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Opinião

Conexão SP: Retrogosto

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor e dramaturgo Mário Viana traz  mais uma de suas crônicas, falando sobre o sentimento do luto e o “seguir em frente”.

Foto: Nathan Dumlao/Unsplash

04/12/2023
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*Por Mário Viana

Faz pouco mais de um ano que você tomou a última taça de vinho. Era um tinto, provavelmente português, porque fui eu que escolhi. Você gostou. Era domingo. Comemos comida mineira, eu não queria cozinhar. Duas amigas, que almoçavam conosco, curtiram o cardápio e a bebida. Foi nosso último brinde e eu não lembro o nome do vinho!

Nessas horas, sinto inveja do Arnaldo, que consegue lembrar o nome de um rosé espanhol tomado num almoço em 2018 num restaurante em Pinheiros. Estou a anos-luz desse preciosismo. Ainda sou do tipo que escolhe vinho pelo nome da uva e pelo desenho do rótulo. Minha única garantia é que será sempre um tinto. De preferência, ibérico.

Aquele seu último vinho, qual teria sido? Não me leve a mal não ter retido a informação. Juro, não foi descaso. Tem gente que guarda tudo num arquivo mental secreto, o último tudo. Nunca fui desses. Não condeno quem seja, mas pessoalmente acho um tanto mórbido e paralisante. Na maioria das vezes, a gente nem sabe que está vivendo aquela cena pela última vez. As coisas se tornam as últimas sem aviso prévio.

Vivo atualmente o fim do primeiro ano de luto. Trata-se do que a médica paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes chama de “o mais período duro do luto”. Verdade. Tudo é primeiro nesse primeiro ano: o primeiro Natal, o primeiro Réveillon, o primeiro aniversário. A primeira viagem. A primeira cerveja de um verão escaldante. A primeira consciência de que agora é pra valer.

Na minha cabeça, logo depois de vencer a barreira desse primeiro sem-versário, estaria apto a voar. O passaporte foi carimbado, a vida prosseguiu e por um instante fugaz aquela pessoa nunca fez parte da história deste planeta. Sorte nossa que a vida real não obedece burocracias.

É preciso improvisar, sempre. Caminhar, levantar os olhos, tropeçar, escorregar, se apoiar nas paredes e ombros mais próximos, tocar o barco. Entender que a pessoa amada fez, sim, parte do mundo – do meu, do seu, do mundo em geral. O admirável é que a vida prossiga sem ela. E sem a gente. É essa a constatação que nos choca: a vida prossegue sem nós. Pra quem fica deve ser tão chato.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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