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Opinião

Endoscopia

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor Lúcio Pessôa retorna ao Tesão com sua nova crônica sobre uma busca inquietante.

Foto: Annie Spratt/Unsplash

22/09/2023
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*Por Lùcio Pessôa

Revirei a casa inteira esses dias. Deixei-a pelo avesso. Gavetas, prateleiras, armários; absolutamente tudo. Custa-me a acreditar que cheguei a destampar as panelas, olhar debaixo dos tapetes dos quartos, abrir o forno, e até subir nas cadeiras da sala de jantar para espiar por cima das coisas.

A aflição foi tanta, que me dei ao trabalho de levantar os móveis, varrer todos os cômodos, e ainda assim, rastejar no piso espiando as frestas... 

Embaixo do sofá, além da poeira fina e daqueles resíduos abstratos que se aglutinam e viram uma espécie de algodão encardido, encontrei apenas uma dezena de objetos, outrora esquecidos, vítimas das traquinagens da gata: bolinhas, conchas do mar, uma chave enferrujada, folhas secas do antúrio em estado de coma, tampas de canetas, prendedores de roupas, e só. 

Suspiros (...). 

Onde mais eu poderia procurar?

Resolvi revirar os livros. E em se tratando de livros, pensemos em minutos a fio, e imaginemos uma infinidade de estórias, contos e mais contos, páginas e mais páginas, folheadas uma por uma. 

Achados? 

Papéis velhos, holerites do antepenúltimo emprego, volantes de loteria de apostas perdidas, bilhetes obsoletos, cédulas de uma moeda de décadas atrás sem valor algum, algumas cartas de amor sem sentido - dobradas ao meio, para destinatários diferentes. 

[Sobre essas tais cartas, elas eram ainda mais ridículas que as de Drummond porque os parágrafos finais eram sempre iguais: a escassez de inspiração ou a cafajestice, explícitas.]

Folhas de mangueira desidratadas; uma cartela de AAS infantil; marcadores de páginas desbotados; um foguetinho feito com o papelzinho do halls preto (um protótipo de origami); um endereço da cidade de Olinda; duas fotos três por quatro com uma microfrase escrita com caneta hidrográfica vermelha no verso; algumas dedicatórias na parte interna da capa da frente de alguns exemplares; seis autógrafos ilegíveis; palavrões ditos pelos personagens salientados de marca texto de cor laranja neon; e nada mais. Tudo inútil. 

Respirei fundo, dei uma trégua à angústia apenas para guardar dentro da carteira de couro marrom, no bolso das moedas, aquele papel com aquele endereço de Olinda, no bairro Sítio Histórico, suponho.

E pus-me a revirar as roupas. Dentro das meias, nos bolsos das calças, das blusas, na parte interna dos dois únicos paletós usados por mim nos casamentos alheios. Por baixo dos colarinhos. Abertos os zíperes, desabotoadas as camisas, analisados inclusive, pasmem, os poucos bordados e apliques. E ainda não me contive, a ponto de raspar certas estampas de alguns tecidos, com as unhas; como se de lá, pudesse se desprender. Puxei os fiapos das bordas dos pijamas, e depois segui para o banheiro para revirar a farmacinha. 

Passado um pouco de vick vaporub no peito e nas narinas, foco nos porta trecos: caixas de jóias; sacolas plásticas trazidas das compras, com a logomarca do supermercado impressa em verde e laranja, e dentro delas, apenas os cupons de notas ficas, descrevendo os itens trazidos: mucilon, geleia de mocotó, café extraforte, manteiga de lata, chá de boldo...

Levantei os colchões; retirei as fronhas dos travesseiros; inspecionei a geladeira, até o recipiente das verduras. 

Percorri os canais da televisão pressionando a tecla com a setinha pra cima, do controle remoto. 

Olhei pela janela da sala; consultei até o saldo da conta bancária e a lista de nomes da agenda do celular. E nada!

Nada, na verdade é um modo estranho e injusto de falar. Porque ela estava lá o tempo todo. Enquanto eu procurava longe, ela estava perto. Eu procurando fora, e ela dentro. Eu revirava os outros, mas ela repousava em mim. Eu pensando em 3D, no multiverso, nas diversas formas geométricas, das maiores dimensões possíveis..., mas ela é tão singela, uma espécie de filete de luz, silenciosa.

O único trabalho que se tem para encontrá-la é o de riscar um fósforo (e olha eu falando de objetos novamente, como se isso a descrevesse, ou como se ela fosse dessa categoria), e acender o pavio; e respirar essa tal claridade, que só ela, nos é capaz de ofertar. 

Lá está a minha, em todos os ambientes possíveis. Sobre a mesa, sob os meus olhos, chama viva. Olha ela aqui dentro do peito também. Uma tocha. Adereço de alma.

E já que é assim, desfiz a bagunça toda, reposicionei as coisas...  Respirei.

Estou aprumado novamente.

Agora, mais aliviado, vou pegar carona neste estado de graça; e vou ali, dá um pulo em Olinda, tomar um sorvete, respirar um ar fresco, e tentar descobrir o que posso encontrar naquele tal endereço, escrito naquele papel velho, e encardido.

O pernambucano Lúcio Pessôa é fruto de uma infância interiorana, vivida em um engenho de cana-de-açúcar, na cidadezinha de Itaquitinga, onde viveu antes de residir e degustar da atmosfera inspiradora de uma cidade que é histórica e patrimônio: Igarassu. 

É Terapeuta, Poeta; e Escritor ficcionista, daqueles que transita dos contos à dramaturgia.

Autor de dois Romances (O QUE ACENDE AS ESTRELAS, Editora Chiado, 2013 e QUASE TUDO EM CINCO ENVELOPES, Editora Giostri, 2016); uma obra de Dramaturgia (TEATRO DE LÚCIO PESSÔA, Editora Giostri, 2016) e de duas obras de Poesia (EUTONO, Editora Viseu, 2021 e POEMAS HORIZONTAIS PARA MUNDOS INCLINADOS, Editora Versiprosa, 2023), ele agora passa a assinar uma de nossas colunas, trazendo entre (e dentro da) sua literatura, um pouco do seu olhar terapêutico, mesmo que essa perspectiva esteja menos explícita, quase que num tom subliminar, um convite aos olhares dos leitores, das pessoas, e de todos os seres.

 

Instagram: @escritorluciopessoa

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