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Opinião

Conexão SP: Oblíquos e dissimulados

Por: SIDNEY NICÉAS
“Vianices” em dose dupla! Dessa vez, falando sobre óculos e visão, dupla que andou junta para ele durante muito tempo, agora não mais.

Foto: Dainis Graveris/Unsplash

16/10/2023
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*Por Mário Viana

Operei os olhos e agora o mundo poderá ver nitidamente as minhas olheiras. Preciso dar um jeito nelas: pandas são fofos mas não têm sex-appeal. Aprenderemos, o mundo e eu, a conviver com minha versão sem óculos.

Pelo menos, essa é a intenção do oftalmologista que me operou. Até agora, terceiro dia da última cirurgia, ainda não experimentei as delícias da nitidez absoluta. É um processo, me explica o médico. O nervo ótico está se adaptando às novas diretrizes.

São estágios a superar. O halo que cerca as luzes, por exemplo, ainda complicam a experiência de assistir uma peça ou show. Vai tudo se acomodar, garante o doutor Ruy. As cores vão ficar mais vivas, como na velha canção do Gil (será que o Gil tinha operado as cataratas em 1989?) E, por fim, vou conseguir ler normalmente, o que seria o supra-sumo. Por enquanto estou esperando a hora de enxergar o mosquitinho na parede da sala.

Óculos e eu temos uma convivência antiga, iniciada no começo da adolescência. De 1975 pra cá, abracei todas as tendências da moda em armações. Quando comecei a trabalhar e ganhar  meu próprio dinheiro, virei freguês da Fiore & Miguel, uma ótica careira que ficava na Galeria Nova Barão, no centro de São Paulo . De lá saíam os óculos mais incríveis, que o dono – o Miguelzinho – sugeria depois de analisar o rosto e o estilo do freguês. Com ele, aprendi que óculos bacanas não roubam a atenção do seu rosto. Ajudam a compor.

 

Nunca tive conflitos com o fato de usar óculos. Como diria Herbert Vianna, eu não nasci de óculos, eu não era assim, mas se eles me ajudavam a encarar o mundo, que seja. No final dos anos 1980, rompi a relação e aderi às lentes de contato. Não foi uma experiência legal.

No começo, eu até gostei das lentes gelatinosas. Aos poucos fui percebendo que ir ao teatro estava ficando incômodo. Eu precisava forçar a vista e recolocar tudo no foco.  Mas continuei me dedicando às lentes, certo de que o tempo daria conta. Até que se deu a tragédia. Ou melhor, a tragicomédia.

Fui entrevistar a então cantora Sula Miranda. Não me perguntem o motivo, não lembro. Pra quem não liga o nome à pessoa e tem preguiça de ir ao Google, Sula era a irmã caçula da Gretchen. Era uma mulher bonita, muito simpática, que fazia o gênero sertaneja gostosona e, por isso, caiu na graça dos caminhoneiros. Era chamada de rainha dos irmãos da estrada.

O escritório da Sula ficava num sobradinho do Jardim Paulista, entre Pamplona e Nove de Julho. No salão principal, sofás confortáveis cercavam um tapete de pele de zebra – real. A conversa fluía agradável, até que eu perdi o foco, literalmente. O cenário ficou estranho. Entendi que minha lente direita tinha saltado do olho e se largado na imensidão do tapete de zebra.

Sula falava sem parar, eu fingia que anotava, buscando desesperadamente uma deixa pra fechar o bloquinho e sair de lá. Nem que a vaca tossisse – ou a zebra zurrasse – eu ia ficar de quatro no escritório da Sula Miranda procurando uma lente gelatinosa mocozada em listras alvinegras.

Acabou assim minha única experiência com lentes de contato. Voltei para os braços dos óculos, amante arrependido e envergonhado da pulada de cerca. Cedi agora, pressionado por idade, cataratas e outros problemas óticos. Capitu, grisalha e com labirintite em vez de ressaca, teria feito o mesmo. Mas dos óculos de sol eu não vou abrir mão.

 

P.S. A leitura sem óculos já começou a melhorar. Não é que isso funciona?

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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