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Opinião

Conexão SP: Pós-graduação em convivência

Por: SIDNEY NICÉAS
Segunda é dia de “Vianice” no Tesão, e o dramaturgo e escritor Mário Viana compartilha mais uma de suas crônicas bem humoradas..

Foto: Reprodução/correiodopovo.com.br

23/10/2023
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*Por Mário Viana

São cem minutos de uma aula magna, com direito a trilha sonora da melhor qualidade. Os professores se chamam dona Elis e seu Antonio Carlos. O bedel é seu César, que corta um dobrado pra equilibrar os humores. Embora dona Elis cante o fino e seu Antônio Carlos faça miséria com as notas musicais, a aula passa longe dos bemóis e sustenidos. É uma master class de convivência, disciplina que muita gente achou que não valia nota na vida. Surpresa: vale sim.

À primeira vista, Elis & Tom, Só Tinha de Ser com Você, o documentário dirigido por Roberto de Oliveira e em cartaz nos cinemas, registra etapas e percalços da gravação, em 1974, de um dos discos fundamentais da música brasileira. Para homenagear os dez anos de carreira de uma mais importantes cantoras surgidas depois da Bossa Nova, a gravadora Phillips resolveu juntar a voz privilegiada de Elis Regina aos acordes impecáveis de Tom Jobim. Pois não é que o encontro entre a melhor cantora e o maestro soberano quase foi ladeira abaixo?

Elis era insegura – sim, era. Roía as unhas e envesgava os olhos diante de um desafio. Tom tinha a arrogância simpática de quem sabia que era bom. Já havia dividido microfones com ninguém menos que Frank Sinatra, por que não gravaria umas cançonetas com aquela gaúcha de vozeirão totalmente anti-bossa nova e dada a performances cafonas? Em resumo, eles estavam longe de serem os melhores amigos. No máximo, conhecidos de festivais.

Cada um achava que o outro faria uma participação em seu disco. Sem essa de “&” na capa. Para espanto de Tom, o disco não apenas seria da dupla, como não seria arranjado por ele, mas por César Camargo Mariano, um zinho que adorava piano elétrico. E ainda tinha a baixinha com cheiro de chimarrão. O Vinícius gostava dela, mas de qual mulher o Vinícius não gostava?

Mesmo insegura, Elis estava acostumada ao tratamento dispensado às divas. E aquele dinossauro de 47 anos (ela estava com apenas 29) se achava grande coisa só porque acertara uns acordes com Garota de Ipanema…

O que nenhum dos três personagens esperava era que Elis fosse tão tinhosa. Acossada, fez o que sabia bem, levou a voz lá longe. A artista que os detratores chamavam de Eliscóptero, porque girava os braços quando cantava, transformou-se em uma intérprete que cavucava todos os cantinhos da alma com a voz. Elis & Tom, o álbum, reuniu o melhor da bossa nova, apresentado numa embalagem do mais puro luxo. É até hoje um biscoito finíssimo.

Você deve estar perguntando: a que horas começa a tal da master class? Desde o primeiro minuto do filme. Trancados num estúdio em Los Angeles, nossos astros chegaram armados até os dentes – e foram depositando tudo no chão a cada dia de trabalho. O olhar torto foi substituído pela admiração mútua. A desconfiança foi perdendo força e os olhinhos começaram a brilhar.

Entre cigarros e bebidas, Tom ensinou Elis letras pouco conhecidas de seu (dele) ídolo, Ary Barroso. E Elis pescou para si a linda Na Batucada da Vida, que passara meio em branco no repertório de Carmem Miranda e que abriria um de seus melhores álbuns meses mais tarde. A voz poderosa de Elis, que contrariava todos os dogmas da Bossa Nova, ganhou suavidade, discrição, sentimento. Basta ouvir Modinha, Chovendo na Roseira e Retrato em Branco e Preto, só pra citar três exemplos.

Nenhum dos dois deixou de ser quem era. Ele nunca desceu do pedestal (nem havia motivo para tanto) e ela morreu sem conquistar a medalha de mais simpática da turma. Mas cada um viu no encontro musical uma oportunidade de crescer. Eram gênios em constante transformação, prova inegável de quem é grande. Tudo bem que Elis até fez as malas pra voltar ao Brasil – mas não voltou. Eles aprenderam a se ver e mostraram que a evolução estava justamente no encontro e na convivência com o diferente. Quer lição melhor para os dias de hoje?

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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