Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Opinião

Especial: Primavera colombiana ou a revolução dos violinos

Por: SIDNEY NICÉAS
Colômbia explode: o escritor colombiano Carlos Sierra traz um relato indispensável sobre os graves protestos atuais na Colômbia

Foto: Luisa Gonzales/Reuters/Arte Tesão Literário

23/05/2021
    Compartilhe:

*por Carlos Sierra

Lucas Villa, de 34 anos, está no chão ensanguentado. Faz alguns segundos que o estudante de Educação Física da Universidade Tecnológica de Pereira recebera oito tiros num atentado contra um posto de vigília, que ele e outros jovens mantinham numa ponte emblemática dessa cidade do centro da Colômbia, como parte da greve nacional – ou “Paro Cívico Nacional” – que desde o dia 28 de abril até hoje vem acontecendo nesse país sul-americano por causa, na origem, de um projeto de ajuste fiscal que lesava principalmente a classe trabalhadora.  

“Temos recebido denúncias críveis sobre 58 mortes ocorridas na Colômbia desde que começaram os protestos”, afirma José Manuel Vivanco, diretor para as Américas da Human Rights Watch, em sua conta no Twitter. “Até agora temos confirmado que 19 destas mortes (18 manifestantes e um policial) têm relação com as manifestações”, e relata que aumentam a cada dia que se mantém a greve.

Outras fontes, como a ONG Temblores, num informe recente, falam de 2.387 casos de violência por parte da Força Pública, entre os quais destacam, além dos homicídios, 1.139 detenções arbitrárias e 27 casos de violência sexual. O informe não inclui os desaparecimentos, mas só na cidade de Cali se fala em 108 desaparecidos.

O fator que tem marcado esta greve, uma das mais sangrentas dos últimos tempos, num país que historicamente tem vivido em meio à violência, é o uso desproporcional da força por parte da polícia, e em geral das forças armadas, que literalmente tem resultado numa orgia de sangue contra a população. E tal a quantidade de vídeos divulgados nas redes sociais e os casos documentados, será impossível ocultar e negar muitos destes fatos, onde, entre outras atuações que ferem os Direitos Humanos, podem se ver “civis” armados disparando contra a população e acompanhando ou sendo protegidos pela polícia. 

Um vídeo mostra Lucas recebendo alimentos trazidos pelos apoiadores (numa análise posterior, pode se ver um feixe de laser azul marcando ele) e, momentos depois, o som de um carro chegando e os disparos. As imagens em movimento não conseguem documentar os atiradores, mas sim o resultado; mais tarde Lucas seria conduzido em estado grave ao hospital onde, dias depois, foi declarada sua morte cerebral e o decesso. Nesse mesmo dia, outros 13 jovens que participaram da marcha ficaram feridos.

Como se estivera predestinado a converter-se tristemente num dos símbolos desse protesto, surgiram vídeos mostrando Lucas em diversos momentos desse dia da “Marcha pela paz”, começando por aquela manhã, quando ele dá a mão a um grupo de policiais que resguarda a praça central onde se congrega a marcha. Noutro o vemos fazendo cambalhotas de ginástica. Noutro ainda, dançando. E em outro mais fazendo equilibro na grade de uma ponte enquanto a marcha avança... de maneira premonitória ele grita frente a uma das câmeras: “Estão nos matando”.

O que vemos nesses vídeos contradiz a imagem de vândalos que a principal mídia colombiana, aliada ao governo, quer passar para o público. A marcha é pacífica e a manifestação parece mais carnavalesca que um ato de guerra... por isso não se compreende que no final desse dia, Lucas e seus colegas, na sua maioria jovens estudantes, fossem alvos daquele atentado do qual certamente eram objetivo. Poderíamos deduzir que a notoriedade de sua alegria fez chamar a atenção de quem não gosta da paz e, sim, da violência.

As notícias de cada dia e as postagens das redes sociais trazem novas tragédias de distintos lugares do país, especialmente da cidade de Cali, onde os corpos começam a boiar no rio Cauca, e Bogotá, a capital, onde apareceu a cabeça decepada de um jovem frente a uma escola. É como se a polícia atuasse coordenada em todos os pontos onde se apresenta o protesto social. No início as manifestações são pacíficas, mas quando avança a tarde começam os confrontos, muitas vezes iniciados pelas forças do Estado, que parecem estimular a briga. A noite se converte no espaço do terror, e em torno dos lugares do protesto a energia elétrica e a internet desaparecem; as únicas luzes são as das explosões do aterrador artefato “venom”, que estreia a força antimotins. Logo no meio da obscuridade surgem caminhonetes suburbanas de luxo com “gente de bem”, como querem chamar-se, disparando contra os manifestantes.  

“Temos dado instruções a todos os níveis da Força Pública para que, nos territórios com prefeitos e governadores, utilizem a sua máxima capacidade, para que dentro da proporcionalidade e do estrito cumprimento dos Direitos Humanos, recuperemos a mobilidade”, comunicou em cadeia nacional o presidente de Colômbia, Ivan Duque, no último dia 17, sem fazer críticas à atuação policial que vem espancando, disparando e usando tanques, artefatos dissuasores como gases, balas de borracha e o “venom”, como armas lançadas diretamente contra os corpos dos manifestantes, ocasionando feridas, perdas oculares e até mortes.

Apesar do governo nacional, como resultado das marchas, tenha retirado a reforma fiscal e o Ministro de Fazenda sido dispensado para outro cargo, os protestos continuam há mais de um mês, já que se bem esta reforma visava ajudar aos mais pobres, lesava  à classe média sem atingir os mais ricos, ao mesmo tempo em que estavam em marcha reformas como a da saúde, e não avançavam outras, como a necessária reestruturação das forças armadas e as reivindicações surgidas na greve de 2019, que foram esquecidas pelo governo, assim como a implementação do tratado de paz feito em 2016 com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC.

A Colômbia é governada tradicionalmente por uma classe dirigente minoritária, que se divide entre os partidos Liberal e Conservador, que chegam ao poder por outras siglas partidárias derivadas deles, segundo permite a constituição, mas que na prática não tem grandes diferenças e que mantém à margem qualquer expressão política por fora da sua esfera, especialmente de esquerda. Lembremos que no passado, por exemplo, foram assassinados 4.000 integrantes de um só partido político, a “Unión Patriotica” (UP), surgida nos anos oitenta, produto de um intento de diálogo com as FARC. 

Algo que unifica todo o protesto é o rechaço à figura onipresente do ex-presidente Álvaro Uribe, líder do ultraconservador partido Centro Democrático, atualmente no poder, que nem bem tinha começado a greve chamou as forças armadas a se “defender” por meio do uso das armas. Uribe é acusado de criar os temidos grupos paramilitares vinculados ao narcotráfico que assolaram por décadas o país, e em cujo governo as forças militares cometeram um genocídio, pouco conhecido internacionalmente, que matou 6.400 civis entre 2002 e 2008, numa prática conhecida como “falsos positivos”, consistente em enganar jovens com ofertas de trabalho, logo vesti-los com roupas militares e assassiná-los como se fossem guerrilheiros, para cobrar uma recompensa do governo. Até agora Uribe tem conseguido se safar de todos os julgamentos.

É nesse contexto que surpreende a brutalidade da força policial, já que se está longe de acabar totalmente o conflito armado (ainda que tenha baixado a sua intensidade) e a força pública não consegue se adaptar a um cenário de paz, já que anteriormente o protesto público era sinalizado pela infiltração de grupos insurgentes e, hoje, a luta é contra jovens e contra mães, balas contra pedras, gases contra canções... violinos contra fuzis.

Assim, enquanto centenas de músicos saem nas ruas e praças com os seus instrumentos para invocar a paz, todos os dias nascem novos heróis... “Me manusearam até a alma”, foi a mensagem de Alison Salazar, 17 anos, estuprada pela força antimotins ESMAD, e filha de um policial que se suicidou depois dela ser liberada; Sebastián Quintero, de 22 anos e estudante universitário, morreu pelo impacto na aorta de um projétil aturdidor (o tal venom); Santiago Murillo estava sozinho na rua quando foi assassinado por um oficial da polícia, que já foi detido; Daniela Soto, líder indígena, foi ferida por dois impactos de bala quando um comboio de indígenas cruzava a cidade de Cali, e se encontra grave num hospital... dentre tantos outros na cidade litoral de Barranquilla, onde se joga a Copa Libertadores da América, sem que os gases lacrimogêneos que entram no campo e as explosões e gritos das ruas consigam interromper as partidas de futebol.

--

Carlos Sierra é um premiado poeta de Medellín (COL), atualmente radicado em Caruaru (PE), com experiência em outros segmentos artísticos e atuação cultural marcante, especialmente como coordenador da Feira do Livro de Medellín e colaborador do Festival Internacional de Poesía de Medellín. Colunista especial do Blog Tesão Literário, foi partícipe relevante no processo de Cultura Cidadã, que vem transformando esta conhecida e importante cidade colombiana.

https://twitter.com/sierracarlos7

https://www.temblores.org/comunicados

https://twitter.com/JMVivancoHRW

https://www.instagram.com/sierracarlosenrique/ 

https://carlosenriquesierra.wixsite.com 

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook