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Opinião

Frederico Menezes: O Cabo já foi capital da cultura nacional

Por: REDAÇÃO PORTAL
O publicitário e escritor relembra uma época em que o Cabo de Santo Agostinho vivia em intensa efervescência cultural e turística

Foto: Reprodução internet

23/11/2020
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Frederico Menezes nasceu em Cabo de Santo Agostinho, PE, é publicitário, formado em Comunicação Social pela UFPE- Universidade Federal de Pernambuco e escritor renomado. Há trinta anos realiza palestras e seminários por todo o país, mais detidamente na região Nordeste.

Apaixonado por sua terra natal, neste artigo ele exalta um período quando a cidade viveu intensa efervescência cultural, valorizando o turismo de forma sustentável e colocando o Cabo em destaque no cenário nacional e internacional, com um protagonismo latente no setor em Pernambuco.

"O Cabo já foi capital da cultura nacional

Parece ser "fake news" ou exagero de quem escreveu o artigo tal afirmativa. Os que são mais recentes no município e até alguns mais antigos dos seus moradores podem já ter empurrado para os porões da memória este fato. Sim, nossa cidade já teve imensa destaque em todo país em função da grande efervescência cultural que viveu na década de 80. Essa pulsação cultural deu colossal contribuição para que o município superasse o apelido de Cidade da Morte, face ao alto índice de violência, e passasse a ser vista como a cidade em que algo diferente ocorria por suas ladeiras e casarões seculares no campo das artes, dos debates culturais e do turismo. Sim, para quem ainda não sabe, o Cabo de Santo Agostinho foi escolhido por especialistas do setor como o município turístico do ano em Pernambuco. 

Se alguém está perplexo ao ler este artigo, reforçarei o que digo especificando o que levou nossa cidade à tanta projeção naquela década já um tanto distante. Vamos lá:

- A cidade promoveu o primeiro congresso Norte- Nordeste de Teatro e a primeira Mostra de arte no mesmo período. Grupos de destaque do teatro não só da região, mas de todo o Brasil levaram ao deslumbramento os moradores e visitantes, fazendo com que os olhos da imprensa nacional se voltassem para o município;

- Nas terras de Pinzón foi também realizado o Encontro Nacional da Confederação do Teatro;

- O Cabo realizou o seu primeiro festival nacional de arte, auge de um movimento que impulsionou o nome da cidade por todas as regiões do país. Grupos de dança de todo o Brasil, expositores de artes plásticas de quase todos os Estados, o artesanato brasileiro, oficinas diversas de vários setores culturais, debates com extraordinários palestrantes, música de variada expressão por vários recantos da cidade, espetáculo de dança de grupos do Rio de Janeiro, são Paulo, Fortaleza em praça pública.  Nesta ocasião, toda a cúpula do Ministério da Cultura do Brasil veio ao Cabo assistir de perto o que ocorria nesta cidade, pois o país já não conseguia ficar indiferente a vibração cultural que impressionava até os mais descrentes. Para quem se tenha ideia do que escrevo, olhem como foi a manchete do tradicional e secular" Diário de Pernambuco" naquela ocasião: " Cabo - capital do teatro brasileiro”.

- Foi realizado um festival em homenagem ao grande sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, autor da obra prima Casa Grande e Senzala. 

- Gaibu, até então joia do litoral cabense, de beleza reconhecida, viu nascer em suas areias finas e junto às ruínas de sua história o Festival de Verão. Milhares de visitantes aportavam na praia para assistir desde o grupo Barão Vermelho, à época considerado o melhor grupo de rock do país, até a magnifica Orquestra Sinfônica de Recife, passando por grandes nomes da música regional.

- Um dos maiores sucessos teatrais do Nordeste, a peça " Um sábado em trinta”, montada pelo Teatro de Amadores de Pernambuco, se apresentou em nossa cidade, causando imensa admiração na cena regional pois o grupo teatral. Pouco saía de sua própria casa de espetáculos em Recife.

- Numa articulação impressionante junto à Fundarpe, fundação Roberto Marinho e grupo Votorantim, foi possível restaurar a igreja de Santo Amaro, carregada de história imensa onde, inclusive, se descobriu que se reunia grupo que trabalhava pela libertação dos escravos na cidade e no estado antes da promulgação da Lei Áurea pela princesa Isabel. Foram encontrados documentos que comprovam o movimento abolicionista no Cabo e que se reunia na igreja.

Esses são só alguns aspectos que levaram a terra de Pinzón ao destaque nacional. Até mesmo o programa Jô Soares Onze e Meia, apresentado pelo SBT, se rendeu à força do que ocorria no Cabo pois levou o pesquisador Luiz Alves Lacerda, para ser entrevistado a respeito do controverso tema: o Brasil teria sido descoberto no Cabo de Santo Agostinho pelo navegador espanhol Vicente Yanez Pinzón, antes de Cabral chegar em Porto Seguro, na Bahia.

Não foram as artes as únicas beneficiadas deste momento mágico e dinâmico vivido pela cidade. Pela primeira vez, Porto de Galinhas deixou de ser a principal notícia turística do estado. O Cabo conquistara a instalação do seu primeiro hotel cinco estrelas, o Blue Tree Park, hoje o hotel Villa Galé, instalado na praia de Suape. O município também sediou, pela primeira vez, a reunião do Associação dos Municípios Turísticos de Pernambuco - Astur.   E a cidade ganhou rica folheteria promocional de suas belezas naturais e história, confeccionado por competente agência de publicidade e com lançamento impactante para jornalistas e empresas de agências de viagem. Sucesso estrondoso, com artigos em vários jornais noticiando o fato. Também pela primeira vez o Cabo recebia o presidente da Empetur, Empresa Pernambucana de Turismo, para discutir ações que contemplasse a cidade. Não deu outra: nosso Cabo de Santo Agostinho foi escolhido por jornalistas especializados como o município do ano na área do turismo, superando grandes destinos turísticos badalados nacional e intencionalmente, como Recife, Olinda e Porto de Galinhas. 

Tudo isto foi uma luminosa realidade nesta terra de tanta história, talento e pujança econômica. Precisamos acreditar que podemos retomar esse dinamismo, esse destaque. A efervescência cultural está adormecida. Apenas adormecida. Não está morta. Os mesmos elementos que catapultaram um dia, a terra que "Pinzón pisou", permanecem guardados nas páginas da história ou numa dobra do tempo, esperando, ansiosos, serem libertados, para novamente fazer sorrir de orgulho a gente cabense. As memórias recordam o passado, mas também preparam o futuro. Na construção de uma cidade moderna e com qualidade de vida, a cultura e as artes são imprescindíveis. Não basta ter dinheiro. É preciso ter alma para ter vida.

Frederico Menezes

Escritor cabense e membro da Academia Cabense de Letras"

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