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Opinião

Geórgia Alves: 666 (ou seis e meia dúzia)

Por: SIDNEY NICÉAS
A destruição de obras de arte e do patrimônio público fez Geórgia Alves sentar a mão num texto obrigatório para a reflexão nacional

Foto: Marco Jacobsen/Folha de Londrina

18/01/2023
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*por Geórgia Alves

Di Cavalcanti. Marianne Peretti. Dois dos artistas cujas obras foram danificadas ou destruídas no último dia nove de janeiro deste ano de 2023 já nos eram caras neste portal. Não vivo a vida de pintar em telas ou painéis de grande dimensão, mas como professora de Arte, de escola pública, sei bem o tanto de exigência com o corpo e o espírito. Então, venho aqui, humildemente, pedir que me dê a mão, para acompanhar compassiva e imediatamente, o que temos a dizer.

Como brasileira (ou brasileiro) é impossível não compreender o que significa tomar decisões, como fizeram os que invadiram o Palácio da Alvorada, Palácio do Planalto e Palácio da Justiça no último prédio e do Congresso Nacional, fazendo estragos significativos. É preciso dizer a estas pessoas que cometeram crimes contra o patrimônio do país: seis não é meia dúzia.

Arte não é somente um objeto, em si mesmo. Não apenas. A escultura de Bruno Giorgi (1905-1993) que representa os candangos (Guerreiros) é uma história contada por esta imagem, que inclui milhares de outros brasileiros que trabalharam na cidade projetada. Brasília é fruto de um período onde o Brasil buscava sua identidade e alguma afirmação política de real independência sobre outras nações que sempre nos oprimiram, uma busca para encontrar na Região Central do Cerrado do Brasil a construção, também, de uma imagem arquitetônica, estética, do equilíbrio entre os poderes. A pintura de Di Cavalcanti, um painel encomendado ao artista, embora traga no título a terrível herança de um substantivo ainda equivocado, na sua composição mostra a luta das mulheres brasileiras, negras, que sempre foram invisibilizadas, mas que sem elas não se construiria qualquer nação. 

O painel em vidro e aço, feito e entregue por Mariana Perreti, não é apenas um painel. O objeto é visto das mais diversas formas pelo olho que o observa e que está para além das fronteiras desse país, respeitando assinatura que nos cabe da nossa liberdade. Muitos não enxergam. Embora tendo olhos sãos, possam ver que nada daquilo representou qualquer sopro de afirmação da identidade de um país. 

Di Cavalcanti, de Emiliano, não é apenas o ser Emiliano Di Cavalcanti (1897 – 1976). Existe história e a trajetória que o levou até se tornar no Di. Aqui relatamos o fato que já nos entristecia até 2022, que foi a perda trágica do quadro “Samba”; agora houve danos à tela “Mulatas”.

Havíamos relacionado fatos que conduziram Di Cavalcanti, como ativo intelectual e artista, que propagou nossos valores subvertendo preconceitos aos olhos internacionais sobre nosso povo. Uma trajetória e um processo artístico, elaborado em cores e formas, o levou até o Salão Nobre do Palácio do Planalto pela extraordinária figuração do painel, pintado por ele entre 1960 e 1962. Di não chegou ao terceiro andar do Palácio por um acaso, como os invasores e que propalaram terror, neste nono dia de 2023, como bem disse Flávio Brayner, neste mesmo portal, a versão tupiniquim da Noite de Cristais. Não é apenas pelo fato da tela estar orçada em oito milhões de reais que as sete perfurações derramaram sangue simbólico no piso do prédio, que representa o poder, que figura como escolha do povo brasileiro.

Essas pessoas que saíram de suas casas a pretexto de lutar pela família ou pela pátria, e não passam de ignóbeis criminosos, ignoram o que representa o vitral “Araguaia”, esculpido e projetado sob assinatura de Marianne Peretti, também tema de observação fina, por ocasião da morte da artista que bem representa a Arte Brasileira mundo afora. Entre ignorar a obra, história, artista, o olhar de respeito que o mundo lá fora atribui ao trabalho legado, guarda mais distâncias com o real que estas pessoas – mal formadas – estupidamente imaginam. Artista brasileiro bem que sabe que não se está, jamais, livre do horror. 

Nem da ignorância.

E o que fez a bailarina de Victor Brecheret (1935-9153), arrancada do pedestal, encontrada no chão do Palácio, uma obra esculpida em 1920 com matéria-prima tempo anterior às transformações irreversíveis do século XX? E o relógio? Onde e quando ofendeu estes que se dizem amantes da pátria? A vênus Apocalíptica, de Marta Minujin, jogada do lado de fora do Palácio, quer dizer que estas pessoas, tão cheias de pecado – precisam dizer para si mesmas, várias vezes, e em vão, o nome de Jesus Cristo, Deus ou a palavra Igreja – em seus erros brutais, pregando a violência, devem estar dizendo: Os que erram também serão arremessados às pedras? Jogados das alturas, no vazio dos penhascos? Galhos da escultura de Krajcberg, que foram quebrados e jogados longe, sugerem que o mesmo destino poderia vir a ser o melhor para os que cometeram tais crimes?

Não vi o princípio que os movia quando invadiram Brasília, nada a lhes assemelhar aos detratores de Roma. Os mesmos dos arruaceiros e terroristas – e assim são chamados, enquanto fato constatado, pelo intuito de “provocar terror social generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade – integridade – nacional”, como reza – para usar uma palavra por eles gasta – a Lei Brasileira Antiterrorismo 13.260/2016. 

Não agiram, em conjunto, pelo princípio de quem vingava perdas. Não foram insultados em sua condição humana, votaram e perderam a eleição, ninguém lhes usurpou propriedades e lugares ou modos de existir, fizeram tudo por absoluta ignorância e incitação de terror e gratuita violência. Destruir, danificar obras de Arte, que representam a identidade nacional? 

Há, dentro e fora do país, algo muitas vezes mais mesquinho e inferior. Baixo. De atroz reducionismo com os valores que afirmam a elevação de um povo. É isso o que faz a Arte. Acho que não se deve, também, usar a palavra “Capitólio”, não existe tal lugar. Não no Brasil. É outra forma simplista de falsa propaganda de quem não tem este poder. Duvido muito que a ordem tenha vindo da mesma liderança americana. Vem de um núcleo político que perdeu as eleições no último pleito. Andy Warhol já pregava o desejo – e talvez o direito – de que, no futuro, todos teriam quinze minutos de fama. Este é o modo mais lúcido de ver. Porque: venhamos e convenhamos, generosidade atribuir a quem não tem crédito qualquer visibilidade.

Três prédios, patrimônio e monumento arquitetônicos representantes dos poderes políticos da Democracia Brasileira foram depredados, vilipendiados, e danificados, de várias e escatológicas maneiras, invadidos, sob uso de grande violência. Assim como o fizeram a diversas obras de Arte, ao Patrimônio Material e Imaterial do povo e da História do Brasil. Ao também material de uso efetivo para realizar o funcionamento desta democracia.

Peças de Alfredo Ceschiatti e Athos Bulcão também estão na relação de danos. O que dizer da própria cidade de Brasília? Erguida por toda força de candangos, tantas vezes figurando como símbolo e cartão postal do país. A obra de Bruno Giorgi (1905-1993) reflete um dos auges da utilização do bronze pelos modernistas brasileiros. Ele, que assina também a escultura “Meteoro”, tendo saído da cidade de Mococa (SP), estudado em Roma e escolhido voltar para o Brasil, entre 1930 e 1950, desenvolvendo o trabalho que compõe a identidade e figuração da mais icônica imagem no projeto arquitetônico de Lúcio Cardoso, execução do engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo, que é a capital Brasília. Composição de conjunto arquitetônico com alguma colaboração de Oscar Niemeyer.

Equipamentos e instrumentos de trabalho usados diariamente por trabalhadores, pagos com o dinheiro público, com o suor do rosto de toda e todo contribuinte, destruídos, danificados, a golpe de paus e pedras. Cena que imediatamente remeteu às frases de Einstein. O cientista que, tragicamente, antecipara, disse Albert: Não se sabe bem ao certo quais serão as armas usadas no terceiro conflito mundial. Mas é fatídico que as ferramentas de eventual quarto conflito sejam as mesmas usadas nestes atos criminosos contra a pátria, o patrimônio e os valores artísticos e a democracia brasileira: repito, paus e pedras. Não restando também em nós, dúvidas, pela lógica, não há de sobrar nada do mundo de antes. 

De todo trágico e dantesco evento, sim – não lamentavelmente não se pode chamar de “acontecimento” o que não surpreendeu, sendo inclusive antecipado, em diversos avisos, alertas, comunicados –, o mais simbólico é saber do painel do artista Jorge Eduardo, de 1995, intitulado “Bandeira do Brasil”, boiando na água da Praça dos Ministérios. Por fim, usarem mobiliário dos três poderes para atingir e destruir vidros do prédio do Congresso Nacional. 

Dizerem frases como, o exército brasileiro nos abandonou, nos entregou para a polícia do Distrito Federal. O pai, com filha à tiracolo, dizer, com alteridade, como se não tivesse nenhum discernimento ou escolha: “Nos colocaram no ônibus, passamos doze horas e estamos até agora sem refeição”. Neste caso, doze, duas meias dúzias. Prato cheio de ovos saídos da mesma cloaca de conhecida serpente. Oroboricamente, devorando o próprio rabo. 

Pior mesmo é não entender a grande piada, do brother. Queriam, mais uma vez, vender a ideia da estupidez brasileira. Contra a qual todos e quaisquer esforços dos indivíduos, academias, instituições, poderes instituídos brasileiros, de nada adianta face à vulnerável e indigna forma de viver destes a golpear com os meus paus e pedras as identidades brasileiras. 

Compadeço menos da esperteza que deve haver por trás de tudo isso. Neste caso, a mão justa precisa pesar mais. É preciso que se legisle de forma internacional sobre quem está por trás dos brasileirinhos de verde e amarelo, vovós, papais, caminhoneiros, aposentados, as insignificantes ervilhas que pisaram a rampa, gramado, lago, memória e patrimônio, não têm olhos para ver? Nem ouvidos. Foram incapazes de ouvir o ruído do avião, partiu em disparada, em gigantesca covardia, como a estupidez e a própria natureza de tudo isso – que, se espera, seja, urgentemente, página virada da história.

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Geórgia Alves é escritora e jornalista. Pesquisadora e Mestra em Teoria Literária pelo Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Literatura Brasileira, pelo mesmo programa. Há 18 anos estuda a obra de Clarice Lispector e a relação com o Recife. Tem três livros seus: Reflexo dos Górgias (Editora Paés), Filosofia da Sede (Chiado Editora, pela qual também participa de três Antologias de Poesia de Língua Portuguesa). E "A caixa-preta" (pela Editora Viseu). Participa da Coletânea de Contos do CAPA, Recife de Amores e Sombras (2017), "Cronistas de Pernambuco" (2012), da Carpe Diem, e "Mulherio das Letras Portugal" (2020). Assina roteiro e direção dos curta-metragens "Grace", do projeto coletivo "Olhares sobre Lilith", de 26 videospoemas inspirados nos poemas de "As filhas de Lilith", um abecedário de mulheres; e "O Triunfo", que recebeu vários prêmios. No Brasil e Cuba. Segundo afirma, "outros estão porvir". É professora de Arte. Ensina. Estética, História da Arte e Teoria. Orienta outros autores.

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