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Literatura

Cubo de gelo

Por: SIDNEY NICÉAS
 O escritor e terapeuta Lúcio Pessôa vem ao Tesão com mais um de seus sensíveis e reflexivos textos.

Foto: Scott Rodgerson/Unsplash

10/11/2023
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*Por Lúcio Pessôa


não mexo nada. só o peito. quando respiro. só os olhos. quando espio. espio ela. ela ainda está lá. eu não falo. eu apenas penso. grito em pensamento. ela ainda está lá. pintando as unhas. com o telefone no ouvido. ela rir. gargalha. fala. fala alto. eu não. só respiro. e mexo o peito porque não posso parar. ela olha para mim. eu olho para o outro lado. deixo de espiar. ela grita. grita comigo. pergunta o que foi. eu permaneço sem espiar. mas grito também. grito alto. em pensamento. minha voz surge. resmungo. ‘hum, hum...’ ela diz um palavrão. eu devolvo. devolvo em pensamento. ‘vai se fuder!’. aprendi com ela. ela se levanta. vem na minha direção. mexo os olhos para o outro lado. paro de mexer o peito. paro de respirar. ela pega um copo com água. não tenho sede. ela grita. tenho medo. eu não grito mais. nem em pensamento. fico quieto. nem os olhos eu mexo. ela empurra o copo na minha boca. ´hum, hum...’ engulo um palavrão. sinto a água. sinto a água no meu peito. escorrendo. por dentro do peito. eu tusso. engasgo. ela ri. gargalha. ‘se fudeu’. ela diz. ela grita. reclama que borrou a pintura da unha. ela se mexe. bate na minha cabeça. com o copo. e dói. sinto a água. sinto a água nos meus olhos. por fora. descendo. escorrendo. apenas essa água que sai dos meus olhos, mexe. dói muito. sinto muito. outra água desce da minha cabeça. uma água quente. ela volta. olha. retorna. ela se senta. ela nem mexe. ela ainda está no telefone. ainda. ‘quero fuder’. ela diz. e gargalha. eu mexo os olhos. e o peito. dói. dói porque não posso parar. dói muito. por dentro. mas não é a água. 

O pernambucano Lúcio Pessôa é fruto de uma infância interiorana, vivida em um engenho de cana-de-açúcar, na cidadezinha de Itaquitinga, onde viveu antes de residir e degustar da atmosfera inspiradora de uma cidade que é histórica e patrimônio: Igarassu. 

É Terapeuta, Poeta; e Escritor ficcionista, daqueles que transita dos contos à dramaturgia.

Autor de dois Romances (O QUE ACENDE AS ESTRELAS, Editora Chiado, 2013 e QUASE TUDO EM CINCO ENVELOPES, Editora Giostri, 2016); uma obra de Dramaturgia (TEATRO DE LÚCIO PESSÔA, Editora Giostri, 2016) e de duas obras de Poesia (EUTONO, Editora Viseu, 2021 e POEMAS HORIZONTAIS PARA MUNDOS INCLINADOS, Editora Versiprosa, 2023), ele agora passa a assinar uma de nossas colunas, trazendo entre (e dentro da) sua literatura, um pouco do seu olhar terapêutico, mesmo que essa perspectiva esteja menos explícita, quase que num tom subliminar, um convite aos olhares dos leitores, das pessoas, e de todos os seres.

 

Instagram: @escritorluciopessoa


 

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