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Opinião

Conexão SP: Outro samba do avião

Por: SIDNEY NICÉAS
O dramaturgo Mário Viana traz um texto sobre o Rio de Janeiro e sua dualidade.

Foto: Gabriel Rissi/Unsplash

14/08/2023
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*Por Mário Viana

Quando o avião decola do aeroporto Santos Dumont, no Rio, o Redentor de braços abertos sobre a Guanabara parece dizer “Volte sempre, a casa é sua”. É como se você colocasse pra tocar o samba de Tom Jobim e girasse o vinil ao contrário. Em vez de ouvir “Paul is dead”, você escuta alguém listando motivos que tornam a capital fluminense um lugar especial. Melhor não ter pressa, a lista é longa.

Começa pela paisagem: em dia de luz e festa do sol, surfistas a deslizar nas ondas azuis do mar, a beleza atinge o nível do escândalo.  O contraste do céu com a mata dos morros passa o cenário a limpo todos os dias e deixa a gente até sem fôlego. É beleza demais, não tem foto que dê conta.

No Rio, tem museus incríveis. O M.A.R. e suas exposições que repercutem o entorno da Pequena África. O Palácio do Catete, onde Getúlio Vargas se matou em 1954. As exposições no Centro Cultural Banco do Brasil, no centro histórico – atualmente, a atração é a mostra de Heitor dos Prazeres, um deslumbramento. E os muitos sebos dos arredores.

Tem ainda aquele monte de botecos sensacionais em todas as regiões da cidade. Do Pavão Azul e do Cervantes, em Copacabana, à churrascaria Dom Hélio, na Barra da Tijuca, passando por verdadeiros tesouros da Zona Norte, como os bares Madri e do Momo, na Tijuca, e o Pescados na Brasa, uma espécie de consulado paraense no bairro do Riachuelo. É de aplaudir.

Apesar de tantos atrativos gastro-etílicos, a melhor atração do Rio sempre será a cidade em si. Claro, ela é assolada pela violência urbana, pelo desfile sórdido dos nóias, por um trânsito infernal. Ainda assim, algo persiste no ar. Não sei se é a malemolência carioca, um dengo emprestado da Bahia, um sotaquezinho lusitano escondido nos SS chiados, mas, paulista juramentado que sou, acho tudo gostoso. Sou desses.

Eu estava tranquilão nessa croniquinha bossa-nova, quando a realidade chutou a porta de casa. Uma menina de 5 anos e um rapaz de 17 morreram baleados na Ilha do Governador, na zona norte do Rio. Ao que tudo indica, foram atingidos pela Polícia Militar, que trocava tiros com bandidos – no meio da rua, de dia. O rapaz voltava pra casa num moto-táxi e a menina, imprudente, brincava dentro de seu quarto. Nem na janela estava.

O Rio é assim. Seduz e apavora na mesma proporção. E o Redentor que parecia estar me dizendo “volte logo, já estamos com saudades” agora estende os braços como se pedisse ajuda. “Acudam!”. Ô seu Jesus, se o Senhor, que é filho do Homem, não sabe o que fazer, imagina nós, que ainda pagamos a conta do pecado original?

 

P.S. Termino minha temporada carioca, coroada por um trabalho exitoso. Deixo aqui o beijo mais carinhoso e o abraço mais apertado nos amigos que me acolheram, acarinharam, mimaram e me ajudaram a garimpar forças que nem eu sabia que tinha. Tenho. Não vou citar nomes, mas eles e elas (em suas mil variantes) sabem quem são.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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