Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Opinião

Deuses da Shopee

Por: SIDNEY NICÉAS
Carlos Sierra constrói texto robusto sobre os rumos da humanidade, os mitos e questiona o que somos

Foto: Reprodução/National Geographic Portugal

26/03/2023
    Compartilhe:

*por Carlos Sierra

Observando a atuação da humanidade como organismo coletivo, através do tempo, não deixo de pensar se nós somos aquela espécie exterminadora de planetas que, recorrentemente, nos apresentam os filmes de Hollywood. Usualmente costumamos nos apresentar como aquela maravilha da natureza que até agora não tem achado par no universo - inclusive, algumas religiões glorificam nossa figura como “feita à imagem de Deus”, isto é, ao não termos suficiente vergonha de nos considerar deuses, ficamos numa bela posição intermediária, como uma espécie de versão da Shopee de Deus, tal  é a nossa perfeição.

A filosofia não faz menor homenagem à religião; sucessivas escolas realçam as maravilhas da razão: o humanismo, extraindo-nos do mundo animal por virtude da inteligência e do trabalho, até que Darwin, após muitas rejeições, conseguiu nos devolver corretamente ao mundo animal. Mas fazemos questão de nos diferenciar, estabelecendo uma distinção entre inteligência e instinto e passando a tratar animais como coisas; fizemos da palavra animal sinônimo de barbárie, violência, ignorância e relacionamos a palavra selva com caos e desordem. Nada mais distante da realidade. Tudo isso contraposto ao grande fato da civilização.

Assumimos que somos os únicos que podemos compreender a natureza em seu sentido mais amplo, mas esquecemos das evidências: na época de Da Vinci se falava que nada mais pesado que o ar podia voar, apesar do óbvio cotidiano dos pássaros indo e vindo - aliás, falando de pássaros, nos maravilhamos com a recente invenção do GPS e não damos suficiente crédito às pombas, que têm servido desde tempos imemoriais como mensageiras, valendo-se do seu próprio GPS biológico, ligado ao campo magnético da terra por meio de pequenas partículas de metal no seu já diminuto cérebro.

Assim, o pensamento humano não pode deslindar-se do seu antropocentrismo. Não conseguimos entender que não estamos sós, que temos milhões e milhões de espécies inteligentes ao nosso redor e que é pouco o esforço que fazemos para compreendê-las; gastamos bilhões enviando naves espaciais ao vácuo em busca de um eco de outro mundo, quando temos esses mundos entre nós com abelhas escrevendo no ar, térmitas construindo prédios climatizados proporcionalmente mais altos que os nossos, formigas cultivando fungos,  baleias e delfins comunicando-se através do oceano… Lembro também das plantas, que convertem luz solar em energia e até agora não descobrimos como; outras que seguem o sol, que criam as suas próprias medicinas para se curar e nós aproveitamos tudo isso como se fossem coisas acidentais. Em lugar de tentar compreendê-las, as extinguimos, como fizemos com o único irmão que tivemos, o Neandertal. Nossa solidão na inteligência se deve mais à nossa ignorância de não compreendermos plenamente nosso entorno, do que o que abunda na natureza é inteligência.

Não somos nenhuma maravilha, pelo menos não mais que qualquer outra espécie. Sequer a inteligência nos fez melhores - o humanismo nos faz melhores no papel e a tecnologia serve para competir com Deus. Mas, sinceramente, o que temos aprendido nesse trajeto? 

A chamada civilização se sustenta, a olhos cegos, da barbárie e da instituição da escravidão de grandes massas de pessoas. A Europa manteve a sua preeminência no passado graças às suas colônias no mundo todo, e sua riqueza de hoje é o acumulo de bens que produziu esse ambiente colonial e a escravidão. Uma vez evidenciadas tais contradições, com o advento da revolução industrial, a escravidão, dentre outras coisas, não desapareceu necessariamente pelo surgimento de ideias humanistas senão pela industrialização que precisava de outro tipo de sujeito, o obreiro. Isso se vê claramente na guerra civil norte-americana, onde o Norte, industrializado, propunha a liberdade dos escravos, já que não precisava deles, enquanto o sul agrícola, isto é, feudal, queria a sua manutenção. Alguma semelhança com a duração da escravidão no Brasil?

No século XX as guerras e a engenharia da morte, alinhadas com a tecnologia, deram fim a qualquer tipo de concretização desse humanismo que queria se expressar por meio da chamada modernidade; novos atores e novos tipos de colonialismo, baseados certamente na barbárie, mantiveram grande parte do mundo por fora do anelado desenvolvimento, sendo programados, inclusive, à força, a manter-se na pobreza e na ignorância, como foi e é o caso da América latina. Hoje o mundo pós-moderno certamente é essa mistura de barbárie e humanismo tolerados, que chamamos orgulhosamente de civilização.

E o que tudo isso tem a ver com o extermínio de planetas, citado no início? Se você pensou isso ao chegar até aqui, respondo: a maneira que pensamos a civilização é sublime, mas a forma que a colocamos em prática resulta no vírus da destruição. 

Que belos deuses somos, não?

--

Carlos Sierra é um premiado poeta de Medellín (COL), atualmente radicado em Caruaru (PE), com experiência em outros segmentos artísticos e atuação cultural marcante, especialmente como coordenador da Feira do Livro de Medellín e colaborador do Festival Internacional de Poesía de Medellín. Colunista especial do Blog Tesão Literário, foi partícipe relevante no processo de Cultura Cidadã, que vem transformando esta conhecida e importante cidade colombiana.

https://twitter.com/sierracarlos7 

https://www.temblores.org/comunicados 

https://twitter.com/JMVivancoHRW 

https://www.instagram.com/sierracarlosenrique/  

https://carlosenriquesierra.wixsite.com  

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook