Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Opinião

Exclusivo: cadê o livro, candidatos a prefeito do Recife?

Por: SIDNEY NICÉAS
Todos os programas dos candidatos a prefeito do Recife foram analisados. Será que o livro é mesmo tema tão irrelevante para a(s) cidade(s)?

Foto: Arte Tesão Literário/Reprodução da Internet

08/11/2020
    Compartilhe:

*por Sidney Nicéas

O Blog Tesão Literário analisou todas as propostas dos 11 candidatos a prefeito do Recife. Da mais elaborada a mais pífia. Buscamos tudo o que pudesse estar relacionado ao livro: fomento de negócios – livrarias, editoras, eventos etc –, bibliotecas, livros nas escolas, valorização dos autores locais... Lemos com cuidado os itens relacionados à educação e à cultura, pilares indispensáveis (e todas as propostas as incluíram junto com outros segmentos, como esporte e lazer) e procuramos links em áreas como empreendedorismo e gestão. Lemos tudo, na verdade. E o resultado foi, infelizmente, o esperado.

De todos os 11 programas, 08 não possuem absolutamente nada sobre o tema: Charbel Maroun (NOVO), Cláudia Ribeiro (PSTU), Delegada Patrícia (PODEMOS), João Campos (PSB), Marco Aurélio Meu Amigo (PRTB), Marília Arraes (PT), Thiago Santos (UP) e Victor Assis (PCO). Nada. Nenhuma linha. Dos principais postulantes, tomando como base as pesquisas de intenção, o candidato Mendonça Filho (DEM) faz parca alusão à criação de um calendário de eventos para a cidade, que inclui eventos literários. Só. O candidato Alberto Feitosa (PSC) também faz modestíssima e indireta alusão ao livro em seu programa, referindo-se à criação de livrarias (e de um monte de outros segmentos) na proposta de transformar espaços abandonados em espaços de convivência. Também sem maiores detalhes.

Somente o candidato Carlos Andrade Lima (PSL) dedicou algumas linhas ao tema (até abriu seu programa com uma frase de Cecília Meireles): refere às Criatecas, que seriam bibliotecas com livros relacionados à educação formal e ao meio ambiente (literatura não, subtendemos); disseminação de livros através de pequenas bibliotecas nas comunidades (mas não especifica que tipo de livros, se didáticos ou literários); programa de leitura nas ruas (subentendemos que seja leitura literária, embora isso não esteja especificado); e bibliotecas nas praças (sem especificar se os livros de escrita literária estarão presentes). Ainda assim, nada sobre fomento de negócios ligados ao setor ou sobre outros temas ligados ao livro.

Para a cientista política Priscila Lapa, o clássico desinteresse pelo tema passa por propostas políticas sem maiores consistências. “A ausência de propostas para o setor literário ou a inexistência de propostas mais aprofundadas refletem o esvaziamento programático das campanhas e, mais profundamente, dos nossos partidos políticos. Partidos sem agendas estruturadas para os diversos setores da sociedade vão ter candidaturas igualmente vazias de projetos. Fala-se muito em educação, mais como um apelo discursivo do que como um eixo estruturador de uma sociedade. Se não avançamos nessa discussão é porque a própria população já se deu por vencida e não espera mais por mudanças significativas, ela própria não tem o seu projeto de educação fortalecido, estruturado. Isso é muito grave”, explica.

Priscila ainda arremata: “Nesse vazio de proposições, há a clara aceitação pela maioria das pessoas de que nada pode ser feito. É uma passividade que se volta contra a própria sociedade”, conclui.

NOSSA OPINIÃO

Ano eleitoral é sempre mais do mesmo, pseudorrenovação, discurso velho em rótulo novo (ou nem tão novo assim). O compromisso cívico do voto pelo cidadão é esmagado pela falácia, interesses de grupos específicos e outros fatores que não espelham a necessidade coletiva. Pra piorar, o brasileiro não compreendeu ainda que deve cobrar ações de quem ganha, sejam “seus” votados os vencedores ou não. No meio desse buruçu, temas indispensáveis para o desenvolvimento humano são deixados de lado por aqueles que deveriam estar atentos ao pleitear um cargo eletivo – e, tão ruim quanto, acabam passando despercebidos pelo eleitor. O livro é um desses temas.

Pode ser que você ache exagerado, mas não é. O livro, o letramento, a leitura, o desenvolvimento léxico e intelectual, a fruição, a imaginação, o pensamento crítico e tantos outros atributos advindos desse SER fantástico que é o livro, são vitais para o desenvolvimento de uma nação – e é preciso que a leitura literária seja também parte da vivência social. Num país com milhões de analfabetos reais (e mais umas duas vezes esses milhões de analfabetos funcionais) e de poucos leitores proporcionalmente falando (ainda mais nas classes mais baixas), a nossa realidade seria outra se a questão do livro fosse levada a sério. Inclusive, teríamos eleitores muito mais conscientes do próprio poder de transformação.

O exercício que fizemos ao explorar todas as propostas dos candidatos a prefeito do Recife deveria ser feito por todos os eleitores, em todas as cidades. Saber o que propõem para cobrar lá na frente, seja quem se sair vencedor. Fomos buscar propostas para o livro, o mercado livreiro e editorial, autores locais, bibliotecas etc (o resultado você leu acima), mas lemos todos os eixos de cada área. Pior foi constatar que muitas das propostas não têm profundidade, algumas com pouco ‘tutano’, outras feitas com cara de desleixo, como se não fossem ser utilizadas depois para cobranças pelo eleitorado (e até aqui isso de fato pouco tem acontecido) – e como muito bem frisou Priscila Lapa, temos, enquanto sociedade, uma responsabilidade imensa por todo esse desleixo político.

O resultado do nosso levantamento deveria ser assustador, mas não surpreende (infelizmente). Acordemos. O Recife, e toda e qualquer cidade brasileira, capital ou não, necessita de enormes incentivos ao livro: livrarias nos bairros; bibliotecas multiplicadas e ativas; desenvolvimento do setor editorial com geração de empregos também nos segmentos de produção, distribuição e venda de livros; estímulos para a profissionalização dos atores que fazem literatura (escritores, ilustradores, editores, revisores, capistas, diagramadores, agentes literários...); fomento para a realização de eventos de leitura e de feiras do livro; autores locais também lidos nas escolas e seus livros como paradidáticos na rede pública; incentivos fiscais para baratear o custo do livro; flexibilização das leis para autores independentes; programas de tradução de livros de autores locais para o mercado internacional; editais municipais de incentivo com contrapartidas para a população; enfim, fomento e investimentos que impactem positivamente também o capital humano. Falar em educação e cultura sem considerar o livro com toda a sua abrangência é um tremendo engano (ou seria engodo?).

Talvez você ache que a gente esteja puxando a sardinha pra nossa rede (falamos aqui do livro, mas isso vale para todas as áreas da arte, da cultura e da educação). Talvez sejamos somente sonhadores. Talvez esses talvez sejam implodidos pela forçada cegueira de candidatos e pela letargia de todos nós, eleitores. Mesmo assim, vamos continuar lutando pelo que acreditamos, na construção de uma sociedade mais justa, ativa e pensante. Nós e uma ‘tuia’ de gente que sequer está considerando esses talvez, gente que tem Tesão Literário tanto quanto nós. E se você quer uma nação mais consciente, letrada e cívica, cobre do seu candidato ou candidata propostas para essas áreas aqui citadas. Sua cidade agradecerá.

Senhoras e senhores candidatos, estamos à disposição para que se pronunciem – se é que tudo o que foi aqui levantado de fato lhes interesse.

--

Clique aqui e confira os programas de governo dos candidatos a prefeito do Recife, em matéria especial feita pelo G1 Pernambuco e que contém links para todos os programas.

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook