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Literatura

Iaranda Barbosa e as Palavras de Silêncio

Por: SIDNEY NICÉAS
Utilizando o fantástico como arma, a escritora pernambucana Iaranda Barbosa conversou com o Tesão sobre seu novo livro

Foto: Divulgação/Arte Tesão Literário

21/08/2022
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*Por Sidney Nicéas

Inevitável não começar essa matéria sem destacar o protagonismo que a escritora pernambucana Iaranda Barbosa vem conseguindo com o seu trabalho literário. Num segmento em que mulheres e negras ainda se esfolam para conseguir espaço, Iaranda, que é ambas, vai construindo uma sólida estrada. Doutora em teoria da Literatura pela UFPE, foi finalista do Prêmio Literário Maria Firmina (2021) com sua novela histórica Salomé (Mirada, 2020), tendo se firmado também como excelente contista e cronista. É nessa pisada que Iaranda entra na reta final do financiamento coletivo do seu mais novo livro, “Palavras de Silêncio” (Mirada, 2022), uma pedrada de contos fantásticos produzidos para refletir um tanto destes tempos em que vivemos, em que realidade e ficção andam se misturando e produzindo formas diferentes de se enxergar a vida.

“Palavras de Silêncio tem a ver com o modo literário no qual ele se insere. Quando terminamos a leitura de uma obra fantástica, a inquietação, a laceração e outros efeitos que abalam o nosso sentido de realidade são de uma intensidade tamanha que nos faltam palavras e nos resta silêncio para tentar assimilar o que aconteceu no texto e por que ele segue ecoando dentro de nós. Acredito que as pessoas precisam conhecer a literatura com essa vertente, ou se familiarizar com ela, considerada tão elitista e durante tanto tempo rejeitada exatamente por romper com o senso comum e não permitir ao leitor uma resposta unívoca para os desfechos”, define a autora.

E é muito interessante trazer essa pegada agora, já que Iaranda é pernambucana e cresceu convivendo com todo um imaginário fantástico que o Estado possui, mais ainda na capital. “Pernambuco é mágico, maravilhoso, fantástico, assombroso. Cresci ouvindo histórias sobrenaturais e com superstições que fazem parte do meu cotidiano até hoje. Pernambuco está repleto dessas histórias. Eu não acredito nas assombrações, mas que elas existem, existem (risos). Nem sempre temos explicações plausíveis para os acontecimentos deste mundo fragmentado e caótico no qual vivemos. Por que a ficção teria?”, provoca.

No contexto atual, em que o virtual tem se misturado de maneira intensa ao real, Iaranda não deixa de se incomodar com a cultura de likes que se estabeleceu, que vem apequenando o jornalismo, por exemplo, coisificando a arte e facilitando a falta de mergulho. Com a Literatura, segundo ela, não tem sido diferente. “Eu encaixo a literatura mais ou menos na mesma direção do jornalismo dos likes. Há aquelas pessoas preocupadas em realizar um trabalho legal e, portanto, estudam, pesquisam, aprimoram a escrita, respeitam o leitor. E há outras que escrevem os temas da moda, para entrarem na “lacração”, pois sabem que em muitos casos terão mais likes, vendas e views”.

Voltando ao livro, outra característica relevante de “Palavras de Silêncio” é que o protagonismo feminino impera no trânsito dessas histórias que carregam o sobrenatural em seu seio - lendas urbanas, rurais, literárias, personagens do cotidiano e seres maravilhosos que vivenciam metamorfoses e situações insólitas que nos fazem questionar nossa visão de realidade. Não é coincidência isso. “Geralmente os contos de corte fantástico têm protagonismo feminino, de forma mais constante, quando eles são escritos por mulheres. Observei isso depois de Palavras de Silêncio e percebi que surgiu de modo espontâneo em alguns contos. Já em outros foi intencional mesmo (não direi quais, claro). Penso que ali tem muito de mim no tocante às discussões existencialistas, na potência e no humor de algumas personagens”.

Ampliando esse tema, a autora bate forte quando se refere à mulher e sua luta por afirmação. “Ser mulher é estar em alerta constante para não sofrer violências, se auto afirmar, provar que é competente e, ainda assim, te chamarem de louca, histérica ou mentirosa quando você se impõe ou denuncia algum crime”, crava.

A capa do livro é um capítulo à parte. Criada pelo músico e artista plástico Neilton Carvalho - muito conhecido pelo seu trabalho musical na banda Devotos -, a capa traz diversos elementos da obra que a prometem elevar à elemento narrativo. “Eu queria que a leitura do livro iniciasse e terminasse pela capa. A capa reflete outro propósito do livro: trazer a periferia para dentro da literatura e levar a literatura para a periferia. Eu sempre digo que aquele trabalho não é uma capa, mas sim uma obra de arte”.

“Palavras de Silêncio” tem um time forte por trás, amparando a autora: além da já citada capa de Neilton Carvalho, o prefácio é assinado pelo cineasta Adriano Portela, a orelha do livro traz o poeta Marcos de Andrade Filho, o posfácio foi escrito pela jornalista Geórgia Alves e a quarta capa contou com a presença do linguista Vinícius Nicéas. A obra sairá pelo Selo Editorial Mirada e está sendo vendido através do financiamento coletivo, uma espécie de pré-venda, pelo site do Abacashi. Nele é possível adquirir o livro com brindes e mimos exclusivos para quem comprar na pré-venda. Um dos brindes é se tornar personagem de um conto inédito. Iaranda explica: “Quem adquiriu logo no início teve a oportunidade de entrar agora, em Palavras de Silêncio. O conto é inédito e criado para a pessoa. Ela com certeza se reconhecerá não apenas pelo nome próprio, mas pela personalidade do personagem e suas nuances. Quem adquirir até o final do financiamento terá o conto publicado no próximo livro ou, quem sabe, em alguma revista literária”.

A gente bateu um papo exclusivo com Iaranda Barbosa, por e-mail, que reproduzimos na íntegra, abaixo. Nele, a autora amplia e aprofunda os temas da matéria e ainda traz outras coisas relevantes, como o momento político atual, as fakes news e o prazer da leitura. Ao final, deixamos o link para acessar o financiamento coletivo e os contatos da autora.


TESÃO LITERÁRIO- Por que Palavras de Silêncio?

IARANDA BARBOSA- Em relação ao título, Palavras de Silêncio tem a ver com o modo literário no qual ele se insere. Quando terminamos a leitura de uma obra fantástica, a inquietação, a laceração e outros efeitos que abalam o nosso sentido de realidade são de uma intensidade tamanha que nos faltam palavras e nos resta silêncio para tentar assimilar o que aconteceu no texto e por que ele segue ecoando dentro de nós. Palavras de Silêncio pediu para nascer este ano (risos). Ele já vinha se desenhando desde 2020, junto com Salomé, e de última hora, pois estava nos planos lançar outro livro e não ele, decidi mudar de ideia, pois as narrativas fantásticas estavam mais afins com o momento. Acredito que as pessoas precisam conhecer a literatura com essa vertente, ou se familiarizar com ela, considerada tão elitista e durante tanto tempo rejeitada exatamente por romper com o senso comum e não permitir ao leitor uma resposta unívoca para os desfechos.

TL- Como foi dar vida a narrativas fantásticas em tempos de uma realidade que anda superando a ficção?

IB- Um dos propósitos do fantástico é mostrar aos leitores que a realidade ficcional é fragmentada, muitas vezes ilógica, labiríntica e insólita porque essas características vêm da realidade empírica. Nem sempre temos explicações plausíveis para os acontecimentos deste mundo fragmentado e caótico no qual vivemos. Por que a ficção teria?

TL- O Recife é palco para a maioria destes contos, uma cidade autofágica e mergulhada em histórias assombradas. O que há de mítico nessas ruas, becos e pontes? Como definir o Recife?

IB- Não apenas o Recife, mas Olinda também aparece como cenário no livro em algum momento. Pernambuco é mágico, maravilhoso, fantástico, assombroso. Cresci ouvindo histórias sobrenaturais e com superstições que fazem parte do meu cotidiano até hoje. Quem nunca desemborcou a sandália da mãe com medo de que ela morresse? Comadre Fulozinha, a Menina sem nome, a mulher que virava porca, o homem que se transformava em cupim, a cobra que saía à noite para mamar no peito da mulher puérpera, os defeitos físicos que ficariam para sempre caso o galo cantasse naquele momento... Pernambuco está repleto dessas histórias. Eu não acredito nas assombrações, mas que elas existem, existem (risos).

TL- Qual medida você encontrou para esses contos fantásticos? No caso do Recife, com seus assombros, tem mais do realismo mágico latino-americano, onde o “estranho” é corriqueiro? Ou não é para tanto?

IB- Nem todos os contos se passam no Recife e mesmo os que se passam trazem a cidade como qualquer outro lugar do mundo, ou seja, é um ambiente universal. Acredito que temos muito mais em comum com os outros países latino-americanos do que percebemos. Às vezes nos esquecemos de que somos latinos e olhamos os outros países com certa distância e (in)diferença. Acredito que o livro também vem com o propósito de aproximar as pessoas da literatura fantástica, modo narrativo tão comum entre os nossos vizinhos e tão desconhecido entre nós.

TL- A arte da capa, criada por Neilton Carvalho, é primorosa e traz simbologias relevantes. Fala sobre ela - foi um presentaço pra você, não?

IB- Quando eu vi a capa finalizada só me restaram palavras de silêncio (risos). Neilton e eu conversamos apenas uma vez virtualmente pelo google meet. Ele havia terminado de ler o livro e me disse que já estava com algumas ideias, então, eu não quis interferir e pedi apenas que a capa tivesse elementos dos contos que pudessem ser identificáveis ou interpretáveis e que houvesse um elemento na cor vermelha (procurem com atenção quando pegarem o livro). Ou seja, eu queria que a leitura do livro iniciasse e terminasse pela capa. A capa reflete outro propósito do livro: trazer a periferia para dentro da literatura e levar a literatura para a periferia. Eu sempre digo que aquele trabalho não é uma capa, mas sim uma obra de arte. Um presente de valor inestimável de uma pessoa que eu admiro há mais de 20 anos.

TL- A campanha por financiamento coletivo está na reta final e ainda não atingiu a meta (mas está se caminhando para isso). Uma das recompensas é o apoiador se tornar personagem de um dos contos. Conta como é isso…

IB- Acredito que até o final do financiamento atingiremos a meta porque além do que está registrado no Abacashi, as pessoas também estão fazendo pix, me dando em espécie e/ou fazendo transferência bancária (não contavam com a minha astúcia). A última recompensa para quem comprar agora, durante a pré-venda, é ser personagem de um conto fantástico ou realista se a pessoa assim decidir. Quem adquiriu logo no início teve a oportunidade de entrar agora, em Palavras de Silêncio. O conto é inédito e criado para a pessoa. Ela com certeza se reconhecerá não apenas pelo nome próprio, mas pela personalidade do personagem e suas nuances. Quem adquirir até o final do financiamento terá o conto publicado no próximo livro ou, quem sabe, em alguma revista literária.

TL- Você é mulher, negra e escritora e o protagonismo feminino é marca deste seu novo livro. O que tem de Iaranda nesses contos?

IB- Geralmente os contos de corte fantástico têm protagonismo feminino, de forma mais constante, quando eles são escritos por mulheres, haja vista os trabalhos de Silvina Ocampo, Elena Garro, Amparo Dávila e Emília Freitas, por exemplo. Observei isso depois de Palavras de Silêncio e percebi que surgiu de modo espontâneo em alguns contos. Já em outros foi intencional mesmo (não direi quais, claro). Penso que ali tem muito de mim no tocante às discussões existencialistas, na potência e no humor de algumas personagens.

TL- Aliás, como é ser mulher hoje, em meio a uma transformação da sociedade que parece sempre engatinhar?

IB- Ser mulher é estar em alerta constante para não sofrer violências, se autoafirmar, provar que é competente e, ainda assim, te chamarem de louca, histérica ou mentirosa quando você se impõe ou denuncia algum crime. Lembro sempre de uma frase que ouvi na série “Como defender um assassino”, que a personagem, a advogada Tegan, disse a Michaela mais ou menos assim: “Se ele (Simon) conseguir a vaga falhar, ele não serve para fazer esse trabalho, mas se você conseguir e falhar, as mulheres não servem para fazer esse trabalho”.

TL- Voltando ao tema do Fantástico, impossível não falar disso sem entrar no momento político absurdo que vivenciamos: como você enxerga todas essas narrativas, amparadas pelas mídias digitais, que atuam mais como contra-informação do que como ferramentas para esclarecer o eleitor?

IB- Logo no início tudo me parecia absurdo e totalmente surreal, mas aos poucos eu fui percebendo que havia textos que eram tão ridículos que quem acreditava era porque possuía muito mau-caratismo e cinismo disfarçados de ingenuidade. Ou seja, era evidente que as pessoas não acreditavam naquilo que estavam lendo, mas fingiam acreditar para justificar as perversidades e a falta de decência. É óbvio que há algumas notícias que apresentam certo trabalho destinado a ludibriar e com argumentos pseudocientíficos, mas a grande maioria é tão sem fundamento que chega a ser risível se a situação não fosse trágica. E esse trabalho de disseminar notícias falsas tanto é realizado por integrantes de grupos que são pagos para isso, e que estão tecnologicamente bem amparados, quanto por pessoas comuns, que dizem estar lutando contra ideologias comunistas, destruidoras da família e dos bons costumes. Ambos, na minha opinião, perversos e conscientes do que fazem, pois colocam não apenas em risco a saúde das pessoas, como também ampliam preconceitos, haja vista os absurdos sobre a vacinação que, entre inúmeros absurdos, foi relacionada ao contágio do vírus do HIV.

TL- Como você enxerga esse modelo social à Black Mirror, em que likes estão valendo mais do que conteúdo, onde o jornalismo cada vez mais se rende apenas ao volume de views, em que pessoas são elevadas não exatamente pelas suas competências?

IB- A resposta é parecida com a anterior. Esse tipo de jornalismo se interessa por likes e views porque existe um público assíduo e ávido por esse tipo de conteúdo e que está disposto a curtir e visualizar certas notícias. Por que o jornalismo sensacionalista faz tanto sucesso? Por que os jornais que mostram cenas de violência explícita têm tanta audiência? Porque as pessoas gostam de consumi-los. Agora, cabe ao profissional decidir se participa ou não de determinados veículos. Não condeno quem diz sim, pois os boletos precisam ser pagos, mas ao mesmo tempo, há de se pensar se vale a pena prestar um desserviço à população após, no mínimo, quatro anos de curso superior.

TL- Como você encaixa a Literatura nesse cenário?

IB- Eu encaixo a literatura mais ou menos na mesma direção do jornalismo dos likes. Há aquelas pessoas preocupadas em realizar um trabalho legal e, portanto, estudam, pesquisam, aprimoram a escrita, respeitam o leitor. E há outras que escrevem os temas da moda, para entrarem na “lacração”, pois sabem que em muitos casos terão mais likes, vendas e views. Já outras pessoas se dispõem a produzir unicamente uma literatura engajada e comprometida. Quanto a isso, eu sigo concordando com Julio Cortázar: o único compromisso que a literatura deve ter é com a linguagem. E complemento com Vargas Llosa: a literatura não deve ter camisa de força.

TL- Para finalizar, perguntamos: ler é…

IB- É conseguir se deleitar e ao mesmo tempo refletir sobre a realidade que te rodeia. É estabelecer conexões com o pensamento das outras pessoas, seja de tempos anteriores seja dos contemporâneos, e perceber como dialogamos, sofremos dos mesmos males, ansiamos pelas mesmas mudanças ou nos alegramos pelos mesmos motivos. É conseguir avaliar, quando fechar o livro, se você continua sendo a mesma pessoa.

 

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