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Opinião

Flávio Brayner: adeus à liberdade?

Por: SIDNEY NICÉAS
O professor Flávio Brayner faz profundas reflexões acerca da democracia no mundo de hoje e questiona a “liberdade moderna”

Foto: Zachary Keimig/Unsplash

31/01/2024
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*por Flávio Brayner

Aproximadamente 1/3 de minha vida foi passada sob uma ditadura que provocou danos emocionais importantes em minha família. Aliás, não precisa ser historiador de profissão para perceber que nossa história republicana foi marcada e pontilhada por golpes - e suas tentativas- contra a democracia: 1889, 1891, 1930,1937, 1945, 1954, 1961, 1964, 1967, 1968, 1977, 2016, 2023... Ou seja: o Brasil é um curioso país que tem 5 estações: Inverno, Verão, Primavera, Outono e Golpe contra a Democracia!

Em 2024 comemoraremos os 40 anos da grande campanha pelas “Diretas já!”, com os grandes e mobilizadores comícios que tomaram as praças do país e arregimentaram movimentos da sociedade civil em uma frente que terminou por inviabilizar a continuidade política da ditadura.

É verdade que temos razão –depois do 8/11- de comemorar aquele evento cívico de 84. Mas antes de festejarmos a Democracia, precisamos nos interrogar por que ela provoca tanto ódio, ao ponto de que países com tradição republicana e instituições democráticas sólidas estão vivendo (ou revivendo!) a emergência de grupos políticos de ultra direita (França, Alemanha, Bélgica, Itália, EUA, Portugal, Holanda...). Arrisco algumas hipóteses (que vão além do banal “ódio aos políticos”, ou à “política tradicional” protegida por “imunidades e foros privilegiados”.

A Democracia - não custa repetir- não é mais um regime político: é o regime que permite a existência da política, quer dizer, onde os indivíduos (e a democracia nos convoca a ser “indivíduos”), que não devem estar submersos na “massa” (paraíso dos populistas) e que podem se levantar no meio da praça e dizer “- Eu discordo!”, e nem por isso ser preso, perseguido, torturado ou morto, e poder confrontar seu ponto de vista com o dos outros.

Ocorre que a Democracia é aquele “lugar” da incerteza (nunca saberemos onde termina aquilo que a Democracia começa e decide: Hitler foi eleito!), e onde todos os pontos de vista podem ser contestados, perturbando a “ordem”, a “hierarquia”, a “tradição”, a “autoridade”. Quer dizer, o preço da liberdade (de expressão, de organização...) é a aceitação da emergência eventual do recalcado social, aquilo que precisamos reprimir para supostamente construir a cultura e a civilização (a tese de Freud no “Mal-estar na civilização”): gêneros, identidades, individualismos, consumismo patológico, novos investimentos subjetivos... colocam de volta na arena o dilema entre uma liberdade imprevisível e uma segurança totalitária.

A Liberdade foi a grande obsessão moderna! Mas a liberdade “moderna” é diferente da liberdade dos antigos: entre os Gregos a liberdade era exclusivamente pública, exercida por alguns no interior da Pólis; entre os modernos, ela é essencialmente privada, característica das democracias liberais, o que coloca o eterno problema de como constituir uma Sociedade Civil ou uma Vontade Geral com tantas individualidades e interesses diferentes (B. Constant). Enquanto aceitarmos que a liberdade pública exige certa renúncia aos interesses privados (a noção condorcetiana de “virtude republicana”. Roberspierre achava que a República era o “reino dos virtuosos”), as coisas funcionam. O problema é quando não queremos mais renunciar ao interesse privado em nome de um “virtuoso” espaço público dominado pela corrupção. A questão é que, numa sociedade que alia HIPERCONSUMO com TECNOLOGIA DIGITAL, em que imaginamos que as redes sociais ampliam o espaço público em capilaridade e horizontalidade, ocorre o contrário: um TOTALITARISMO LIGHT. 

Já ficara claro que os novos populismos autoritários não seriam mais aquelas pantominas do hitlerismo ou do mussolinismo: as tecnologias atuais não são apenas redes mundiais de comunicação e troca, mas especialmente a cartografia detalhada de cada subjetividade que a acessa: gosto, preferências sexuais, livros que lê, filmes que assiste, conversas que entabula, lugares que frequenta, compras que realiza, expectativas que alimenta na profissão, no amor...: Nenhum estado totalitário chegou tão longe nessa “cartografia subjetiva” voltada para definir perfis de consumo e de comportamento. NÃO MAIS UMA DEMOCRACIA DE CIDADÃOS, MAS UMA DE CONSUMIDORES NARCISISTAS E IMATUROS.

É neste sentido que imagino que a liberdade permitida pelo individualismo liberal transitou do espaço público para o mercado: o primeiro exigia manipulação da CONSCIÊNCIA via ideologia (que tinha seu contrapeso numa “educação crítica e conscientizadora”), o segundo exige a manipulação do DESEJO via marketing. O que é uma Democracia em que a dominação (antes ideológica, mas dispondo da vigilância crítica) funciona a base da instrumentalização do desejo, que é infraconsciente? Estamos dando adeus à Democracia? Estamos, finalmente, nos “libertando da liberdade”, a grande obsessão moderna?

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Flávio Brayner é Professor Emérito da UFPE e Visitante da UFRPE.

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