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Conexão SP: Zero! Nota Ze-ro!

Por: SIDNEY NICÉAS
Vianices no Tesão! Mário Viana compartilha um texto crítico sobre o racismo e o acontecido com Vilma Nascimento.

Foto: Reprodução/radioarquibancada.com.br

11/12/2023
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*Por Mário Viana

No dia 21 de novembro, a negra carioca Vilma Nascimento, de 85 anos, foi abordada pela segurança de uma loja no aeroporto de Brasília sob suspeita de furto. Sua bolsa foi esvaziada sobre o balcão, nada de ilegal foi encontrado. Restou a Vilma recolher suas coisas enquanto resmungava o desaforo sofrido. A segurança não pediu desculpas. Outro caso de racismo, desses que acontecem muito mais do que os olhos brancos conseguem enxergar.

Desta vez a cuíca roncou mais alto. A idosa submetida a uma revista vexatória tinha ido a Brasília receber uma homenagem na Câmara dos Deputados no Dia da Consciência Negra. Vilma Nascimento estava feliz, sorrindo como nos tempos em que desfilava no Carnaval carioca, carregando o manto azul e branco da Portela. No dia seguinte à homenagem, a porta-bandeira foi empurrada do salto.

Vamos combinar que a agente de segurança do aeroporto – provavelmente nascida depois que Vilma desfilou pela última vez, em 1979 – não tinha como saber que a idosa de roupa esporte escura e cabelos presos em coque foi um dos nomes mais famosos do carnaval brasileiro. Em vez de passar pano, isso só piora a situação da segurança. Ela teve um olhar racista independente de quem era a mulher “suspeita”. Se Vilma não fosse “a” Vilma, o ultraje seria o mesmo. Era uma velha, uma preta que estava num aeroporto construído para os ricos – e brancos. Destoava.

Vamos deixar de lado que Vilma, apelidada nos tempos gloriosos de “Cisne da Passarela”, chegou a ser citada num lindo samba de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, O Conde, de 1969, cantada numa versão espetacular por Jair Rodrigues. “Como é que eu posso por ela trocar / a emoção de ver Vilma dançar / com o seu estandarte na mão”, perguntava o samba. Sem o estandarte, ainda firme nos seus 85 anos, Vilma era apenas Vilma. Obviamente, uma suspeita.

O caso não ofendeu apenas Vilma e sua família. Ela até deu uma declaração pedindo desculpas por ter causado tanto alvoroço! Vilma pediu desculpas! O Cisne da Passarela, que durante anos hipnotizou as arquibancadas, ficou magoada, sim, mas pediu desculpas. As mesmas desculpas que a loja e seus feitores – digo, gerentes – só pediram semana passada, depois de demitir a segurança e jurar que isso nunca mais voltará a acontecer. A gente sabe.

O caso Vilma ofendeu e magoou qualquer cidadão que acredita com fé que o racismo está o tempo todo on e precisa ser sempre desligado. Tem de ser um super-herói incansável para desarmar todas as bombas armadas, algumas até em nossas frases bacaninhas de costume. Habitue-se: viver é um interminável aprendizado. Mas os choques da vida como ela é ainda espantam.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

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https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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