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Opinião

Fronteiras

Por: SIDNEY NICÉAS
O escritor e professor Flávio Brayner traz ao Tesão mais um de seus artigos, falando agora sobre a vida nas fronteiras.

Foto: Markus Spiske/Unsplash

08/11/2023
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*por Flávio Brayner

Quando o nome de Walter Benjamin retornou ao circuito acadêmico, no final dos anos 60, sobretudo quando se divulgou amplamente as condições trágicas de seu suicídio, em 1940, a prefeitura de Port Bou, na fronteira entre a França e a Espanha, resolveu tirar partido da situação e afixar, logo na entrada da cidade, um painel avisando aos passantes que ali estava enterrado o maior crítico literário e cultural do entreguerras, perseguido pelo Nazismo. Tudo enrolada! A concessão para uso da sepultura fora de apenas cinco anos e ninguém sabe onde os ossos, depois de 45, foram jogados...

Anos depois, um monumento-túmulo foi construído no local onde se supunha ficava a sua tumba e, aí sim, vale a pena o desvio e a visita. O monumento é um longo, estreito e labiríntico corredor de 15 metros por três de altura, sem teto, em granito preto onde se vê, ao fim do percurso, a imensidão azul do Mediterrâneo, para o qual o visitante é naturalmente atraído, mas, ao chegar ao fim depara-se com um espesso vidro que impede a passagem! Há um azul de liberdade do outro lado, mas bloqueado por uma barreira transparente e mortalmente impeditiva. Foi essa a experiência que o próprio Benjamin passou quando nunca conseguiu atravessar a fronteira espanhola.

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Numa passagem de “Em busca do tempo perdido”, Proust descreve o salão principal do Grand Hôtel de Balbec “como um imenso e maravilhoso aquário e, diante da parede de vidro, a população operária de Balbec, os pescadores e também famílias dos pequenos burgueses, invisíveis na sombra da noite, se amassavam diante do vidro para ver a vida luxuosa daquela gente”. Aqui, a barreira de vidro, ao mesmo tempo impeditiva e frágil, não é mais aquela que separa o azul da liberdade da granítica servidão, mas o das classes onde o luxo perdulário é espreitado, na noite escura, pela ameaça dos desvalidos que querem apenas uma oportunidade para transformar o festim em carnificina.

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Romand Roland, numa carta ao seu amigo Freud, lhe perguntava sobre certo “sentimento oceânico”: uma sensação de pertencimento cósmico que o próprio Freud confessava não compreender. A paixão, sobretudo a paixão carnal, parece ser essa tentativa de romper a fronteira irredutível que nos separa do Outro, integrando-o ao meu próprio corpo. Tentativa vã: o fim incontornável de toca paixão amorosa é o retorno solitário às fronteiras do Eu.

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O Fauno se vê diante de seu objeto, alvo de desejo e eternidade. Uma mesa de bar os separa, rasa e permeável fronteira que pode ser galgada por uma palavra, uma só e decisiva palavra: aquela única, inconfundível, que dará ao fauno a oportunidade de ser feliz. É preciso pronunciá-la antes que a tarde termine, que ela se vá. A oportunidade não aparece, os minutos se escoam, a angústia se eleva, a fronteira não é rompida. Súbito, ela se levanta, despede-se e se vai... Uma só palavra o separava da felicidade e ela não foi pronunciada. Essa é a situação-limite de “O entardecer de um fauno” de Bioy Casares.

Weimar era a cidade fetiche de Goethe, para onde ele se retirava nos momentos de decisão, e onde, em passeios kantianos e sob a sombra da famosa árvore dominando a entrada da cidade, ele viveu seus velhos dias. Símbolo mais acabado da “Aufklärung” alemã na literatura, Goethe, em seu humanismo universalista, achava que um dia não existiriam mais literaturas “nacionais”: toda literatura trataria apenas de uma coisa: do Homem! O campo de extermínio de Büchenwald ficava a apenas dois quilômetros de lá. Como é frágil a fronteira que separa a cultura da barbárie!

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Em 1975, Primo Levi respondia às perguntas de alguns alunos adolescentes italianos sobre seu livro “Si questo è un uomo” e dizia que, sem cinismo, aquele livro o tinha ajudado a suportar a experiência de deportado em Monovitz e que, depois dele, vivia uma vida normal. Havia um antes e um depois de seu célebre livro. Primo Levi suicidou-se em 1978.

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Somos fronteira e estamos condenados às fronteiras. E elas começam quando, ao nascer, ganhamos um corpo, que não é nada mais que as linhas que definem nossa presença espacial no mundo, os limites que permitem nossas sensações. Antes, no ventre materno, estávamos indissociados da natureza, integrados um no outro indistintamente, mas, ao nascer, fomos jogado em nossa irremediável solidão no mundo, circunscrita em um corpo-limite, corpo-fronteira, que separa um “aquém” do que sou, de um “além” do que não sou, do Outro, do espaço vazio e do nada!

(A todos os homens, mulheres e crianças condenados a perecer nas “fronteiras”)

 

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Flávio Brayner é Cidadão Pernambucano, Mestre em História pela UFPE, Doutor em Educação e Pós doutor em Filosofia pela Sorbonne (FRA), Professor Titular Emérito da UFPE e ex-secretário adjunto de educação do Recife (2009-2010).


 

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