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Opinião

Doenças da Moda: o mundo virou batalha entre paranoicos e hipocondríacos

Por: SIDNEY NICÉAS
O autor-roteirista de novelas Mario Viana (e seu humor refinado) traz uma crônica sobre a pequenez humana, refletidas nas dores do corpo provocadas pelo confinamento

Foto: Taipei Zoo/Fotos Públicas

28/09/2020
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*por Mário Viana

A pandemia não é tudo. Várias epidemias oportunistas estão pegando carona no rabo da Covid-19, sem falar nas moléstias freelancers, que pipocam aqui e ali sem pedir licença. A humanidade nunca esteve tão perecível. O calcanhar de Aquiles agora começa no tornozelo e segue até a raiz dos cabelos.

Dor nas costas, por exemplo, é uma nova epidemia. Perguntem ao ortopedista mais próximo. Dominado pela tensão, fazendo menos exercícios que nunca, o corpo dá sinais de extremo desconforto. E o resultado é uma espécie de tricô maluco que a mãe natureza faz, dando nós de marinheiro em nossa região lombar. Qualquer movimento mais brusco – como respirar ou piscar os olhos – ameaça rasgar a pessoa em duas ou três partes.

Os dentes também andam pagando patos que não encomendaram. Em situações mais difíceis, algumas pessoas tensionam as mandíbulas a ponto de quebrar dentes, pontes, coroas, pivôs, jaquetas e obturações diversas. Se a coisa do confinamento continuar (ou for levada a sério, pelo menos), os dentistas enriquecem de vez. Ou a boca banguela entra na moda.

Também tenho notado um incremento nas dores das juntas, especialmente nos membros inferiores. Pode reparar: Seu corpo está estirado na cama, você já se vê a caminho do sono, quando um pontinho qualquer entre a bacia e a perna dá uma fisgada. É coisa besta: incomoda, mas não a ponto de te fazer levantar em busca de um analgésico. Dali a dois dias, a perna inteira dá sinais de existência. Não é dor, é uma sensação desagradável mesmo. Você sente saudades dos esportes radicais, como a hidroginástica.

Somos, os seres humanos, um bando de bípedes movidos pela arrogância. Ao longo dos últimos séculos, construímos a autoimagem de criaturas superiores às demais. Trata-se de um título bastante discutível, sem o menor respaldo na realidade.

Poucos minutos depois de nascer, uma girafa-bebê consegue se equilibrar nas pernas. E olha que a girafa já nasce com aquele design de pescoço mais comprido que o resto, etc. Tudo desconjuntado. Um bebê humano nasce com carinha de joelho universal e disso não passará se for deixado por sua conta e risco. Homem nenhum é autossuficiente na hora da mamada. E mesmo com esse recado já na hora de entrar em cena, o ser humano se acha.

Munidos de máscara, álcool gel, vitamina D e sorte, poderemos escapar das armadilhas do corona. Mas dificilmente sairemos ilesos das dores caronistas. E olha que nem quero falar das crises de ansiedade e angústia, da gastrite nervosa, do pavor que ataca quando se vai à padaria e da consciência culpada ao voltar da sorveteria. O mundo virou a grande batalha campal dos paranoicos versus hipocondríacos. Pior que tá dando empate.

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Mario Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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