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Opinião

Elza e o Amor

Por: SIDNEY NICÉAS
Belo texto de Geórgia Alves sobre Elza Soares, falecida há 03 dias, sua relação com Garrincha, as dores, o amor...

Foto: Patrícia Lino/Arte Tesão Literário

23/01/2022
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*por Geórgia Alves

Dizem poetas contemporâneos, em revisão àquilo que, por exemplo, os poetas românticos afirmaram, que o amor não é tempestade e trovão. Que o céu que abriga em abraço corpos amantes é feito do que há na Natureza, em sua demonstração de força, do mais impetuoso, aquilo que está sempre relampejando. Faiscante como fogo dos deuses. Não para os contemporâneos. 

Testemunho as melhores mentes, os melhores poetas afirmarem: o amor é encontrar a paz. Sou aprendiz, sigo lendo tudo. Inclusive o mundo. E a partida de Elza Soares me deixa reflexiva. Elza partiu no mesmo dia que Garrincha. Não foram poucos os fatos que tornaram este amor visível. Desconsiderando a razão e desobedecendo o coração, desconstruindo a tradição e desparafusando a construção, o casal experimentou a rejeição, a revolta da mídia fonográfica, que chegou a quebrar os discos dela quando gravou “Eu sou a outra”, em meio a surtos e um cúmulo de hipocrisia. 

Passaram pela perda de um filho, perseguição do DNOCS, quando além de apedrejar a casa do casal, um agente chegou a atirar no Mainá, pássaro de estimação do casal. Houve até relato de premonição – no acidente que levou à morte a mãe de Garrincha. Elza teve pesadelo na véspera e pediu que Garrincha não fosse, não pegasse a estrada. Ele iria ver as filhas do primeiro casamento. A mãe se ofereceu para ir junto. O carro capotou várias vezes e deu o ocorrido. 

É tão ou mais trágico enumerar os fatos enunciados em torno da vida deles que qualquer peça de Ésquilo, Sófocles ou Eurípedes. Elza foi obrigada a casar aos doze anos! Isso antes de conhecer Garrincha, com o amigo do pai, que dela abusava. Maltratava, espancava. Viu um filho morrer de fome e a filha ser sequestrada antes de completar um ano. Elza reencontrou a filha, mas foi obrigada a perdoar o casal que a roubou porque “a criaram bem”. Perdoar? Só para quem estivesse mesmo muito pertinho do céu. 

Paz? Onde mora a paz?

Garrincha sofreu bastante também. Morreu aos cinquenta anos de cirrose hepática. Perseguido por cartolas, cronistas e outros figurões do futebol, bebia para aguentar a vida e se arrastou durante anos até a morte. Elza pediu a deus que a levasse sem dor. Teve mais ou menos a reza atendida. Aos 91 anos morreu de “causas naturais”. Como se dizia antigamente: foi num sopro. O destino e o tempo fez dela o sol. O sol da canção cantando em português. Uma diva da Música Popular Brasileira, um sol de primavera que vimos até desfazer e desprender da forma física, da carne que não estava mais de graça, mas valia uma tonelada. Preparou nossos corações até desfazer, mas para jamais morrer, para jamais morrer.

Cantará eternamente em seu grave estridente a saciar a voz de uma cantora do milênio nossos saudosos ouvidos. Desde o ano dois mil uma rádio inglesa decretou ser ela vencedora do The Millenium Concerts. Se o amor é encontrar a paz, mirando-nos no exemplo de Elza e Garrincha, é difícil chegar a tal conclusão. A afirmação mais possível é dizer que o mundo ainda não aprendeu a conviver com a beleza. Vejamos. Dado o sofrimento de Elza, a hipocrisia constante perturbando a paixão entre os dois. Ultrapassaram acusações, processos, perseguições, rejeição, xingamento de toda sorte, a imprensa, ah o papelão da imprensa. E o amor. Sim, mesmo não sendo a favor de contrariar a verdade dos fatos, não se pode dizer que não foi amor, mesmo sendo tormenta, tornado, vê-los partir no mesmo dia não conduz a outra certeza. Se esta versão profética dos números, datas, marcos, também não for a confirmação do amor, ou o que se há de chamar de destino,  também. Também...

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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