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Opinião

Conexão SP: Zona do desconforto

Por: SIDNEY NICÉAS
Mário Viana traz um texto sobre as mudanças e desafios de voltar para casa depois de seis meses em “outro mundo”.

Foto: R Spegel/Unsplash

21/08/2023
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*Por Mário Viana

Andei por andar, andei, e todo caminho deu nesse teclado. Depois de quase seis meses vivendo, trabalhando e aproveitando o Rio de Janeiro, desembarquei em São Paulo num dia nublado e frio. À minha espera, no aeroporto, duas amigas fiéis. Em teoria, a chave – que ficou o tempo todo em minha mochila, como uma mini-âncora – abriria pra mim a porta de casa. Mas abriu-se uma outra casa. O apartamento era o mesmo, as plantas estavam bem cuidadas, tudo parecia igual. O outro era eu.

É preciso ter um paralelepípedo na alma para viver meio ano em outra realidade, fazendo muitas coisas, e não se permitir mudanças. As ruas são outras, o clima é diferente, a paisagem diante dos olhos é sempre nova. Pessoas que você não conhecia trazem novas informações e exigem de você novos padrões de comportamento. E isso é ruim? Pelo contrário, é muito bom.

Aí, tem a volta – que é bem diferente de regressar das férias. Quando vive em outro lugar, você abandona o encantamento natural de todo turista – ok, de quase todo turista – e passa a saber o horário do ônibus, o nome do balconista do bar, o time do cara do supermercado, conhece até os mendigos da rua. Você se integra ao novo mundo. Se não fizer isso, garanto que a vida fica muito difícil.

Pode não parecer, mas o espírito que usa seu corpo para voltar pra casa não é o mesmo que saiu. Quando caminha pelos cômodos, você ao mesmo tempo reconhece e estranha tudo. Há panelas naquele armário, mas em qual porta mesmo? Os pratos, as xícaras, os mantimentos… Antes você podia se mexer na cozinha de olhos fechados e, agora, precisa forçar a memória. Não se assuste, a sensação passa rápido (se não passar, procure um médico).

 

É a mesma coisa na hora de ligar a TV. Qual dos controles eu uso? E como eu entro nos streamings? Era tão fácil! São mais alguns segundos de espanto, mas logo tudo se encaixa. Vale para a gente se tocar do quanto leva a vida no piloto automático. Sair da famigerada zona de conforto ajuda a deixar a mente mais esperta.

Quem nunca viveu em outra cidade, estado, país ou planeta pode achar que a experiência equivale à do filho ou filha que saiu da casa dos pais para morar em outro bairro. É bem diferente. Neste caso, você não está voltando para a sua casa, mas para a casa dos seus pais. Não é uma reconquista de espaço, mas uma visita social.

Aos poucos, uma nova rotina vai se formando nessa “volta do exílio”. Lembra um pouco a antiga, mas tem diferenças sutis. Trate de preencher a geladeira e reabastecer a despensa. Coloque a documentação em dia, o que inclui as contas – sempre aparece alguma que você simplesmente esqueceu de pagar seis meses atrás.

Agora, a principal tarefa é mesmo se reencontrar ali, naquele velho ambiente, e estabelecer novas regras. O tempo e a distância deixam claro que muita coisa mudou e é preciso saber viver. Não é que o Roberto Carlos tinha razão?

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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