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Opinião

Democracia em Risco?

Por: SIDNEY NICÉAS
O premiado poeta colombiano Carlos Sierra analisa a democracia (e sua fragilidade) à luz dos novos tempos

Foto: Arte/Tesão Literário

18/12/2022
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*por Carlos Sierra

Na recente diplomação do Presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, no seu breve discurso, pronunciou 17 vezes a palavra democracia. A pergunta que surge é: para que tanta insistência nessa palavrinha, se há tantos assuntos concretos para se falar, pois de fato vivemos numa democracia, como testemunha a constituição, no caso do Brasil, de 1988? É porque,  surpreendentemente, neste que já parece um futuro, já rodando a terceira década do século XXI, a democracia em todo o mundo se encontra em perigo. 

As democracias de países supostamente estáveis como EUA e Alemanha, além da maioria dos países de América do Sul - Venezuela, Peru, Argentina e certamente Brasil - vêm sendo contestadas de maneiras diferentes, mas com um eixo comum no fundo de tudo... o ressurgimento, com uma força surpreendente, de movimentos antidemocráticos tanto de Direita quanto de Esquerda, ou religiosos, aos que podemos antepor o prefixo ultra, já que esse prefixo se refere ao componente extremo desses movimentos, violentos não só no discurso, senão também nos atos. 

O que vemos aqui é um fenômeno a ser estudado, mas que ninguém sabe exatamente qual é sua energia impulsionadora. Se sinaliza as chamadas mídias sociais - Facebook, WhatsApp, Telegram, Twiter etc - como as propiciadoras desse fenômeno, já que permitem a circulação de discursos de ódio, xenofobia, homofobia, dentre outros, quase sem nenhum controle e nenhum apelo à verdade, convertendo a mentira, ou fake News, em instrumento viabilizador desses discursos. 

O que faz com que grupos numerosos de pessoas abracem causas estapafúrdias, com pouco apelo na realidade e tenham tanto sucesso? As teorias conspiratórias, sempre tidas como elucubrações e “conversas para boi dormir”, como dizem no Nordeste brasileiro, passaram a ser relatos de primeira ordem. Ninguém nos anos 1990 ou 2000, racionalmente saudável, acreditaria que, vinte ou trinta anos depois, alguém defenderia seriamente absurdos como a terra plana, e que ainda teria numerosos seguidores; ou que os movimentos antivacina, limitados anteriormente a alguns poucos grupos de fanáticos religiosos, estariam sendo promovidos por presidentes de países em várias partes do mundo; e isso para não falar dos extremos de delírio a que se tem chegado no Brasil em meses recentes, que ficaram para a história, onde, assim como nos Estados Unidos, um movimento artificial de não reconhecimento das eleições por parte do candidato-presidente no poder, com o intuito de continuar governando de qualquer jeito, apela a todo tipo de invenções mirabolantes para manter o seus seguidores coesos.

Isto só pode ser comparado com o genocídio em massa articulado por Jim Jones em 1978,  quando, ao ser alvo de investigações no seu pais de origem, os EUA, por mortes e abusos do seu “Projeto Agrícola do Templo do Povo”, situado em Georgetown, capital da Guiana, decidiu fazer lobby para que o seu grupo composto por centenas de seguidores se suicidasse com cianeto; o que aconteceu foi que muitos deles, incluindo muitas crianças, foram obrigados por uma força armada com espingardas e bestas a cometerem o ato final. 

Exagerado? Estou me referindo aqui não ao número de mortes, mas a capacidade de um líder de manipular os seguidores de tal maneira a fazê-los se sacrificarem ou exercerem violência contra outros só para satisfazer o seu ego, ou se livrar de responsabilidades. Estamos falando de pessoas que foram à escola, que têm acesso a informações da civilização, numa época em que são reconhecidos os direitos humanos...

Então temos dois cenários combinados: o primeiro traz um líder messiânico, que consegue manipular um pequeno grupo (o Inri Cristo brasileiro) até uma grande massa de pessoas (Hitler), baseado na habilidade - grande, sem dúvida nenhuma - de se apresentar como possuidor de uma verdade que preenche um vácuo nos seus seguidores, vácuo que às vezes é criado na medida que o líder consegue convencer, por meio da revelação de pequenos fatos, que costumam ser reinterpretações ou de distorções de outros  fatos já estabelecidos, como a viagem à lua, a esfericidade da terra ou de encarnar-se na figura de um messias salvador. 

O seguidor é testado, frequentemente, nas narrativas cada vez mais ousadas do líder e do grupo que o rodeia. Como exemplo, os líderes de ditaduras comunistas que começam como um camarada comum e, logo ele, começa a ser idolatrado, e os fatos de sua origem suavizados e magnificados, até resultarem numa origem divina ou messiânica, mesmo em meio a um regime que, na teoria, deveria ser democrático (Coreia do Norte: família Kim; Rússia Soviética:  Stalin; Líbia: Gaddafi etc).

O segundo cenário é o da propaganda, e no século XX temos o caso mais expressivo de todos com a ascensão de Hitler, que se valeu da propaganda como instrumento de manipulação e poder. Poderíamos até dizer que ele escreveu o manual de propaganda moderno. É famosa a frase atribuída ao chefe de propaganda do regime nazista,  Joseph Goebbels, de que “uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade”.

E é aqui, na interseção desses dois cenários, o da narrativa do líder e o da propaganda nociva como tal (fake News), onde os meios de comunicação deixam de ser meros instrumentos de informação para se converterem em armas de destruição massiva. Na primeira metade do século XX os jornais, o rádio, o cinema e a televisão; hoje, todos eles e principalmente a internet, por meio de suas mídias sociais.

Vemos assim que cada mídia possui as suas próprias caraterísticas, mas o que principalmente diferencia as mídias analógicas das digitais é o tipo de interação. E é aqui onde me parece que está a questão do enorme impacto no surgimento desses grupos extremistas. 

Nas primeiras mídias, as do século XX, o sentido da informação era unidirecional. Vinha da fonte de informação que bombardeava o espectador até informá-lo, isto é, dar-lhe a forma ideológica adequada. 

Nossas mídias de comunicação, jornais, rádios, Tvs, quase todas elas, especialmente na América Latina, serviram menos a interesses filantrópicos (como empresas de informação que, como tais, não são muito lucrativas), a interesses políticos (como empresas partidárias cujos donos impuseram ou ajudaram a impor ideologias, partidos, pessoas e até os donos mesmos no poder).  

No Brasil ainda há um elemento adicional, já que estes grupos de poder midiático estão vinculados também à religião (ver “Monitoramento da Propriedade de Mídia no Brasil” - www.brazil.mom-rsf.org.

Já as mídias sociais, antes chamadas só de redes, já que pareciam apenas instrumentos narcisistas de compartilhamentos e papos furados, passaram a veicular cada vez mais conteúdos ideológicos. Agora, a caraterística especial destas “redes”, reconhecidas como “mídias sociais”, é que sua interação é omnidirecional. Isto é, vai do emissor para o receptor e o receptor, por sua vez, se converte em emissor, mas não só para um, se não para uma rede de contatos, formando assim uma sorte de rede neural - e é aqui que surge o seu enorme potencial, o receptor da mídia analógica, que era um ser passivo e que de algum modo recebia ordens e tinha escasso poder de replicação, se torna então o receptor-emissor das mídias sociais, partícipe ativo do processo de comunicação como multiplicador, em primeira medida, e “criador” ou reprodutor de conteúdos, em segunda medida. É o que ele sente ao ter capacidade de resposta e de amplificação da mensagem, mesmo que não tenha consciência plena do que essa mensagem seja, ou a que interesses realmente está servindo. 

Como sabemos, muitos desses líderes não são precisamente carismáticos, como um Gandhi, por exemplo; a maioria deles quer acumular bens e poder para si, suas famílias e o grupo mais próximo que age como um cerco de proteção, até de seus próprios seguidores. 

Este elemento multiplicador e omnidirecional das mídias sociais resulta como potencializador desses indivíduos e grupos, que décadas atrás estavam centralizados em escassos grupos de poder, e agora, só com o acesso a um computador ou celular, qualquer pessoa pode se converter num emissor ou, mais apropriadamente, num retransmissor de mensagens. 

Vem aqui, pois, o perigo em que se encontra a democracia. Inicialmente vimos as mídias sociais contribuírem para a consolidação das democracias, a exemplo do acontecido com a Primavera Árabe (2010) - num cenário onde as mídias tradicionais eram controladas pelos governos na sua maioria ditatoriais, a internet ajudou a circular conteúdos e cristalizar alguns processos democráticos. Mais tarde, o que vemos é uma reviravolta, já que, cientes desse poder e praticando aquela máxima de que “uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo da verdade ter oportunidade de se vestir”, atribuída a Churchill, as Fake News ou mentiras são o instrumento ideal para a destruição das democracias. Aqui, a ideia de que tais mídias são inocentes não cabe, já que os proprietários lucram com as informações que circulam por elas. 

Marshall Mcluhan, que predisse o surgimento da internet, cunhou a ideia que dá título a um dos seus livros, “O meio é a mensagem...”, dando a entender que não é o conteúdo que modela o espectador, senão o próprio meio (mídia) o que dá a forma a esse receptor-emissor. Ideia um pouco complexa a simples vista, mas que, à luz dos fatos, pode se ver claramente o efeito multiplicador e amplificador que tais mídias sociais atuais dão a mensagens massivas que têm a particularidade de reproduzir falsidades, com o intuito de manipular grandes massas e desestabilizar a democracia, objetivando a tomada do poder. 

“A democracia não nasce por geração espontânea. Ela precisa ser semeada, cultivada, cuidada com muito carinho por cada um, e a cada dia, para que a colheita seja generosa para todos.

 "Mas além de semeada, cultivada e cuidada com muito carinho, a democracia precisa ser todos os dias defendida daqueles que tentam, a qualquer custo, sujeitá-la a seus interesses financeiros e ambições de poder”.

 (Lula, discurso de Diplomação em 12-12-22, Brasilia-DF)

 

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Carlos Sierra é um premiado poeta de Medellín (COL), atualmente radicado em Caruaru (PE), com experiência em outros segmentos artísticos e atuação cultural marcante, especialmente como coordenador da Feira do Livro de Medellín e colaborador do Festival Internacional de Poesía de Medellín. Colunista especial do Blog Tesão Literário, foi partícipe relevante no processo de Cultura Cidadã, que vem transformando esta conhecida e importante cidade colombiana.

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