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Opinião

Conexão SP: O meu amigo secreto é…

Por: SIDNEY NICÉAS
Mário Viana chega pra mais uma segunda de “Vianices” no Tesão e compartilha conosco sua crônica sobre a proximidade do fina do ano, e um dos símbolos mais reconhecidos dele: o amigo secreto.

Foto: Unsplash

06/11/2023
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*Por Mário Viana

Primeiro, chegam os panetones. O pessoal ainda guarda colomba pascal no armário e os supermercados já esfregam em nossas caras todas as variações de panetones, chocotones, pistachitones, o diabo – inclusive um tal de panetone gourmet. Depois, aparecem os enfeites nas lojas. Os zeladores dos prédios começam a desembaraçar os fios de luzinhas que vão colorir as portarias. Quando menos se espera, o Natal está chegando.

É na leva de perus, pernis, rabanadas e arroz com passas que começa a temporada de amigo secreto (no Rio, é amigo oculto, mas o DNA é o mesmo). Qualquer pessoa que já tenha dado um presente bacana e recebido, em troca, uma porcaria inominável sente frio na espinha ao ouvir falar em amigo secreto. O curioso é que nós nunca conhecemos quem deu a porcaria. O segredo morre com a pessoa..

Para piorar, sempre aparece um espírito suíno querendo inovar o amigo secreto. Nasce o amigo secreto ladrão. Mesmo que você ganhe uma coisa legal, qualquer zé-ruela pode entrar na jogada e roubar o seu presente. Nem adianta reclamar, faz parte do jogo. É detestável, porque quem rouba pega o seu presente legal e deixa no lugar a porcaria que ganhou cinco minutos antes. Quem criou essa variação não tem Deus na alma.

Quem foge de amigo secreto entra em novembro já listando as possíveis desculpas pra não participar. No começo,  tenta-se ser gentil e inventa-se alguma fofura, do tipo “é aniversário da mãe da madrinha do meu vizinho”, mas os outros insistem. Eles sempre insistem até você aderir ao sincericídio e falar secamente “Eu detesto, odeio, abomino amigo secreto!”. O resto da firma vai te olhar torto por uns dias, mas dane-se.

 

Com o advento do amigo secreto, dezembro se torna o mês mais tenso para tomar um simples chopinho com um amigo, peguete, qualquer coisa que não envolva troca de presentes (fluidos, conforme o caso, pode). Se chegar cedo ao estabelecimento, aprenda a olhar o entorno com atenção. Mais de quatro mesas juntas e o alarme já dispara.

Amigo secreto em barzinho é o happy hour com malefícios. Em pouco tempo, aquilo estará cheio de colegas de trabalho dispostos a enfiar o pé na jaca. A regra é sempre falar alto, muito alto, cada vez mais alto, e propagar comentários infames como se fossem verdades científicas. Machos analfa capricham na filosofia depreciativa das mulheres. E sempre tem uma Soninha, a secretária contida que toma um chope e já recebe uma Tetê Espíndola de frente, de voz aguda e desejos irrefreáveis.

No comecinho da minha vida social, em meados do século passado, eu me divertia muito nos amigos secretos. Mas eu também gostava de Fanta uva e paletó com ombreira, ou seja, tudo na vida é uma passagem que nos conduz à evolução espiritual. Continuo gostando muito de eventos festivos entre pessoas legais, mas dispenso o joguinho do “meu amigo secreto é…”. Pra que gastar dinheiro com o Fonseca, da Contabilidade? Ele adora imitar o Galvão Bueno no banheiro! Melhor comprar uns vinhos, reunir alguns amigos e passar a noite rindo e falando mal do Fonseca.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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