se transformaria num lindo tapete. Era um ritual que, esse sim, eu curtia. Terminado o jantar, sentavam-se todos em círculo na sala e minha tia abria a tela. Cada um dos presentes – incluindo as crianças – recebia uma agulha e uma porção de lã para, pacientemente, completar os desenhos com pontos cruz duplos bem dados.

Por não ser um craque em artes manuais, eu me concentrava bastante e perdia muita coisa das fofocas familiares que rolavam horas a fio. Lembro só que, num desses sábados de arraiolo, chegou a notícia que o cantor Vicente Celestino morrera. Foi uma consternação. Meu pai era fã do Ébrio. Nisso, o Google pode me ajudar: no dia 23 de agosto de 1968, toda a comunidade dos Viana, Cândido, Lopes, Andrade e Araújo bordava uma tapeçaria enorme e bonita, enquanto meu pai cantarolava os versos de Porta Aberta, um dos maiores sucessos de Celestino. Aos 8 anos, eu achava impressionante uma porta que não fechava, porque eram os braços de Jesus. O bom de ser criança é que a gente acredita.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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