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Opinião

Estamos aptos a entender artistas como Marianne?

Por: SIDNEY NICÉAS
Mais do que apenas em memória de Marianne Peretti, Geórgia nos traz a importância dessa grande Artista, não só para o Brasil, mas para a arte. Imperdível. Leia agora, no Tesão Literário.

Foto: Reprodução/Especiais JC online

30/04/2022
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*por Geórgia Alves

Marie Anne Antoinette Hélène Peretti: se você não é capaz de reconhecer o nome, certamente não foi capaz de reconhecer a figura bela, superiormente cativante de Marianne Peretti, para além de ser das mais bem-sucedidas artistas do gênero. É inestimável seu legado. E este texto não vem relacionar sua obra tri ou supra dimensional, de modo a remeter o inexato e inalcançável a qualquer forma de taxinomia. 

Aviso de antemão – nenhuma palavra dará conta soando simplesmente palavra. Ainda mais sendo minha, então, apelo à anterioridade dos fatos e remeto aos termos de alguém que leitor e leitora bem conhece o nome e atribuiu aos “vitrais maravilhosos” tais adjetivos para quem criou para a Catedral de Brasília, a chapelaria do Senado e outros lugares na capital brasileira obras de “um excepcional talento”. As aspas remontam ao que firmou Oscar Niemeyer sobre Peretti. 

Oscar convidou Marianne e ela foi a única mulher a compor o grupo de artistas responsáveis na construção do conjunto de edificações que simbolizam a capital brasileira diante dos olhos do mundo. A jovem havia estudado escolas francesas e exposto individualmente nas “Galeriés de France”. Descoberta muito antes pela arquiteta pernambucana, Janete Costa, que por Niemeyer. A vocação de Marianne para criação e perturbação de ordem vigente dada superou em muito o que pode abarcar as arcadas de academias. A criação desta artista está para além da busca do essencial, de estar em sintonia com o transcendente na Arte. 

Marianne tem no currículo episódios de expulsões no Lycée Moliére e Lycée Victor Duruy por fugir das aulas “para pintar”. E nem sempre o país reconheceu sua excepcionalidade, digo isso dado o triste episódio envolvendo o trabalho intitulado Alumbramento, no ignóbil ano de 1990 - do qual não se pode dizer que completamente nos curamos - quando o painel da artista executado em perfis metálicos e vidros em face fosca para o prédio o salão branco do Senado fora acintosamente deixado por dez anos em um porão. 

Refinada composição feita de inovadora técnica tridimensional que acolhe duzentas peças produzidas no ano de 1978 em Stained glass com dez metros de extensão e quase três metros de altura. Suas formas curvas remetem a pássaros e a sugestão de outras formas aladas. O caso foi denunciado pela Imprensa e levou uma empresa de Recife a propor a recuperação diante da curadoria cultural a fins de restauração e reinstalação. 

À época, diante da exposição A Arte Monumental de Marianne Peretti promovida no Museu Nacional da República, exposição de trinta peças da artista, em Brasília, diante desse acordo a circunstância terminou por permitir a reinauguração e reintegração ao local de origem em outro cenário político, no ano de 2016. Seria inevitavelmente reduzir a experiência se arriscasse listar inúmeras e inestimáveis contribuições de Peretti para a Arte Brasileira. 

De modo alguém é minha a intenção encontrar palavra que traduza a grandeza de seu trabalho por definições ou títulos das obras. Talvez a própria narrativa da obra e da vida de Marianne Peretti traduza parte do que significa tê-la, na maior parte de sua existência, morando em Olinda e ainda no Brasil desde a década de 50. Marie Anne estudou pintura e desenho da École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs, sendo a mais jovem da turma a partir dos 15 anos. Estudou em Montparnasse, na Académie de La Grande Chaumiére, tendo aprendido técnicas com Édouard Goerg e Françoise Desnoyer. E expondo pela primeira vez em mostra individual na Gallerie Mirador. 

Filha da modelo de origem francesa Antoinette Louise Clotilde Ruffier e do historiador pernambucano João de Medeiros Peretti no dia 13 de dezembro de 1927. Faleceu no dia 25 de abril de 2022 no Hospital Português do Recife. Envio daqui meus sinceros sentimentos à filha Isabella Peretti, com que esteve no Congresso Nacional revisitando suas obras. As cidades do Rio de Janeiro, Turim, na Itália e Le Havre - na Maison de La Culture - na França tem obras de Marie Anne Peretti. O corpo é sepultado neste sábado, 30 de abril, no Cemitério do Campo da Esperança em Brasília. Artista que não pode ser senão mais-que-lembrada e por muito tempo. Seu legado nos alumbrará ad infinitum, transportando a outro mundo, não apenas da precisão, mas da delicadeza, não somente da matéria, da alma. Alumbrando em devaneios. 

 

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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