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Literatura

“Esses 30 anos seguem o caminho de águas que continuam descendo”

Por: SIDNEY NICÉAS
Conversamos com o escritor João Anzanello Carrascoza, que falou sobre os 30 anos de carreira, o livro novo e mais

Foto: Divulgação

27/08/2023
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*Por Ricardo Mituti

Em abril passado, o selo José Olympio (Grupo Editorial Record) apresentou ao mercado Seleta: um mundo de brevidades, volume que reúne contos e fragmentos de romances do escritor paulista João Anzanello Carrascoza.

Para além do título per se, a obra celebra uma efeméride: os 30 anos de carreira literária de um dos mais premiados e reconhecidos autores brasileiros da contemporaneidade.

Carrascoza é autor dos afetos, embrenhado em solidões, silêncios e perdas, mas também em amores, cumplicidades e metáforas que tão bem sintetizam o que é o viver. Aliás, o João por trás do Carrascoza também gosta de falar por metáforas e imagens. Como o faz nesta entrevista exclusiva concedida ao Blog Tesão Literário, deste portal Ver Agora.

Ao comentar sobre as três décadas de produção artística, João recorre a águas que caem. Para falar sobre amor e velhice, cita montanhas e ventos. Ao refletir sobre o tempo, compara-o com o degustar de um bom vinho. 

Nem mesmo o ínfimo escapa da lupa poética de Carrascoza para justificar a opção por temas mais áridos, ainda que inexoráveis: “O ínfimo é um momento grande, porque é irrepetível; ele agora só pode ser retrabalhado pela memória e pela invenção do escritor. Por isso, no meu caso, esses temas estão um pouco mais intensos, mais iluminados”, explica ele.

Presença confirmada na 14ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco – que acontece entre os dias 6 e 15 de outubro, em Olinda -, João Anzanello Carrascoza, nesta entrevista, também fala sobre outros dois lançamentos recentes: Inventário do Azul e O Céu Implacável, espécie de díptico que em alguma medida perpassa a biografia do homem João – sem que seja autobiográfico – e aproxima seus leitores de questões profundas e reflexivas, tais como a morte e o isolamento.

A entrevista completa de João Anzanello Carrascoza ao Blog Tesão Literário pode ser conferida no podcast disponível no portal Ver Agora clicando AQUI. Abaixo, os principais trechos do bate-papo:

 

RICARDO MITUTI- Qual o balanço que você faz desses 30 anos de carreira literária, celebrados em 2023?

JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA- Sinto que é como se eu estivesse, que eu fosse desde sempre, desde menino, quando comecei a contar histórias, numa espécie de cachoeira, em que a água vai vazando, vai descendo. E ela está ativa, essa cachoeira; está jorrando. E conforme ela vai caindo – ou foi caindo nesse tempo –, ela foi passando por certas paisagens, ficando mais espremida, se tornando riachos, que seriam os livros de contos, depois se abriam, tornando-se braços de mar, que seriam os romances. Ou seja, essas águas literárias vêm há muito tempo nascendo, cortando e rasgando paisagens que são, no fundo, a alma leitora. E a gente tem que agradecer que tenha leitores. Isso é a grande alegria de um escritor. É o prêmio maior que a gente tem, que é ser lido, ter o reconhecimento de leitores de várias naturezas. Então esses 30 anos seguem esse caminho, de águas que descem, de águas que continuam descendo.

RM- Inventário do Azul e O Céu Implacável, dois de seus livros mais recentes, são narrativas que perpassam a biografia do homem João Anzanello Carrascoza?

JAC- Inventário do Azul foi escrito durante a pandemia. Foi um livro que, acredito, também aconteceu com muitos outros escritores do mundo, que tiveram essa necessidade, obrigação, foi algo compulsório, de ficar confinado, e acabaram fazendo uma busca também na sua história; que aproveitaram esse tempo que estavam ali para rever o seu caminho. E nesse livro eu queria escrever sobre um escritor. Como esse sujeito vê sua vida, o que ele utiliza no seu processo criativo, como é a existência dele em relação a tudo que ele foi construindo. Nessa situação, achava que precisava colocar coisas minhas, do escritor, e não do narrador que estava contando aquela história. Na sequência, veio a ideia de que esse cara escreveu sobre a vida dele, mas depois ele ficou confinado também, como todo mundo. Surge então o desejo e a necessidade de continuar a história, de pôr esse personagem numa situação mais dramática ainda, que é ser um idoso, não ter mais os filhos com ele, estar fechado numa casa e não ter mais o que lembrar, porque o que lembrou já está no Inventário do Azul. Agora é o que vem pela frente. Foi quando me senti desafiado a escrever O Céu Implacável.

RM- Em ambas as obras, você aborda, entre outros, temas como solidão, solitude e a passagem do tempo – sintetizado sobretudo pelo envelhecimento. Aos 61 anos de idade, em que medida estas são questões que te afetam?

JAC- De fato, são temas forçosos, inegáveis, mas que acredito que sempre estiveram comigo. Meu primeiro livro se chama Hotel Solidão. Esses temas já estavam ali; tem personagens [em Hotel Solidão] que são idosos – embora eu não fosse [quando os criei]. Acredito que conforme você vai avançando, a porta de saída pode ser aberta a qualquer hora, em qualquer idade, como pode acontecer agora com uma pessoa que seja jovem, por exemplo. E a gente, tendo contato com jovem, acaba dizendo para eles: “entregue-se à vida, porque ela pode acabar amanhã”. Jovem não pensa muito nesse amanhã imediato. Já a gente começa a ver que por mais que a gente tenha vivido e que tenha sido uma experiência transformadora, incrível, assombrosa, ela vai terminar. E para quem já viveu um certo tanto, o que tem pela frente vai ser menor. Pode ser até mais intenso, mas vai ser menor. Então você vai vendo o tempo e vai entendendo como ele é a moeda mais preciosa que você tem e a que você vai destiná-la. Isso vai ficando uma coisa muito mais forte. Essa consciência eu acredito que é poderosa, porque ela faz, a mim, pelo menos, acordar agradecendo o dia que eu ganho, porque poderia ser um dia que eu não tivesse ganho. É um dia a mais que eu trago. Ainda que eu possa nesse dia relembrar as perdas, estar muito mais tocado por uma perda ou outra, é um dia que me trouxe algo, um dia que me foi dado, um dia grande, nesse sentido. Tudo é grande para mim. O momento é grande. O ínfimo é um momento grande, porque ele é irrepetível e me foi dado; ele agora só pode ser retrabalhado pela memória e pela invenção do escritor. Por isso, no meu caso, esses temas estão um pouco mais intensos, mais iluminados. Nesse sentido, eles têm mais sulcos no caminho. Mas, como eu disse, me lembro que eles também já estavam [no começo de carreira]. Ou seja, talvez eles sejam pertinentes ao tipo de escritor que eu sou. Então acho que a gente tem que dar expressão a eles, quando eles são as nossas vértebras principais ou quando também estão aparecendo.

RM- Numa época em que retardar a velhice se tornou uma das prioridades da ciência e uma obsessão de muita gente, o que mais te aflige com a passagem do tempo?

JAC- O tempo é inabalável. Ele vai passar – ou nós passaremos juntos com ele. Mas a oportunidade de ter a vida, para nós, foi dada para ser vivida aos pedacinhos, e não de uma vez só. O que é muito bom, porque é como a gente beber um bom vinho: se a gente bebe numa talagada só, vai se embriagar, e isso talvez não tenha sentido nenhum. Já se a gente vai tomando aos poucos, vai sentindo o sabor das experiências, e aí eu acredito que você vive o tempo. Você saboreia o tempo e não só vê ele passar; você vai com ele. É como você estar no vento: você está junto com o vento, não é o vento que está passando; você está com ele. Então você é o tempo também, você é o tempo seguindo. Então vamos com o tempo. Vamos com ele sem temor, porque não é o momento final que interessa; é o momento de agora.

RM- Em O Céu Implacável, você escreve que “morrer é o presente dado à vida que se cumpre”. O cidadão João Anzanello Carrascoza concorda com essa passagem? Qual sua relação com a morte?

JAC- Acho que esta é uma posição filosófica admitida por esse narrador com a qual eu tenho convergência, porque desde sempre, para mim, a perda significa algo que será impossível banir da nossa existência – ou seja, a dor não há como resolver; a dor sempre estará conosco, como se fosse aquela ferida que estará lá. Você pode recobrir, abraçar, mas no outro dia ela voltará. Então há que se buscar abraçar essa dor, por vezes, pela literatura, pela arte, pelo carinho. De alguma forma isso é possível, a gente sublimar essa dor e também acolher, abraçar o outro com nossa compaixão. E se a gente escreve sobre a perda e ela nos fere, nos dói, é porque ela veio de alguém que a gente amou. Então ter tido alguém que a gente amou é mais do que um ganho; é um ganho gigantesco, uma façanha, uma oportunidade. Não foi uma pedrinha; nos deram uma montanha, com a qual a gente pôde ter uma ligação, um aprendizado, um vento no rosto. A gente teve, digamos, de uma pessoa, essa posição de montanha. A gente pôde conviver com ela. Mas depois ela se vai, vira um átomo, desaparece, só está na nossa memória. E especificamente em relação à frase do livro sobre a qual você pergunta, a gente vai chegar ali também. E vale lembrar que terminar a vida, para muitas culturas, é um momento de celebração. Você cumpriu uma jornada, você fez. Há que se chegar nesse ponto. Claro que, para nós, a vida é o percurso; a vida não é o que termina; a vida é tudo o que foi vivido. E o momento que termina é o momento no qual se supõe que não há consciência. Então você nem sabe que perdeu tudo. Você deixou uma história. Sua história termina. As histórias têm que ser fechadas.

 

*Confira a entrevista completa em nosso Podcast Tesão Literário, clicando no link abaixo:
https://soundcloud.com/veragora/joao-anzanello-carrascoza-no-tesao-literario

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O Céu Implacável, de João Anzanello Carrascoza

https://www.amazon.com.br/c%C3%A9u-implac%C3%A1vel-Jo%C3%A3o-Anzanello-Carrascoza/dp/8556521711

 

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