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Literatura

Especial: Os Mascates do Livro do Recife

Por: SIDNEY NICÉAS
Eles ocupam as calçadas da metrópole com uma riqueza que vale garimpar. E você, dá valor?

Foto: Sidney Nicéas/Arte Tesão Literário

02/01/2022
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*por Sidney Nicéas

Foi na Avenida Guararapes, um dos pontos mais centrais do Recife, que avistamos os livros colocados ao chão, ocupando parte considerável das imensas calçadas - embora lá fiquem alguns dos mais antigos sebistas de rua da cidade, o Recife tem ‘mascates do livro’ espalhados por outros locais -; nesse dia específico que visitamos acontecia a Feira do Livro - 2ª ediCHÃO, evento que pretendeu (e pretende) chamar a atenção para a riqueza que “brota do chão da Guararapes” (pegamos emprestada essa frase de Alexandre Medeiros, cliente assíduo do local e que você vai conhecer mais a frente). E não é difícil encontrar coisas valiosas que nenhuma livraria oferece - e com preços imbatíveis.

Chegamos já passava das onze da manhã, um calor imenso e o movimento estava fraco. Era domingo e nem o festival ajudou muito. Dei de cara com um livro infantil de Bob Dylan, “O Homem Deu Nome a Todos os Bichos”, edição de luxo em ótimo estado, por Dez Reais. Compramos. (Dez Reais, vá somando) A sebista, Kátia Sales, tem um box fixo na Praça do Sebo, mas não deixa de expor seus livros para venda nas calçadas sempre que pode (e o festival foi nova oportunidade para isso). “Estou nesse ramo há 22 anos. Livro sempre é uma dificuldade pra vender, ainda mais na rua. Parece que o povo não gosta de ver o livro exposto. É a questão do conhecimento. Há comerciantes que só sossegam quando tiram a gente da rua. Já aconteceu muito da prefeitura vir e tirar. Mas a gente volta. Nós temos essa cultura de vender na rua. Em outros países isso é valorizado. Vá na França e você vai ver que há livreiros vendendo na rua junto do Rio Sena, e por que aqui na Avenida Guararapes não? Aqui é um lugar cultural!”, falou com um sorriso que quase aparecia por sob a máscara.

Próximo à Kátia se aproximou o Delegado aposentado Nivaldo Tenório, cliente há várias décadas e que não dispensa uma boa obra. Nivaldo diz que já tem mais de 5.000 livros em sua coleção particular e não compactua do que chama de “chiadeira” dos sebistas. “Tem muita gente que lê e compra aqui sim. A Pandemia tem atrapalhado, mas os domingos aqui costumam ser agitados”, disse com um mau humor recheado de boas risadas, ou um bom humor enfezado. Ele contou que sua coleção é criteriosa e que não abre mão de garimpar preciosidades. “Dos mais de 5.000 livros - mas livros mesmo, qualidade, bobagem não entra nem de graça! -, 85% são dos sebistas de rua do Recife. Acho muita riqueza aqui”.

Quando o livreiro Jacaré (Josué) se aproximou, o assunto voltou a ser a valorização do local. Nivaldo e Jacaré sintonizaram as palavras. “Na gestão de Gustavo Krause foi criada a Praça do Sebo, que só não funciona no domingo. Muitos de lá vendem nas calçadas da Guararapes aos domingos, juntando-se a tantos outros”, revelou Nivaldo, sendo complementado por Jacaré. “Vendo livros aqui na Av. Guararapes desde 1973 e cada prefeito é um sistema. Já precisamos criar comissão pra visitar prefeito ou secretário pra que deixassem a gente trabalhar, fizemos muita pressão. Hoje melhorou muito, graças a Deus. Isso aqui era pra ser chamado de Pólo Cultural da Guararapes!”, sentenciou.

Seguimos andando e conversando com outros vendedores. Um pouco mais à frente encontramos Glauco, que quase quebrou financeiramente por conta da Pandemia e ainda tenta se recuperar. “Muito difícil. Mas não havia o que fazer. Ainda bem que a gente se ajuda e é nessa pisada que tô tentando me reerguer”, explicou, mostrando livros dele e de outro sebista, que o está ajudando nessa recuperação. Noutro trecho da larga calçada foi possível comprar obras relevantes por R$ 2,50 cada (02 livros por R$ 5,00), obras como “Uma Cultura Ameaçada: a Luso-Brasileira”, de Gilberto Freyre; “Jutaí Menino”, de Gilvan Lemos; e “Contos de Aprendiz”, de Carlos Drummond de Andrade. Compramos estas e mais outras três, todos em bom estado, saindo tudo por módicos R$ 15,00 (vá somando).

Noutro ponto, conversamos com o sebista Paulo Do Ramo, que é filho do recém-falecido Do Ramo (mas que era chamado de Ramos por muita gente), um dos mais antigos vendedores da região e que deixou um acervo imenso para venda. Todavia, se engana quem pensa que seu filho pretende continuar na atividade. “Meu pai morreu há 7 meses. Deixei o emprego que tinha para assumir o acervo dele, mas o movimento aqui caiu demais. Quando terminar de vender tudo vou sair desse ramo. As vendas estão muito ruins”, falou num tom triste. Lá compramos outros dois títulos, em ótimo estado, que totalizaram R$ 5,00 (somaram? Oito livros por R$ 30,00, alguns raros e todos baratíssimos!). Paulo ainda explicou que era seu pai que negociava os livros e fixava os valores de venda. “Era tudo com ele. Nossos preços aqui são baixos porque há muita doação de livros pelas famílias, ou compra por valores bem baixos mesmo, já que muito do que chega integrava a coleção de alguém que morreu e deixou sua biblioteca para trás. Aí precisamos ter um volume grande de vendas e isso está cada vez mais difícil, pela crise de dinheiro ou pela cultura de ler mesmo, que é baixa”, concluiu.

 

PAIXÃO PELA GUARARAPES

Um pouco das riquezas de Alexandre Medeiros, do chão da Guararapes

Do Chão da Guararapes

(Alexandre Medeiros)

 

Como olho d’água, sem explicação

Quanto mais escorre, mais mina

Aflorando ligeiro, rasgando o chão

Engolindo espaços, sem disciplina

 

São pequenos volumes, esperando adoção

Com capas simples, cartolina

Pequenas tiragens, primeira edição

Do gráfico Amador, adrenalina

 

Cabral, Cardozo, Pena FIlho

Montez, Domingos, Cunha Melo

Cancão, Patriota, Otacílio

 

Juntando os poemas, faria um flabelo

Bordando o mote, com muita certeza

Do chão da Guararapes, brota riqueza.


 

Não dá pra falar da riqueza dos sebos sem falar com o escritor, professor e gestor público na área de transportes, Alexandre Medeiros, assíduo comprador dos sebistas da Av. Guararapes, ele que vive postando em grupos de Literatura no Whatsapp seus achados valiosos que “brotam do chão da Guararapes”. Cliente há mais de três décadas, fez do convívio com livreiros e artistas que por lá transitavam (e hoje com os que ainda transitam) mote para montar uma biblioteca com cerca de 5.500 livros, adquiridos preponderantemente nos sebos da Guararapes, além de vinis, cds, quadros e esculturas de artistas que permanecem ‘marginais’. Sua preferência nos livros é por obras de autores pernambucanos, mas não se limita a isso e possui coisas raras, como a 1ª edição de A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, ou um exemplar antigo de Laços de Família, de Clarice Lispector, autografado por ela mesma, ou ainda outros exemplares autografados pelos seus autores, como Cora Coralina, João Cabral de Melo Neto e Joaquim Cardozo, para ficarmos só nesses exemplos.

Foi através desse ritual de garimpo e coleção feito na Avenida Guararapes que ele, certa vez, adquiriu um Missal (pequeno livro com as orações principais da missa e outras rezas importantes, que o católico leva consigo para acompanhar as cerimônias litúrgicas) e o guarda mantendo suas características originais. “Recuperei esse Missal. Dentro dele havia fotos de entes queridos da proprietária, além de santinhos de pessoas falecidas. Guardo como símbolo. Jamais modifiquei o posicionamento das fotografias, nem tirei das páginas, assim como os santinhos, que permanecem nas mesmas páginas. Sou um guardião desse Missal e de toda essa riqueza do chão da Guararapes que coleciono”, conta com orgulho. 

A paixão de Alexandre pelos livros e pela cultura exposta na Avenida Guararapes só se explica pela afinidade com quem milita e sobrevive nesse meio. “Minha paixão transcende o conteúdo intelectual do livro, vai também pela questão estética, as capas, sou fã de capas de livros, cheiro os livros, eu me sinto bem olhando para minha biblioteca. É uma paixão imensa. Nos meus dias de folga não viajo, vou para o chão da Guararapes, sábado, domingo, feriado… Passo uma parte da manhã conversando com as pessoas e me tornando amigo delas, muitas vezes frequentando suas casas, compro livros às vezes em suas residências. Os livreiros ali são, regra geral, gente simples, não especialistas, que tiram do sebo o sustento de suas vidas. E como nós, clientes, nutrem uma paixão por esse ofício, até porque viver e se sustentar com a venda de livros ali não é uma coisa fácil”, conclui com empolgação.

 

PRAÇA DO SEBO

A Praça do Sebo, que fica pertinho da Avenida Guararapes e que foi citada no início desta matéria, foi remodelada recentemente pela Prefeitura do Recife, melhorando o aspecto e a estrutura deste que é um dos mais importantes equipamentos para sebistas e clientes da cidade. Integrando o Circuito da Poesia do Recife, a praça possui uma estátua do poeta pernambucano Mauro Mota, sentado num dos bancos ofertados para os passantes, lendo, onde é possível sentar ao lado deste “imortal” e, quiçá, bater um papo com ele. Lá também se consegue garimpar obras valiosas, além de livros didáticos e paradidáticos - muitos, aliás, vão lá anualmente procurar livros escolares usados para o ano letivo. Foco da ação da Prefeitura, a Praça do Sebo sobreviveu à decadência do bairro de Santo Antônio. Além da remodelação atual, feita após quase 10 anos depois da última intervenção (e que também integra o projeto de revitalização do centro do Recife), a Praça também sediou o evento Abril Pro Livro, produzido pela bibliotecária Carolina Sobral durante alguns anos, que levava muitas atrações literárias e contação de histórias, movimentando o local e chamando a atenção da sociedade para sua importância. O que falta? A população abraçar de fato essa rica faceta da cidade e os governos estabeleceram políticas permanentes para o setor (não apenas para sebos e livreiros em geral, mas para o livro como um todo). Imagina o Recife, com toda sua riqueza cultural, sendo, de fato, uma cidade de leitores? Imagina…

 

OBS.: tentamos contato com a Prefeitura do Recife para que tivéssemos um depoimento oficial sobre os planos para fomento do livro na cidade, e mais ainda em relação aos espaços de Sebo na cidade. Infelizmente, até o fechamento da matéria, não tivemos retorno.

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