Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Opinião

Flávio Brayner: Sobre a Idade da Técnica

Por: SIDNEY NICÉAS
Em mais um texto contundente, o professor Flávio Brayner critica com maestria o lugar que nos impomos.

Foto: David Clode/Unsplash

11/05/2022
    Compartilhe:

*por Flávio Brayner

“E Deus disse: façamos o Homem à nossa imagem e semelhança; que ele domine os peixes do mar e os pássaros do céu, os animais domésticos, todos os animais selvagens da terra e todos os répteis que se arrastam por sua superfície” (Gênesis 1;26). 

Quando Bacon afirmou que precisávamos “torturar a natureza para que ela revelasse todos os seus segredos”, ou quando Descartes disse que precisávamos nos tornar “Senhores e Mestres da natureza”, eles apenas mostraram que a técnica moderna realizava o projeto inscrito na tradição judaico-cristã, diferente da tradição grega, para quem a Natureza era “Cosmos”, entidade integral, hierarquizada e harmônica e não lugar de domínio e poder. 

É aquela tradição que nos trouxe à Idade da Técnica e com ela, diz o filósofo Umberto Galimberti (“Psiche e Techne”), a era do SUJEITO acabou: viramos todos “MASSA” no interior das redes sociais, cuja manipulação numérica através da obtenção clandestina de dados de cada usuário (seu gosto musical, orientação sexual, posição política, consumo, amigos, leituras, comidas, roupas...) nos torna esta entidade dispersa e anônima, mas programável e planetariamente integrada. 

Acrescente-se a isso a diminuição do senso moral e de responsabilidade: o domínio público da mentira (fakes), a manipulação do desejo, os “cancelamentos”, o enfraquecimento do “superego” fazendo com que os maus percam a vergonha (e os bons a esperança!), tudo atravessado por uma injunção para qual já tínhamos sido alertados: a inversão meio/fim. 

Na idade pré-tecnológica nós supúnhamos que, como SUJEITOS, podíamos definir fins e usar meios (técnicos) para realizá-los. Mas a coisa se inverteu: não somente o próprio homem pode se transformar num ser programável, como também de “sujeito” da técnica ele se transformou em “funcionário” dela: até onde chegaremos não é mais uma pergunta ou tarefa da consciência, mas uma proeza técnica definida pela própria potencialidade dela: se algo é possível de ser feito tecnicamente, ele o será! O dito de Bacon (“Saber é poder!”) não vale mais: agora PODER É DEVER, e aquela porta sempre trancada que dava acesso ao quarto interdito do Castelo do Barba Azul foi finalmente aberta!

Quando Gitta Sereny (“No meio das trevas”) entrevistou o comandante do campo de extermínio de Treblinka, Franz Stangl, ele afirmou que “normalmente um comboio exigia o trabalho de duas ou três horas” (o trabalho de matar com gás e queimar cinco mil seres humanos). “Aquele era o sistema. E funcionava. E como funcionava!”. Giorgio Agamben vaticinou que Auschwitz não foi uma exceção praticada pelo “mal radical”: foi a antecipação de nossa época. 

Começamos pelos "répteis que se arrastavam”, terminaremos nos "répteis" que sonhavam utopias!

--

Flávio Brayner é Mestre em História pela UFPE, Doutor em Educação e Pós doutor em Filosofia pela Sorbonne (FRA), Professor titular da UFPE e ex-secretário adjunto de educação do Recife (2009-2010).

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook