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Opinião

Dona Hercília e meu mundo perfeito

Por: SIDNEY NICÉAS
Sidney Nicéas e uma crônica imperfeita: dirigir pela cidade pode render esperanças contraditórias

Foto: Sidney Nicéas

05/02/2023
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*por Sidney Nicéas

Meu mundo perfeito seria aquele em que ninguém passaria fome ou seria pobre a ponto de ter privações. Que fosse pacífico. Sem canalhas ladrões de dinheiro público. Em que essa entidade chamada mercado não estaria acima das pessoas - ou nem existisse. Repleto de livros, arte e cultura. E que Dona Hercília o habitasse.

Sou puto com esse formato quadrado, desigual, violento, superficial (a ponto de ser idiota) que somos obrigados a encarar diariamente - nas ruas ou no smartphone. Foi neste ambiente hostil que saí de carro da Zona Norte do Recife para a Zona Sul, rompendo a fronteira da cidade até Jaboatão dos Guararapes. A reunião no escritório de contabilidade foi longa, amigável e necessária. De lá fui direto ao Shopping pertinho para outra reunião, ainda mais amigável, com o poetamigo Natanael Lima. Foi saindo do shopping que um vislumbre do meu mundo perfeito se fez presente.

Há poucos metros do centro comercial o sinal vermelho, vidros fechados e a movimentação mexeu com a minha boca, sorri: uma jovem senhora ia de carro em carro com livros nas mãos. Sorri mais forte, abri os vidros, Quanto custa um livro desses, minha querida?, O senhor paga o quanto quiser, moço, isso aqui é a riqueza da vida! Ela sorriu novamente. Lembrei que tava sem dinheiro, aí lembrei que havia uma nota de cem Reais para botar combustível, o mostrador na reserva, ela querendo vender, O senhor bota gasolina e dá um troquinho pra mim…

Entrei no posto. Setenta de gasolina, mestre. O frentista foi colocando o combustível, um rapaz sentado numa mureta próximo à mim lia Agatha Christie, a coisa só melhorava. Moço, a leitura é um maravilhamento do mundo profissional!, Como é o seu nome?, Hercília, e esse é meu filho Haroldo. Era o menino lendo. Agatha Christie, cabra bom?, É massa, o senhor já leu?, E então! Dona Hercília continuou: E o seu nome?, Sidney, Qual livro o senhor vai querer, Seu Sidney? Olhei, tinha um de piadas do Casseta e Planeta; Cidade de Deus, de Paulo Lins; e uns outros que ou já tinha lido, ou não interessaram no momento. Dei o troco do combustível e peguei os dois citados. O senhor esqueça o filme pra ler, viu? o livro é inferior. Haroldo falou rindo. Dona Hercília, a senhora vive vendendo livros ou…, Nem sempre, meu filho; já dei fim a duas bibliotecas que chegaram pra mim porque preciso botar comida na mesa, né?

A tal da sobrevivência fez de Dona Hercília uma metáfora.

Vender é um negócio maravilhoso que eu gosto muito, sabe moço? esse mundo profissional é feito a inteligência que o conhecimento imortal atinge quem gosta de ler! Dona Hercília metia adjetivos em frases emendadas, e divertia. Haroldo ria. Queria eu ter uma lábia dessa!, disse pra mim o adolescente. Mas tu vende também com ela?, Nada, só acompanho, vender não é comigo não; gosto mais é de ler.

Oito da noite e a conversa rolando. Pedi pra tirar uma foto dela, agradeci pelo oásis que eles representavam, disse que era escritor e que aquilo tinha um significado que ia além. Haroldo ficou curioso com o que eu escrevia, Dona Hercília se despediu várias vezes - sempre puxava alguma outra conversa, e ria -, eu tentei esticar um pouco mais o momento. O senhor tem um futuro bonito!, ela disse. Entrei no carro sem saber o que sentia.

Dei a volta e dirigi de novo para o semáforo, novamente avermelhado. Dona Hercília lá, firme, de carro em carro, os vidros fechados não a incomodavam, riso largo. Abri o vidro. Dona Hercília, a senhora é uma luz! Ela deu uma gargalhada. Seu Sidney, o senhor ainda vai escrever outro mundo!

Dona Hercíla não estava fazendo uma predição. Ela via por entre os faróis dos carros aquele erro na matrix que eu representava, nada em lugar nenhum desejando umas utopias estranhas. Vender livros nos sinais da vida pra sobreviver não é sonho, é realidade dura - mas ao menos eram livros, oportunizando algo a mais aos cegos que guiam seus carros por aí. Fiquei num misto de alegria e tristeza. Queria ter mais notas de cem pra ajudar aqueles dois, queria. Mas essa doideira aqui é imperfeita. E eu tô junto, me debatendo, pensando em que outro mundo Dona Hercília disse que eu escreveria…

Meu mundo perfeito seria aquele em que ninguém passaria fome ou seria pobre a ponto de ter inúmeras privações. Que fosse pacífico. Sem canalhas ladrões de dinheiro público. Em que essa entidade chamada mercado não estaria acima das pessoas - ou nem existisse. Repleto de livros, arte e cultura. E que Dona Hercília e Haroldo o habitassem.

Juro.

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Sidney Nicéas é escritor com cinco obras publicadas e editor do Blog Tesão Literário. Colunista de Literatura das Rádios CBN e Transamérica, preside a Ideação, co-realizadora da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Prepara dois romances para breve, um biográfico e outro de ficção. Também é Relações Públicas com MBA em Gestão de Pessoas, Pós-Graduando em Escrita Criativa, professor universitário e titular da própria assessoria de comunicação, a Sidney Nicéas Comunicação Integrada. Ainda integra os projetos sociais Sertânia Sem Fome e Mundo do Lua, além de promover diversas ações que visam a inclusão social pela Literatura.

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