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Opinião

De volta à Ilha Fiscal: Mario Viana une a última farra da Monarquia portuguesa no Brasil com o povo em meio à Pandemia

Por: SIDNEY NICÉAS
Passados 131 anos, o espírito do último baile do império continua dando as cartas por aqui, mesmo com o Coronavírus matando geral.

Foto: Tânia Rego/Agência Brasil/Fotos Públicas

07/09/2020
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*por Mario Viana

No dia 9 de novembro de 1889, a monarquia já estava mais pra lá do que pra cá, mas isso não impediu que se bancasse uma festona em homenagem a visitantes da marinha chilena ancorados por aqui. O baile da Ilha Fiscal teria custado quase 10 por cento do orçamento da cidade do Rio para o ano seguinte. Mesmo assim, os 4.500 convidados se divertiram como se não houvesse amanhã. Não houve: uma semana depois, a família imperial era deposta pelos militares que proclamaram a república.

Passados 131 anos, o espírito do último baile do império continua dando as cartas por aqui. Acossados há quase seis meses por um vírus invisível e mortal, com mais de 120 mil defuntos na contabilidade, os brasileiros decidiram por consenso que nada está tão ruim que não possa ser comemorado. E dá-lhe estradas congestionadas, praias lotadas e bares soltando gente pelo ladrão, tudo para homenagear a Independência do Brasil. Viramos uma enorme Ilha Fiscal.

Na versão mais plebeia da festança, pode não ter havido a gastança do baile imperial – os tempos andam bicudos, afinal de contas. Em vez dos 800 quilos de camarão, 500 perus, 10 mil litros de cerveja e 304 caixas de vinhos e champanhe, entram picanha, linguicinha, coração de frango e outros mimos do churrasco entre amigos. O importante é juntar a galera e espantar o vodu. Afinal de contas, morrer todo mundo vai, né mesmo?

Cansados de esperar um convite pro baile da princesa, os brasileiros entraram de bicões na festa. Não há constrangimento aparente. Pelo contrário, há até um raciocínio por trás de cada passo. Cada um sabe de si, nada de fazer amizades com estranhos. O vírus não vai ter a deselegância de pular em cima de quem não conhece. Muito menos em cima de gente com o astral lá em cima. A alegria nos protegerá.

A verdade é que está todo mundo pelas tampas. Mesmo os mais assustados e paranoicos já buscam brechas por onde pular a cerca. Uma escapadinha aqui, outra ali, quem nunca? Deve ter rolado a mesma coisa no fim do império. O mundo conhecido desmoronava, mas quem teria coragem de despachar para longe uma princesa tão pé-de-valsa como a Isabel?

Dizem que, acabada a farra, o pessoal da limpeza encontrou pelos salões cartolas, luvas, chapéus e até um espartilho, sem falar em outras peças íntimas de algumas damas presentes. O império ruiu, mas o fervo foi danado. O baile da Ilha Fiscal previu direitinho o Brasil em que vivemos hoje.

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Mario Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

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https://www.facebook.com/mario.viana.948

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